Embolando Palavras

Diploma em debate II

Transcrevo minha resposta ao colega Daniel:

Daniel, você cita três níveis para a formação do jornalista enquanto sujeito crítico: 1) formação humanística (incluindo o talento para a escrita); 2) domínio de técnicas de redação; 3) compreensão do jornalismo enquanto ciência e a consequente formação científica. Correto. Como você destacou, os dois primeiros independem de formação universitária específica. O terceiro, pelo que entendi do seu raciocínio, dependeria de capacitação acadêmica. A necessidade de assimilar esse repertório de conhecimento científico (vamos usar esse termo, apesar de considerá-lo impreciso para o contexto) é inquestionável. Concordo com você, novamente, neste ponto. O que questiono é a idéia de que o simples fato de ter acesso a essa formação resulte, obrigatoriamente, em um sujeito crítico.

Você diz: “Eu nunca ouvi, fora da academia, discussões pertinentes sobre questões de linguagem, discurso, ideologia, efeitos midiáticos de longo prazo, teorias do jornalismo, rotinas de produção da notícia, gatekeeper, agendamento (…)”. Pode ser. Permita-me, entretanto, acrescentar que raras vezes ouvi essas discussões na própria academia. Quando essas questões eram colocadas em pauta na sala de aula, não despertavam muito interesse da platéia (o termo é esse mesmo, porque os alunos estavam mais para meros espectadores do que para participantes ativos). Na maioria das vezes, o debate envolvia, além do (a) professor (a), mais dois ou três “chatos” (era assim que eram chamados, pelos demais colegas, aqueles que insistiam em atrasar a “hora do chopp” e prolongar a aula para aprofundar o debate).

Então, o conhecimento estava sendo compartilhado com todos, mas, na prática, pouquíssimos se apropriaram dele, por enxergarem o conhecimento como uma coisa puramente instrumental – serve para garantir nota boa na prova, mas depois é esquecido, por exemplo. Quantos jornalistas, em atuação no mercado, levam em consideração questões como linguagem, discurso, ideologia e efeitos midiáticos quando saem às ruas para apurar os fatos e retornam às redações para redigir as notícias que serão oferecidas ao distinto público? Quantos conseguem conciliar a suposta preparação científica recebida durante a graduação com o dia-a-dia da profissão? O que vejo, em grande parte, é um enredo encenado por reprodutores de uma técnica automática e irrefletida.

É por isso que não estou convencido que o fim da exigência do diploma represente alguma ameaça ou retrocesso ao exercício da profissão. Entendo (e isso, no meu entender, é o que há de mais relevante) que aqueles que anseiam pelo conhecimento, não somente pelo diploma, continuarão buscando a formação acadêmica (sem se limitar a ela, diga-se de passagem).

É verdade que a decisão dos ministros do STF se baseia em premissas, digamos, equivocadas. O argumento segundo o qual a obrigatoriedade do diploma representava uma ameaça à liberdade de expressão é facilmente desconstruído. O acesso à liberdade de expressão nunca foi exclusividade dos jornalistas. Nem o direito à opinião é uma primazia destes profissionais. A revolução da blogosfera está aí para comprovar.

Da mesma forma, afirmar, como fizeram os magistrados, que jornalismo não exige uma capacitação científica é um lamentável engano. Mas, deixando as comparações infelizes de Gilmar Mendes de lado, reitero que o diploma não assegura que alguém será, necessariamente, um bom jornalista. Como disse uma amiga, há pessoas que “nascem” jornalistas, enquanto outras, mesmo com formação acadêmica, nunca se tornarão jornalistas de verdade.

Compartilho da opinião do jornalista Eugênio Bucci, para quem “a manutenção do diploma deixou de ser prioritária para o atendimento das necessidades do cidadão relativas à informação.” Para Bucci, o prioritário é “a independência das redações e a preservação de um ponto de vista livre do poder; a capacidade de informar os cidadãos e fiscalizar o poder econômico”.

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