Embolando Palavras

O fim da indústria jornalística está próximo

Do Blog do Rafael Galvão:

De jornalistas e ascensoristas

Durante anos agências de notícias, mercado publicitário, propriedade dos meios de distribuição da notícia garantiram o florescimento de uma indústria jornalística inchada e redundante. A internet mudou tudo isso e está acabando com esse modelo. Essas mudanças não afetam apenas o ganha-pão de jornalistas. Afetam o meu, também. Como publicitário, minha formação profissional se deu em um mundo de mídia de massas em que uma campanha era normalmente bem resolvida com comerciais de TV, spots de rádio, anúncios de jornal e outdoors. Atualmente a publicidade vive uma crise de modelos importante, em que esse esquema de mídia começa a implodir; vive também a pior crise criativa de toda a sua história, e a internet tem um papel fundamental nisso. Espero que isso não me faça suspeito de dizer justamente o contrário do que vou dizer abaixo.A repercussão da queda da exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista tem me impressionado. Não por jornalistas com medo de que padeiros tomem o seu lugar, como disse o Leandro Demori. Mas porque eles vêm na decisão do Supremo o apocalipse para a sua profissão.

Eles estão enganados.

O apocalipse está vindo, sim. Mas não vem de Brasília (antes de mais nada: as pessoas, de maneira tendenciosa, tentam associar o nome funesto de Gilmar Mendes à decisão. E convenientemente esquecem que Joaquim Barbosa e Carlos Britto também votaram pela queda). É a falta de visão de vários jornalistas em analisar de maneira correta a realidade, a insistência em reclamar de uma garoa enquanto não vêm o furacão que se aproxima, que me impressiona

Explicando da maneira mais didática possível o que eu vejo como futuro provável:

1 – Jornais impressos caminham para a extinção porque não faz sentido comprar hoje a notícia lida ontem de graça na internet.

2 – Ao migrar em sua totalidade para a internet a notícia se transforma, definitivamente, em commodity. Nem todo mundo tem uma prensa; qualquer um pode ter um blog. Jornais vão concorrer com milhares, milhões de blogueiros que vão amplificar e depurar a notícia original.

3 – Por ser commodity, o seu “ecossistema de produção” forçosamente encolhe. Todos os dias passo os olhos em vários jornais e revistas impressos, locais e nacionais. Não ouso dizer que leio porque 80% das notícias não me interessam. Mas posso afirmar que as mesmas notícias estão em todos eles, com raríssimas — e normalmente pouco importantes — exceções.

4 – Menos leitores, menos anúncios, menos dinheiro. Essa redundância que se vê hoje na indústria jornalística perde o sentido, e a esmagadora maioria da indústria se torna dispensável.

5 – Sem dinheiro a grande maioria dos jornais, impressos ou eletrônicos, fecham.

6 – Em outros termos, isso significa o fim de uma indústria.

Não é mais uma questão de o que é desejável para uma categoria profissional. É sobre o que é possível, ou provável.

Mas o fim dos jornais não significa o fim do jornalismo — ou, num termo que talvez venha a se mostrar mais apropriado, da produção da notícia. TVs também fazem jornalismo. Rádios também. Levando-se em consideração a força das redes sociais, não é difícil em que a notícia crua seja dada pelas redes de TV — ou o que as suceda na internet, muito provavelmente uma salada multimídia em que os conceitos de rádio, TV e jornal perdem o sentido — e repercutida pelas redes na internet em análises, opiniões e links.

Do ponto de vista da notícia, aquela pequena quimera que se tornou a tábua de salvação putativa da indústria jornalística, não há necessidade de tantos meios de comunicação. Isso era necessário quando havia um público diverso e com poucas opções. Há muito pouca gente cobrindo os fatos, na verdade; o resto é interpretação e copidescagem — aquilo que blogs fazem de graça e em profusão.

O que faz a indústria jornalística é, na verdade, centenas ou milhares de pessoas dizendo a mesma coisa como se fosse novidade. A diferença é que tudo indica que, cada vez mais, isso vai ser feito pela própria sociedade, dona de seus próprios meios de produção e distribuição da informação. Na ausência da grande indústria jornalística, a notícia procurará outros canais de distribuição. Podem ser blogs de jornalistas independentes. Podem ser sites de organizações não governamentais dedicadas a um ou outro assunto. Podem ser sites de jornalistas que, com estrutura reduzida, farão exatamente o mesmo papel que um grande jornal hoje faz.

Mas esses produtores primários de notícias — que já não serão únicos e talvez sequer os mais importantes — existirão, muito provavelmente, em uma escala infinitamente menor do que a existente hoje. É isso que significa “o fim da indústria jornalística”. Não é o fim da produção e distribuição de notícias. É apenas o fim de um grande ecossistema empresarial de distribuição de um produto.

É por isso que é improvável que a figura do repórter profissional, do sujeito que é pago para buscar a notícia, desapareça. O que está sendo superado neste momento não é um valor universal — a necessidade humana de informação — mas um valor histórico: a formação de uma estrutura para o suprimento dessa necessidade. Durante muitas décadas, os jornais foram o veículo ideal para realizar essa função. Não serão mais.

Pode-se citar como exemplo a figura do correspondente estrangeiro. Pode-se perguntar: e para que correspondentes estrangeiros, mesmo? Eles fizeram sentido (e ainda fazem, embora bem menos) em um tempo em que a distribuição da notícia era cara e complexa. Isso acabou. A formação de redes sociais cada vez mais intrincadas e consistentes elimina essa necessidade. Qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento do mundo, alguma técnica de investigação de fatos e acesso a outros blogueiros ou pessoas no Facebook ou no Twitter pode narrar com precisão e talento determinado fato acontecido no Azerbaidjão ou no Sri Lanka ou em Cabrobó. O Pedro Dória está fazendo justamente isso na cobertura do resultado das eleições no Irã; o Idelber fez durante os ataques israelenses à Palestina.

Mas, aparentemente, a grande maioria dos jornalistas não consegue se enxergar fora de uma estrutura que se consolidou ao longo dos últimos 150 anos. Cada vez mais, lembram ascensoristas desconsolados diante do surgimento de elevadores automáticos, em pânico diante da superação dos elevadores com alavancas e portas pantográficas.

O que eles não parecem perceber é que a palavra-chave dessa nova configuração de mundo não é a notícia. De certa forma, nunca foi — porque ao contrário do que alguns jornalistas parecem acreditar, a notícia e a sua propagação não dependem exclusivamente deles. O que realmente vai definir o futuro da informação são as redes sociais que a internet possibilitou. E se eu fosse jornalista, estaria mais preocupado em entendê-las e me localizar dentro delas do que em reclamar de uma decisão do Supremo que, afinal, não vai mudar muita coisa.

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