Embolando Palavras

A crônica do Zózimo

Zózimo Carlisle ataca novamente. Dessa vez com uma crônica bem-humorada sobre o transporte coletivo de Natal.

Confiram:

Embarcando na balsa do inferno (ou “Uma viagem a bordo do 63”)

63

Ao longo de 365 dias do ano, devo utilizar o transporte coletivo municipal em pelo menos uns 335 dias (não, eu não alugo um carro nos outros 30, eu simplesmente não saio de casa por algum motivo, talvez a Sessão da Tarde esteja muito boa…).

Antes que me chamem de pedante ou algo do gênero, gostaria de deixar bem claro que não estou aqui para criticar a qualidade do transporte público de nossa tão amada cidade. Longe de mim! Meu propósito é apenas relatar a triste experiência que é embarcar diariamente no ônibus da linha 63, que faz o trajeto Felipe Camarão/Campus – apelidado carinhosamente de “A balsa do inferno” por um amigo.

O “63” circula quase sempre lotado, mas em alguns horários específicos a coisa piora e fica praticamente impossível embarcar naquela charrete do diabo. Logo cedo, às 7h da manhã, quando o pessoal vai para o trabalho, pegar o ônibus é quase um desafio olímpico. Pouco depois, próximo das 10h, quando o shopping está perto de abrir e os funcionários do local se dirigem para mais um dia de labuta, a muvuca também é grande.

Pouco mais tarde, às 18h30, quando o futuro do nosso país está voltando das escolas e o expediente dos trabalhadores, cuja jornada se iniciou às 7h, está terminando (sim, porque os usuários da “Balsa do Inferno” são justamente aquelas pessoas que trabalham muito e, obviamente, ganham pouco), é outro momento complicado. Por fim, entre 21h30 e 22h, quando o povo que tava batendo perna no shopping decide ao mesmo tempo voltar pra casa, a situação se torna assaz complicada. Nesses horários de pico, o ônibus parece um formigueiro, com as pessoas se esbarrando umas nas outras e gente quase saindo pela janela.

 A sensação é que ta todo mundo tão abarrotado que se entrar mais alguém naquela lata de sardinha com notas as pessoas vão começar a vazar pela janela. Quando você é premiado com um lugar para se sentar, imediatamente você pensa: “Ah, consegui um lugar ao sol”. É aí que você tem a certeza de que alguém lá em cima está ouvindo, pois, como em um passe de mágica, você vira o iluminado!

Pena que não é pela graça de Deus, mas sim por um canhão de luz quente que faz você suar do início ao fim do percurso. Nessa hora, você pensa: “Puta que pariu, consegui um lugar ao sol”. Mas pelo menos você está sentado e fazendo sombra para o próximo “felizardo” que conseguir se sentar – e ele vai ficar ainda mais grato se sofrer de hemorróidas.

Você deve estar pensando: “Ai, caramba, ele só pode estar exagerando”. Então vamos aos horários em que ele está um pouco mais vazio e várias pessoas conseguem um lugar ao sol. Esse, inclusive, é um dos problemas: todo mundo que entra na “Balsa do Inferno” quer um lugar ao sol, mesmo que não seja literalmente. Geralmente, quando subimos na balsa para atravessar o purgatório, damos de cara com algum menino dizendo que a mãe está desempregada e que o dinheiro só dá para comprar o gás e pagar o aluguel, ou vendendo jujubas e as clássicas balas de gengibre nos sabores acerola, morango e tradicional. Até ventríloquo eu já vi (confesso que desse eu gostei, foi até engraçado).

É interessante como isso realmente está virando uma profissão. Daqui a alguns dias, alguma dessas escolas do “Sistema S” vai abrir um curso de comércio varejista aplicado ao transporte público. De fato, muitos são verdadeiros experts na arte da venda.

Aliás, esse já é o meio da história, a via crucis começa antes, na famigerada parada de ônibus. Você chega lá em qualquer horário, embora isso aconteça preferencialmente ao pingo do meio-dia, espera longos 15 minutos, até avistar no horizonte algum sinal da balsa maldita.

Cá entre nós, tenho uma teoria a respeito da razão do tempo demorar tanto a passar quando você está esperando um ônibus: penso que há um eixo logo abaixo de cada parada, conectado a ela subterraneamente, que é ativado quando o peso sobre ela ultrapassa os 40 kg. Quando isso acontece, o referido eixo começa a girar em uma velocidade próxima a da luz, dilatando o tempo. Bom, eu sei que é uma hipótese mirabolante… but what the hell ?!?!?

Inclusive, gostaria de recomendar uma música para todos aqueles que se utilizam diariamente da “Balsa do Inferno” ou das balsas que fazem outros itinerários. É uma música do Ultraje a Rigor, chamada “Ponto de Ônibus”, que diz assim num determinado trecho: “Ainda se o tempo não tivesse mudado… ainda se o ônibus tivesse parado… e o cobrador, que nunca tem trocado“.

Esses são outros três problemas frequentes enfrentados pelos balseiros: os engenheiros/arquitetos que projetaram as paradas de ônibus de Natal certamente nunca precisaram se servir das balsas de nossa cidade, pois, faça chuva ou faça sol, a gente tem que sofrer com ambas as coisas, já que a estrutura das paradas não protege contra nenhum dos dois fenômenos naturais.

O outro ponto abordado pelo Ultraje a Rigor diz respeito ao fato de os motoristas nem sempre atenderem ao pedido de parada que nós fazemos, talvez seja porque se sintam importantes demais dirigindo um carro alemão (Mercedez ou Volkswagen, embora o fusquinha também seja da Volks…). Mas talvez seja pelo motivo citado anteriormente, o da superlotação. Quando a Balsa vem lotada e o motorista faz a caridade de parar, os balseiros olham para o coitado com o sangue pulsando nas artérias e, em seguida, quase metem um joelhaço no meio da cara de quem está subindo. Embora seja uma atitude um tanto quanto rude, não podemos culpar os balseiros, pois eles são apenas vítimas da mesma maldição.

Por fim, o terceiro e último ponto denunciado pelo Ultraje a Rigor: o preço que você tem que pagar ao balseiro-guia para transportá-lo dessa vida para a outra sofre alterações diárias, não do ponto de vista legal, mas do ponto de vista prático. Ora, a tarifa é R$ 1,85 (quase de graça, afinal as balsas são muito luxuosas e Natal é uma cidade enorme), mas geralmente você paga com R$ 2,00 e, por vezes, o cobrador não tem o troco certo e lhe dá apenas R$ 0,10. “Tudo bem, o que são R$ 0,05?”, você pensa.

No embarque de volta você percebe que tem apenas R$ 1,80 trocados e eis que surge o inocente pensamento: “Ah, tudo bem, o que são R$ 0,05?”. É aí que o cobrador responde: “A tarifa é R$ 1,85”. A vontade de mandá-lo ir tomar no centro de gravidade do hemisfério glúteo é tanta que a única resposta racional que pode sair da sua boca é um educado “Eu sei, mas é que não tenho os R$ 0,05 trocados”. Do contrário, você seria capaz de puxá-lo daquela cadeira pelo colarinho e bater a cabeça dele várias vezes contra a roleta/catraca. Alguns liberam sua passagem sem maiores problemas, mas aqueles que realmente são mais fiéis ao capeta (dono do ônibus), não vão com a sua cara, empacam mesmo e dão o troco para R$ 50,00 (mesmo que o troco máximo seja R$ 20,00), só para verem você puto da vida. Acho que eles pensam: “Poxa vida, eu aqui trabalhando e esse filho da mãe passeando, dando rolé de balsa. Vou ferrar com ele.”

Em resumo, pegar a “Balsa do Inferno” que atende pelo número “63” se resume a esperar feito um condenado nas paradas mais sexys do Brasil (é que sua roupa fica toda molhada, quase transparente, por causa da chuva ou do suor provocado pelo tempo de exposição a esse sol escaldante de Natal), adentrar num mundo cheio de calor humano – ou cheio de calor e de humanos – e ainda aproveitar para fazer umas comprinhas.

Gostaria de encerrar com outro trecho da música do Ultraje a Rigor, que diz algo não muito profundo, mas expressa o sentimento de todos os usuários da tão disputada “Balsa do Inferno”: “O que é que eu tô fazendo aqui… é, o que é que eu tô fazendo aqui, nesse ponto de ôôônibuuuuusssss?!

Anúncios

Navegação de Post Único

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s