Embolando Palavras

Jornalismo medíocre

Eliane Brum (“O Olha da Rua”, Ed. Globo) comentou:

Muito jornalista experiente escorrega porque presume demais. E presume a partir de seus preconceitos, de sua visão de mundo, de sua vida cotidiana numa realidade muito diferente.

Concordo, mas com uma ressalva. Acho que jornalista tem que estar sempre com o desconfiômetro ligado. Não deve presumir, mas não pode deixar de desconfiar, cogitar, atentar para todas as possibilidades.

Presumir pode levar a conclusões precipitadas. Mas quando achamos que está tudo muito claro, muito na nossa cara, podemos perder os detalhes mais ricos ou o melhor da história. Aí chegamos a resultados fáceis, previsíveis, superficiais.

Jornalismo não é “testar hipóteses” nem pegar uma versão dos fatos e transformá-la na única versão possível. 

Fiz essa introdução para entrar num assunto que tem a ver com essa questão de presumir e se deixar levar por idéias óbvias demais.

No último domingo (28/06), a Folha de S. Paulo publicou uma matéria com o resultado de duas perícias, contratadas pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que comprovaram que a ficha reproduzida pelo jornal na primeira página na edição do dia 5 de abril é falsa.

Na ficha falsa, a ministra aparece qualificada como “terrorista” e “assaltante de bancos”, crimes que teriam sido atribuídos a ela na época da sua prisão pela ditadura militar. Dilma participou da fundação e era militante da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares – VAR-Palmares.

O Portal Vermelho conta um pedaço dessa história:

Em junho de 1969, Dilma presenciou a fundação da VAR-Palmares, em reunião clandestina em Mongaguá, no litoral de São Paulo, quando o Colina e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) se fundiram. Quando Carlos Lamarca refundou a VPR três meses depois, retirando-se da VAR com um grupo expressivo, Dilma permanceu na organização, onde conheceu seu novo companheiro Carlos Franklin Paixão de Araújo, futuro deputado estadual pelo PDT do Rio Grande do Sul. Em 16 de janeiro de 1970, Dilma foi presa, integrando a lista das mulheres mais torturadas na história de nosso país.

Vamos em frente. Quando li a matéria, levei o assunto à comunidade RN Política, no site de relacionamentos orkut. Para meu espanto, diante da notícia, um colega jornalista fez o seguinte comentário:

É porque a Dilma nunca cometeu nenhum crime. A responsável foi a companheira Estela. E para saber da verdade, só não podemos confiar no depoimento dela. A própria ministra disse em uma CPI que mentia, quando foi presa pelos crimes que cometeu.
O autor da besteira acima atende pelo nome de Allan Darlyson, repórter de política no Correio da Tarde. Na verdade, o rapaz ainda não terminou o curso, mas acha que saca tudo de jornalismo. Todavia, seu comentário extremamente infeliz revela despreparo, dificuldades cognitivas e uma capacidade absurda de descontextualizar os fatos.
 
Ao replicar a argumentação do colega, sustentei que estávamos diante de uma questão ética emblemática: a reportagem publicada pelo maior jornal do país, reproduzinho a “ficha suja” da ministra Dilma Rousseff, era uma fraude. 
 
Trata-se de um episódio flagrante de manipulação da informação, uma vez que a reportagem se baseou numa mentira (documento falso) para levar os leitores a acreditarem numa versão igualmente mentirosa dos fatos.
 
Por isso, um verdadeiro jornalista, consciente do seu papel na sociedade, não poderia jamais reagir de uma maneira tão irresponsável diante desse caso. Nem mesmo por brincadeira. 
 
Examinemos, outra vez, o comentário de Allan: “A própria ministra disse em uma CPI que mentia, quando foi presa pelos crimes que cometeu.
 
Para quem não lembra, ele se referiu ao episódio em que o senador José Agripino Maia (DEM/RN) tentou constranger a ministra Dilma Rousseff, citando o trecho de uma fala dela sobre a época em que foi presa e torturada pela ditadura militar. Agripino, descaradamente, tentou fazer parecer que Dilma disse uma coisa que ela, na verdade, não disse. Resumindo: ele DESCONTEXTUALIZOU a fala da ministra.
 
A descontextualização é uma forma sutil de falsear a verdade, como fez Allan em seu comentário. Ao usar a citação da ministra fora do seu contexto original, imitando José Agripino, Allan tentou nos enganar, contrariando uma premissa elementar do jornalismo: a busca pela verdade. O que ele fez vai, justamente, na direção oposta, pois se trata de um caso flagrante de falseamento da verdade.
 
Allan, em uma tréplica desastrada, disse que não falava como jornalista, mas apenas dava a sua opinião. Ainda tentou me dar lição de jornalismo, afirmando que eu não sabia distinguir “opinião” de “reportagem”. Dá para acreditar?! É surreal demais.
 
Transcrevo, abaixo, o comentário que postei na comunidade em resposta a essa patética justificativa de Allan:
 
“Estranho essa capacidade que algumas pessoas têm de assumir determinados papéis conforme a conveniência da situação. Mudam de papel com a mesma rapidez que se vestem e se despem de uma peça de roupa.
 
Imaginemos duas situações: 1ª) O jornalista escreve uma matéria ou reportagem sobre a questão da exploração sexual contra adolescentes, condenando veementemente essa prática nociva. 2ª) Fora da redação, o mesmo jornalista que escreveu a matéria ou reportagem condenando a exploração sexual contra adolescentes é flagrado num motel com uma adolescente. Ele tenta se defender dizendo que quem estava naquele motel com aquela adolescente era “o cidadão”, não “o jornalista”. Essa lógica (?) parece um tanto quanto absurda.
 
Cláudio Abramo, já falecido, em “A regra do jogo” (Companhia das Letras, 1993), afirmou: “Sou jornalista, mas gosto mesmo é de marcenaria…Minha ética como marceneiro é igual à minha ética como jornalista; não tenho duas”. Mais adiante, ele completou: “No jornalismo, o limite entre o profissional como cidadão e como trabalhador é o mesmo que existe em qualquer profissão. (…) O jornalista não tem ética própria. Isso é um mito. A ética do jornalista é a ética do cidadão. O que é ruim para o cidadão é ruim para o jornalista.” Com isso, quero destacar o caráter falacioso do argumento de Allan, que tenta se eximir de responsabilidade usando a desculpa que só se pronuncia como jornalista nas matérias que produz.”
 
Em relação à distinção entre “opinião” e “reportagem”, escrevi:
 
O jornalista imprime suas impressões, opiniões e conclusões em cada linha de cada parágrafo que escreve.
 

Não estou me referindo a gêneros jornalísticos (…). Trata-se de uma leitura mais simbólica (…). A “opinião” não está presente apenas nos espaços oficialmente destinados a ela (artigos, editoriais, colunas, entre outros).

Todo veículo tem algo chamado “linha editorial“, definida como “uma política predeterminada pela direção do veículo de comunicação ou pela diretoria da empresa que determina ‘a lógica pela qual a empresa jornalística enxerga o mundo; ela indica seus valores, aponta seus paradigmas e influencia decisivamente na construção de sua mensagem’”.
 
 
Traduzindo: a linha editorial do veículo influencia na sua abordagem sobre os fatos (construção da mensagem). Portanto, o relato que o veículo oferece ao público está, essencialmente, impregnado da opinião desse veículo.
 

É simples comprovar: numa manifestação estudantil em favor do passe-livre, por exemplo, conforme sua linha editorial, o veículo dará mais ênfase à causa da manifestação propriamente dita (o passe-livre) ou aos possíveis transtornos gerados pelo ato dos manifestantes (engarrafamento no trânsito, reclamações dos motoristas, entre outros). Ao dar ênfase a determinado aspecto da notícia, o veículo está dizendo ao público, mesmo que indiretamente, que considera esse aspecto mais relevante. Portanto, está opinando – ainda que disfarçado de objetividade.

Quanto à “linha positivista do jornalismo” que o colega menciona, o discurso do “jornalismo objetivo”, como mencionei antes, é bem discutível. Para Kant, a apreensão objetiva da realidade é tarefa impossível. No artigo “Jornalistas para que e para quem?”, Lúcia Helena Mendes Pereira comenta que “toda e qualquer noticia, por mais objetiva que pareça, passa pela subjetividade da escolha, do olhar e do modo de transmissão produzido por cada jornalista”. Ela ainda questiona: “A quem interessa encobrir o caráter ideológico que é inerente tanto à notícia, quanto à profissão?”. Fica a dica de reflexão.”

Após essa extensa argumentação, Allan conseguiu produzir outro comentário ainda mais tosco, dessa vez partindo para a pessoalização do debate e assumindo o cômodo lugar de vítima, enquanto eu era o “acusador” que o desmerecia profissionalmente:
 
Enquanto você tenta desqualificar meu desempenho profissional por causa de uma opinião a respeito da ministra, que é perfeitamente normal, esquece que você próprio já manifestou opinião contra o senador José Agripino e vários outros políticos, inclusive, contra João Maia, continua com uma acusação infundada que já foi demitida.
Diante disso, cheguei ao limite da minha paciência. Não adianta tentar debater com gente medíocre. Allan é adepto do jornalismo medíocre, alguém que só “presume”, como afirmou Eliane Brum, “a partir de seus preconceitos” e se nega a enxergar a realidade.
Anúncios

Navegação de Post Único

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s