Embolando Palavras

Morte, imagem e espetáculo

Palco do estádio Staples Center, em Los Angeles, local do espetáculo do funeral de Michael Jackson

Palco do estádio Staples Center, em Los Angeles, local do espetáculo do funeral de Michael Jackson

Tudo é imagem. Tudo é espetáculo. 

No início da década de 1970, intelectual francês Guy Debord chamou a atenção para um fenômeno:

A “sociedade de consumo”, em função do rápido desenvolvimento tecnológico e da consequente expansão dos meios de comunicação de massa, transformara-se em “sociedade do espetáculo”.

A psicanalista Maria Rita Kehl (“Videologias”, Boitempo Editorial, 2004), explica:

“Da indústria cultural à sociedade do espetáculo, o que houve foi um extraordinário aperfeiçoamento técnico dos meios de se traduzir a vida em imagem, até que fosse possível abarcar toda a extensão da vida social.”

(…)

“O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma ‘relação social entre pessoas, mediada pela imagem‘.”

Voltando a Debord, o espetáculo, segundo ele, consiste na multiplicação de ícones e imagens.

Mas o aglomerado de imagens, por si só, não quer dizer muita coisa. O que importa é o significado que atribuímos a elas, quando essas imagens passam a constituir um símbolo que unifica o laço social.

Há alguns anos, o “espetáculo” passou a ser a forma predominante dos conteúdos produzidos pela comunicação de massa. O termo “espetacularização da notícia”, inspirado no conceito de Guy Debord, se tornou amplamente utilizado para classificar esse novo jeito de levar informação ao telespectador. 

Para o sociólogo e jornalista Ciro Marcondes Filho, “a idéia de espetáculo se liga mais fortemente à TV do que a qualquer outro veículo”:

Telejornais, como ‘shows da vida’, extraem dos fatos toda a sua explosividade e os transformam em variedade e diversão.”

Na última terça-feira (07/07), 31 milhões de norte-americanos e outros tantos milhões de pessoas espalhadas pelo mundo inteiro viram, ao vivo pela TV, o espetáculo do funeral do astro pop Michael Jackson, morto em 25 de junho, quando estava com 50 anos.

A homenagem, em formato de show, foi transmitida por 19 emissoras norte-americanas e retransmitida por canais de todos os continentes. Além disso, os portais da internet registraram recorde de audiência durante a transmissão da cerimônia do velório.

A vida, a morte e a despedida de Michael Jackson foram, integralmente, traduzidas em imagem.

As emissoras cobriram o rito fúnebre como um “evento” artístico, revestido por uma atmosfera de comoção e reverência. O que seria essencialmente trágico (a morte do ídolo) se transformou em mais uma atração da indústria do showbiz.

Nas chamadas dos telejornais brasileiros, apresentadores anunciavam os “melhores momentos” do grande acontecimento que durou quase três horas.

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