Embolando Palavras

Entrando no debate sobre o diploma de jornalista

Demorei a entrar no debate sobre o fim da obrigatoriedade do diploma de nível superior para exercício da profissão de jornalista porque ainda não tinha opinião formada sobre o assunto. Aliás, não sei se cheguei a uma conclusão definitiva. Mas confesso que depois de ler muitas opiniões divergentes, estou mais propenso a apoiar a decisão do STF, anunciada na última quarta-feira (17/06), que pôs fim à exigência do canudo.

Deve haver argumentos mais convincentes para defender a exigência do diploma além dessa afirmação reducionista que sustenta que “só é bom jornalista quem tem formação acadêmica”. Os inúmeros exemplos de profissionais brilhantes, sem diploma, em atuação no mercado são suficientes para derrubar essa tese. Fora isso, o simples acompanhamento do trabalho da nossa mídia comprova que um título de graduação não é atestado de bom jornalismo.

Li a carta da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) protestando contra a decisão do STF e, fora a embromação retórica, o único argumento levantado é que o jornalismo é uma “atividade profissional especializada” e seu exercício “exige sólidos conhecimentos teóricos e técnicos, além de formação humana e ética”. Tenho absoluta convicção que aprender meia dúzia de técnicas de redação não é uma coisa tão complexa, como defendem alguns camaradas de profissão.

Neste ponto, sou obrigado, pela primeira vez, a concordar com Reinaldo Azevedo, blogueiro da Veja:

Há técnicas para se fazer uma dissertação correta. Há técnicas para uma narração correta. Há técnicas para uma reportagem regulamentar. Mas dominar o bê-á-bá da dissertação não faz de ninguém um articulista. Dominar o bê-á-bá da narração não faz de ninguém um romancista ou contista. Dominar o bê-á-bá do texto jornalístico não faz de ninguém um jornalista.

O pior é que muitos estudantes passam anos nos bancos acadêmicos e saem de lá sem conseguir, ao menos, escrever um lead razoável (o que há de mais prosaico na chamada “linguagem jornalística”) – o que dirá demonstrar uma suposta formação cultural, filosófica, humana e ética. Não raro, quando no exercício do jornalismo, não conseguem superar a superficialidade da clareza: limitam-se à reprodução do senso-comum e de velhos clichês. Talvez por isso, vemos cada vez mais o verdadeiro jornalismo investigativo dar lugar ao “jornalismo declaratório” ou àquela linha defendida pelo diretor geral de jornalismo da TV Globo, Ali Kamel, para quem fazer jornalismo é “testar hipóteses”.

Façam uma pesquisa entre a categoria e pergunte m quem, entre os nobres “jornalistas de formação”, já leu, por exemplo, Machado de Assis, José de Alencar, Clarice Lispector, Euclides da Cunha, Eça de Queiroz, José Saramago, Dostoievski, Tolstoi, Kafka, Kant, Cervantes, Goethe, Oscar Wilde, C.S.Lewis, Gabriel Garcia Marquez, Baudrillard, Josué de Castro ou Marilena Chauí. Não vale citar os livros obrigatórios do vestibular… rs. Receio que o resultado vai ser frustrante.

Experimentem, em qualquer redação de qualquer veículo de imprensa, puxar conversa com os caros profissionais da informação sobre, por exemplo, o que a professora e filósofa Marilena Chauí, em “Simulacro e poder – Uma análise da mídia” (Editora Fundação Perseu Abramo, 2006), chama de “condição pós-moderna” ou “a existência social e cultural sob a economia neoliberal”. Correrá o sério risco de falar ao vento. A maioria dirá, em uníssono, que isso não tem nada a ver com jornalismo – mas continuarão afirmando que possuem elevada bagagem intelectual, filosófica e prosopopéica.

O grande Alberto Dines, contrário à decisão do STF, sustenta, em artigo no Observatório da Imprensa, que “nas escolas de jornalismo os futuros profissionais são treinados por professores de ética e legislação e sabem perfeitamente até onde podem ir”.

Dines surpreende pelo romantismo do argumento que, se fosse levado a sério, tornaria sem sentido a própria existência de um Observatório da Imprensa, pois não haveria a necessidade de “vigiar” os excessos, distorções e manipulações da imprensa, uma vez que, graças ao “treino ético” recebido na graduação, o jornalista jamais pisaria na bola. É estranho, porque o próprio Dines, em outro artigo, defendeu o contrário do que agora abraça:

O que distingue o jornalista não é o diploma, é a capacidade de estimular o intelecto da sua audiência. O resto é almanaque ou espetáculo.”

Noto muita pretensão, presunção e arrogância em certas defesas apaixonadas do jornalista como ser iluminado, portador da divina sabedoria e único capaz de levar informação de qualidade à opinião pública. Essa visão parece querer elevar o jornalista a um nível de existência acima dos simples mortais, como se fosse alguém que não pudesse ser questionado nem contrariado, porque nunca comete erros, nunca está equivocado e nunca age por interesse próprio.

No artigo Os novos papéis do jornalismo, disponível no Observatório da Imprensa, Ivan Torraca reproduz a análise de Carlos Chaparro, doutor em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, sobre a verdadeira crise do jornalismo:

“A grande crise do jornalismo é que nossas crenças estão assentadas num tempo que não existe mais, em que o jornalismo podia olhar a realidade, interpretar e algum tempo depois noticiar”.

“Os grandes acontecimentos são noticiados no momento em que acontecem e só acontecem quando são noticiados. Isto deu aos sujeitos sociais o poder extraordinário de atuar deliberadamente sobre os cenários da atualidade.”

“Um dos defeitos do jornalismo é a arrogância, que leva o jornalista a acreditar que as notícias saem das redações, que são donos do poder, mas na verdade nós dependemos das fontes. É preciso redescobri-las, o bom repórter é aquele que tem boas fontes.”

Compreendem que a questão vai muito além do quiprocó do diploma?

Carlos Brickman, no mesmo Observatório da Imprensa, afirma:

Muitos protestam por ter gasto dinheiro numa faculdade cujo diploma se tornou desnecessário, ou por ter perdido anos de sua vida no estudo. Estão errados: exercer o jornalismo exige conhecimento, não um canudo de papel com o nome escrito em letras góticas. Se a faculdade de jornalismo der este conhecimento, terá cumprido sua missão, terá dado retorno ao investimento de tempo e de dinheiro. Quem exerce dignamente a profissão de jornalista, com ou sem diploma, jornalista é.

É hora de deixar a retórica corporativista e alarmista de lado. O fim da obrigatoriedade significa apenas que o diploma deixou de ser exigido, não que perdeu a validade – nem tão pouco significa o fim do jornalismo, como prevêm os mais apocalípticos.

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Uma opinião sobre “Entrando no debate sobre o diploma de jornalista

  1. danieldantas79 em disse:

    Alisson,

    a formação que tivemos e que muitos tiveram em gerações passadas é capenga.

    Vou resumir meus argumentos em três pontos principais.

    Um jornalista sujeito crítico se forma em três níveis. Dois são absolutamente independentes de uma formação superior em jornalismo. O primeiro diz respeito à formação humanística, a leituras, a um “talento” para escrita. O segundo diz respeito a aprender uma série de regras de redação que qualquer um aprende nas redações e que não precisa gastar cinco anos de sua vida para aprender.
    Aí reside o problema e a ponte para o próximo passo. Eu sai da graduação com a impressão que tinha gastado cinco anos para aprender uma única coisa que valia: o que é um lead. Isso não é fruto de um curso superior em jornalismo. É resultado de um mal curso.
    O terceiro elemento a gente não aprende nas redações, não aprende em conversas entre pares, não entende em nível de senso comum. Jornalismo, assim como comunicação, é ciência. Tem pesquisa, produção, e isso é fundamentalmente necessário para que sejamos sujeitos – e não objetos – na nossa atuação. Eu nunca ouvi, fora da academia, discussões pertinentes sobre questões de linguagem, discurso, ideologia, efeitos midiáticos de longo prazo, teorias do jornalismo, rotinas de produção da notícia, gatekeeper, agendamento… essas coisas, penso como profissional e pesquisador, são fundamentais à formação.
    Claro que se Gilmar Mendes quiser ouvir Alberto Dines ou Marques de Mello para discutir jornalismo e comunicação como ciência, não poderá mudar seu voto. Eles ficaram no tempo. Mas a coisa que mais me deixou revoltado foi o fato de o argumento vencedor na votação ter sido afirmar que jornalismo não exige uma capacitação científica específica. Ora, isso é uma tentativa de desconsiderar todos os que pesquisam jornalismo e comunicação no Brasil e no mundo. Entre eles, eu e um mundo de gente que estava este fim de semana em Salvador conversando sobre Discurso e Mídia. Ou tantos, como eu, que costumam apresentar os seus resultados de pesquisa em congressos como o Intercom.

    Essa formação científica – existente e fundamental – é instrumento para a manutenção e ampliação democrática. Aliada à auto-regulamentação (Conselho Federal de Jornalistas) e ao fato inconteste de que não existe mais monopólio sobre a informação por parte das empresas jornalísticas e dos jornalistas. São passos na rota por uma maior democracia da informação.

    P.S.: Você elenca um monte de gente que era jornalista sem diploma. Mas esse é o caminho natural das profissões enquanto se constituem num campo. Foi assim com todas elas até que o conhecimento científico se especializa de forma irremediável (vide medicina, direito, arquitetura, engenharia…)

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