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Ligações Perigosas

Prefeita Micarla de Sousa e seu esposo Miguel Weber ainda serão investigados em processo da “Operação Escambo”
Reprodução do trecho do relatório do processo que cita o nome da prefeita Micarla de Sousa e do seu esposo Miguel Weber na "Operação Escambo"

Reprodução do trecho do relatório do processo que cita o nome da prefeita Micarla de Sousa e do seu esposo Miguel Weber na "Operação Escambo"

A “Operação Escambo”, deflagrada em outubro de 2008 pela Polícia Federal, desmontou uma quadrilha acusada de sonegação fiscal em virtude de “transações cambiais ilegais”, com ação no Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Em Natal, o inquérito que originou a operação (Nº 551/07) apontou que 20 empresas ligadas à área de turismo estavam envolvidas com o esquema. A operação levou à prisão, entre outros, do bicheiro e presidente de honra da Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis (RJ) Aniz Abrahão David e do espanhol Francisco Javier Sanchez Rico, considerado o líder do grupo na capital potiguar.

Escutas telefônicas, realizadas com autorização judicial, revelaram a participação de Miguel Henrique Oliveira Weber, esposo da prefeita de Natal e proprietária da TV Ponta Negra, Micarla de Sousa Weber, nas “transações de câmbio ilícito”, conforme consta no relatório do processo nº 2008.84.00.010535-2 (consulte aqui) da Justiça Federal, localizado na 2ª Vara Federal da 5ª Região, em Natal.

De acordo com o relatório, um interlocutor de Miguel Weber identificado apenas como Assis, usando um número de telefone da TV Ponta Negra, recorreu ao investigado Aitor Sanchez para trocar R$ 15 mil (quinze mil reais) por dólares. O dinheiro seria destinado à Micarla de Sousa, que estaria na iminência de viajar à Venezuela.

Leia, a seguir, o trecho do processo em que Miguel Weber e Micarla de Sousa são citados:

“De igual forma, os áudios obtidos mediante monitoramento dos telefones utilizados pelos componentes do grupo denunciam um sem número de transações ilegais de câmbio realizadas com nacionais residentes nesta urbe (fls. 146/159), como várias negociações com as pessoas de NETO (várias trocas), JORGE (€ 15.000,00), ANTÔNIO (US$ 10.000,00 e US$ 6.000,00), BRUNO (€ 10.000,00 e € 28.000,00), BRUNO TAVARES MADRUGA (€ 61.000,00), MARCELINO (€ 20.000,00 e € 22.000,00), MÔNICA XAVIER SOARES FLOR (€ 16.000,00), ANDRÉ (€ 10.000,00), LUIZ CARLOS PETERSEN BARRETO (US$ 10.600,00), BRUNA (€ 22.000,00 e € 11.000,00), SINARA DE BARROS COUTO (US$ 5.000,00 e € 15.000,00) e VANESSA PONCIANO DE SOUZA (de 15 a 20 mil euros) (fls. 146/149), e muitos outros às fls. 150/159, dos quais sobressaem as transações de câmbio ilícito realizadas por MIGUEL HENRIQUE OLIVEIRA WEBER, ex-secretário de esportes e lazer do Governo do Estado do Rio Grande do Norte, com o investigado AITOR SANCHEZ, por meio de linhas de telefone celular cadastradas em nome da TV Ponta Negra e da Secretaria Estadual de Esportes e Lazer – SEEL/RN, nos valores de US$ 7.000,00 – alegadamente para sua cunhada, de nome “PRISCILA” -, e, para si, US$ 3.000,00, US$ 4.000,00 e £ 500,00 libras.

 As informações policiais assinalam, e também baseadas em escutas telefônicas, que um interlocutor chamado ASSIS, usuário de telefone cadastrado em nome da TV Ponta Negra, contatou o investigado AITOR SANCHEZ com a finalidade de realizar a troca de R$ 15.000,00 (quinze mil reais) por dólares, que seriam destinados à “MICARLA“, que estaria na iminência de viajar à Venezuela.  No contato, ASSIS indaga de AITOR se MICARLA o teria avisado, sendo informado que já teria tomado conhecimento através do seu irmão GORKA SANCHEZ, que fora à casa de MIGUEL WEBER na noite anterior à ligação telefônica.  Após isso, o cliente MIGUEL WEBER procura AITOR para tratar do câmbio, e este alega que MICARLA, chegando à Venezuela, necessariamente teria que fazer a troca para o bolívar.  Depois, MIGUEL WEBER liga para AITOR para que explicasse a situação novamente, aproveitando que MICARLA os estaria ouvindo, e AITOR voltou a falar sobre o pedido de câmbio, avisando que passaria a falar em código.  Na sequência, AITOR comentou com ASSIS que se MICARLA viajasse na tarde do outro dia ele poderia conseguir os dólares, já que pela manhã faria o “recolhimento nos hotéis”.

 Consoante a análise dos diálogos levada a efeito pela Polícia Federal, “MICARLA” é a pessoa de MICARLA DE SOUSA WEBER, atual Deputada Estadual e, fato público e notório, prefeita eleita de Natal/RN no último dia 03 de outubro.

 Ainda no que tange ao ex-secretário MIGUEL WEBER, impende assinalar que o seu nome é também mencionado no Relatório de Inteligência Financeira – RIF nº 14, de 12.07.2007, do COAF – Conselho de Controle de Atividades Financeiras, que comunicou à Polícia Federal (SIAPRO 08420.002830/2008-06) e ao Ministério Público Federal (SIAPRO 08420.013844/2007-66) a identificação de movimentações financeiras atípicas relacionadas principalmente ao investigado FRANCISCO JAVIER, por ter efetuado, em 09.02.2006, na conta corrente de titularidade da empresa ESPÂNICA ADMINISTRADORA DE IMÓVEIS LTDA, uma retirada em espécie de R$ 230.000,00 (duzentos e trinta mil reais), que seria para aquisição de imóveis.”

O referido processo dizia respeito à busca e apreensão de documentos e prisão preventiva de suspeitos. No site da Justiça Federal, consta a “baixa definitiva” do processo, em 23/12/2008, levando alguns interessados no assunto – inclusive esse escriba – a interpretarem, erroneamente, que a apuração havia sido arquivada.

Mas, conforme observou o colega Daniel Dantas, a “baixa definitiva” refere-se somente ao pedido de busca e apreensão e prisão preventiva dos suspeitos (outra etapa da “Operação Escambo), após o “cumprimento da diligência”, conforme se lê no próprio processo:

“Trata-se de procedimento no qual foi deferido pedido da autoridade policial presidente da presente investigação, cujo objeto a expedição de mandados de busca e apreensão e prisão preventiva dos investigados no inquérito policial nº 551/07, suspeitos da prática do crime de câmbio irregular de moedas.

Com o cumprimento da diligência, exaurido se encontra o objeto dos presentes autos, motivo pelo qual a baixa do feito se impõe.”

O processo-base da “Operação Escambo”, sob o nº 2008.84.00.013476-5 (consulte aqui), cujo responsável é o juiz-substituto da 2ª Vara Federal Mário Azevedo Jambo, está em andamento e encontra-se na fase de realização de audiências e coleta dos depoimentos das testemunhas. É nesta fase que será apurado se os réus são responsáveis ou não pelos crimes que lhes foram imputados.

Os nomes de Miguel Weber e Micarla de Sousa, por enquanto, constam apenas como “citados”. Isso porque, segundo explicação de uma fonte da 2ª Vara Federal, as gravações que envolvem o casal ainda não foram analisadas. Portanto, dependendo do resultado da análise da materialidade das provas, as coisas prometem ficar delicadas para os dois.

Caso seja constatada a veracidade da ligação deles com a quadrilha, como sugere o trecho que menciona a transcrição da escutas telefônicas, a prefeita e o marido poderão ser responsabilizados judicialmente, tanto no processo em curso quanto em outros mais que venham a ser abertos.

O fato é que nem Micarla nem Miguel estão, ainda, livres dessa nuvem que paira sobre suas cabeças. Agora é esperar para ver.

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4 opiniões sobre “Ligações Perigosas

  1. Chompoo em disse:

    Muito bom lembrar para o povo quão santos são os administradores municipais.

  2. Sinara de Barros Couto em disse:

    senhor alisson, muito me surpreendeu ver meu nome envolvido em um escandalo politico Natalense. Eu nao conheco essas pessoas envolvidas, sou de Sao Paulo, vivi minha vida toda nos Estados Unidos e nunca lideu com Euros. O senhor deve estar equivocado ou alguem usou meu nome para essas operacoes das quais sou acusada. Muito agradeceria a retirada do meu nome dessa sujeirada toda. Estou aa sua disposicao para qulquer esclarecimento ou comprovacao do que estou aqui declarando.
    Atenciosamente

    Sinara de Barros Couto

    • alissoncal em disse:

      Sinara, obrigado por entrar em contato com o blog. Quanto à citação do seu nome na “Operação Escambo”, como você deve ter percebido, trata-se de um trecho do PROCESSO que está na Justiça. Portanto, é uma informação oficial. Pode ser que seja um homônimo. Mas sugiro que você procure informações na 2ª Vara Federal da 5ª Região em Natal.

      Abraços.

  3. Andréa Lira em disse:

    Parabéns Alisson pela ótima cobertura da esquecida “Operação Escambo”, do qual a mídia local luta insistentemente em esconder do grande público.
    Ótimo texto, com uma excelente descrição dos nuances jurídicos que poderão refletir sobre o primeiro casal do município.
    Esse profissionalismo é raro!!

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