Embolando Palavras

O diabo é a ingenuidade

Cheguei ao Oleo do Diabo, blog editado pelo Miguel do Rosário, através do link enviado por uma amiga. Desde quarta-feira, pensava em escrever um texto sobre a repercussão vagabunda que a imprensa deu ao evento do presidente Lula em Alagoas, quando o petista agradeceu pelo apoio dos senadores Fernando Collor e Renan Calheiros no Senado.

É tanta encenação moralista que dá náuseas. Todos os jornalões do Rio e de SP, orquestrados, tentaram nos fazer crer na farsa, como se nos tivessem na conta de beócios, estúpidos, trouxas facéis de enganar, nesse jogo rídiculo de manipulação das questões morais.

Mas ao me deparar com o texto de Miguel, me senti vingado. Ele toma O Globo como exemplo, mas acerta em toda a mídia golpista que insiste em achar que está lidando com os prisioneiros da caverna do conto de Platão – aqueles que acreditavam que as sombras projetadas na parede eram a única realidade.

Leia, a seguir, o texto na íntegra:

Os ingênuos também vão para o inferno

Dando sequência a minha (nem tão) promissora missão pública de ombudsman do jornal O Globo, comento a matéria em destaque na edição de hoje (16/07/2009), na página 3, onde diversos ex-caras pintadas, ao estilo surrado do “petista arrependido”, derramam lamúrias contra a foto que o jornal, na véspera, estampou na capa. Era a foto, agora famosa, de Lula abraçando Collor.

É realmente engraçado. Bastou falar mal de Lula para ganhar uma foto tamanho família na página 3. A história mostra que a manipulação da ingenuidade tem sido uma estratégia constante daqueles que precisam enganar a opinião pública. Heródoto relata um caso assombroso ocorrido na Grécia Antiga, em Atenas, que o revoltou especialmente. Pisístrato, um tirano que os atenienses haviam, com muita dificuldade, logrado expulsar da cidade, restabelecendo assim o regime democrático, apela para uma artimanha incrível para voltar ao poder. Nas palavras de Heródoto:

“(…) usaram, para o retorno de Pisístrato, o artifício mais grosseiro que, em minha opinião, se pode imaginar, principalmente considerando que os gregos eram tidos, desde há muito tempo, como mais astutos que os bárbaros e menos expostos a se deixarem deslumbrar por esse tipo de coisa, e que os atenienses, em particular, eram reputados como os mais sábios e perspicazes de todos os gregos. (…) Havia uma mulher muito formosa, chamada Phya, dotada de grande estatura. Armada completamente, e vestida com trajes que a fizeram parecer ainda mais bela e majestosa, puseram-na sobre um luxuoso carro e a conduziram à cidade, enviando na frente emissários para dizer ao povo desta forma: “Recebei, ó atenienses, de boa vontade, aquele que a própria deusa Atenas restitui ao poder, dando a ele uma demonstração nunca usada com outro mortal”. Gritavam isto por todas as partes, de maneira que, muito breve, a fama se espalhou por toda a cidade e toda província. E os que se achavam na fortaleza central, acreditando que aquela mulher era realmente a deusa Atenas, abriram os portões para Pisístrato e seus comparsas.”

Assim Pisístrato restabelece sua tirania. Heródoto se espanta com a facilidade com que os atenienses, tidos como astutos e perspicazes, se deixaram enganar por uma mentira tão grosseira.

Saltemos alguns milênios. A experiência tornou os espertos mais espertos e os bobos menos bobos, mas a ingenuidade é a condição natural do ser humano. A esquerda, particularmente, carrega o DNA da ingenuidade e talvez seja esse o seu maior defeito, assim como o egoísmo é a característica mais negativa da direita.

A luta contra a ingenuidade é uma frente de batalha importante para este blog, porque percebi há tempos que esse é um ponto extremamente vulnerável de muitas pessoas progressistas e bem intencionadas. “Soyons realistes, demandons le impossible!”, gritavam os jovens de 68. Era um lema bonito, mas os europeus, com seu espírito pragmático, nunca o levaram muito à sério e os americanos, como é tão bem mostrado em Sonhadores, obra-prima de Bertolucci, consideravam-no falso e pedante; os que o levaram ao pé da letra, tornaram-se, além de derrotados politicos, pessoas amargas e desiludidas. Aliás, a consequência inevitável, necessária, da ingenuidade política, é tristeza e desilusão. Tentar enxergar na política uma pureza que não existe, nem em si mesmo nem no mundo real, é ingenuidade, ignorância e, às vezes, megalomania moral, doença crônica dos hipócritas.

O PIG adora os ingênuos porque sabe que eles são inofensivos. Sempre interessou ao PIG uma esquerda ingênua, que se limitasse a empunhar bandeiras bonitinhas e graciosas, mas que nunca tivesse a ousadia de disputar, à vera, o poder político, e muito menos o discernimento de saber conservá-lo – não, isso é para os “adultos”, ou seja, para os conservadores. Renan Calheiros foi ministro da Justiça de FHC e nunca vimos uma matéria negativa sobre a figura. Bastou mudar o governo e Renan aderir a Lula para que ele passasse a integrar o “eixo do mal” da política brasileira.

Desde que Collor elegeu-se senador da república por Alagoas, a mídia corre atrás de uma foto sua com o presidente. A desta semana não é a primeira. Os fotógrafos catam os ângulos mais enviezados para enquadrar, na mesma imagem, Lula e os “vilões”. Até aí tudo bem. Todo mundo sabe que O Globo faz oposição à Lula e, portanto, seus empregados cumprem a determinação editorial de bater diariamente no ex-barbudinho. Cada um a seu jeito. Os chargistas fazem charges, os jornalistas escrevem matérias, os fotógrafos tiram fotos, os colunistas escrevem colunas. O trabalho é bem pago e obedece quem tem juízo.

Daí que Lula participou de um ato importante em Alagoas e quem estava lá? Fernando Collor de Melo, senador da República. Ora, Collor e Renan Calheiros pertencem a partidos que compõem a base aliada no Senado, onde a situação do governo é extremamente delicada, vide as inúmeras CPIs criadas ininterruptamente pela oposição, sempre com o entusiástico apoio da mídia corporativa. Lula agradeceu o apoio que Collor e Renan davam aos projetos do governo. E depois, em determinado momento, cumprimentou pessoalmente Collor.

Lula é um estadista, um político no sentido lato do termo, e sabe pôr o interesse nacional acima de questões pessoais e, sobretudo, sabe deixar o passado para trás e olhar o futuro. O Brasil é um Estado democrático onde, se o sujeito é absolvido na Justiça e ganha as eleições, ele é um representante do povo e como tal deve ser respeitado, quer gostemos dele ou não. Seria demais, aí sim, entregar um Ministério a Fernando Collor, mas ir lá e cumprimentar o homem, qual o problema? Agradecer o seu apoio no Senado, qual o problema? É razão para histeria? Para chorar pelos cantos?

As organizações Globo tem uma saudade enorme dos “caras pintadas” porque sabem a influência que tiveram sobre o fenômeno. A Globo ataca sistematicamente o movimento estudantil enquanto força organizada, institucional, partidária. Para o Globo, o movimento estudantil ideal é essa festinha de caras pintadas, sem ideologia, sem partido, sem organização, reunidos esporadicamente para protestar contra “vilões” de manchete de jornal.

“Pragmatismo tem limite”, diz um dos ex-caras pintadas. Ok, filho, mas qual é o limite? Cumprimentar Collor? E daí? Collor tem lepra? Collor foi cassado, pagou sua dívida política, foi absolvido no Supremo Tribunal Federal, e foi eleito pelo povo de Alagoas. Se alguém tem culpa é o povo de Alagoas, e os meios de comunicação de lá (certamente ligados aos representantes locais dos platinados), que preferiam Collor a um cara de esquerda.

A gente sabe muito bem quem elegeu Collor – os mesmos globais que agora o transformam em vilão de história em quadrinhos. Quem editou debate na TV para prejudicar Lula? Quem ajudou Collor a se eleger em 1989? Agora ele é senador da república, num Senado onde o governo vive uma situação, como já disse, extremamente instável. Que raios de ingenuidade é essa, beirando a estupidez, que acha que Lula deveria fazer carinha feia para o Collor? É absurdo, para os neo-lacerdistas midiáticos, que a esquerda seja pragmática e astuta. Prefere-a, claro, sonhadora, ingênua – e derrotada. Churchill dizia que se aliaria ao diabo se fosse para derrotar Hitler. O Brasil tem um inimigo que matou, nos últimos séculos, muito mais que o nazismo, que é a pobreza, que não apenas destrói vidas, mas devasta sonhos, esperanças e a alegria das pessoas, e se Collor, Sarney, Renan, apóiam o governo (por interesse político lá deles, ou mesmo por estarem acuados eleitoralmente num nordeste onde Lula tem 90% de aprovação), Lula tem mais é que, humildemente, agradecê-los e tocar a vida pra frente. A oposição acaba de criar uma CPI bastante perigosa, num Senado sob fogo cerrado de uma mídia disposta a derrubar Lula, e o presidente precisará, logicamente, do apoio de cada senador da base aliada, seja o vilãozinho Collor seja o heroizinho Pedro Simon. Lula não pode contar 100% nem com os senadores de seu próprio partido, que volta e meia lhe puxam o tapete, como poderia deixar de ser educado com um senador que lhe empresta apoio?

O Globo e seus priminhos paulistanos, assim como aquele tirano grego, estão sempre a pintar alguém de deus, ou de diabo, na tentativa de convencer a legião de desencantados e ingênuos (ou que fingem sê-lo) a abrir os portões da república aos adversários do povo.

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