Embolando Palavras

15 minutos de fama

Andy Warhol, pintor e cineasta norte-americano, na longínqua década de 1960, já profetizara: “um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama”.

Desde a popularização dos realities shows na televisão brasileira, a partir do final dos anos 1990, os “15 minutos de fama” nunca pareceram tão próximos. Neste formato de programa, cujo principal ingrediente é a exploração dos dramas “reais” dos participantes, pessoas comuns são promovidas à condição de celebridades instantâneas.

Para fazer parte do espetáculo e conquistar o prêmio milionário no final, precisam se submeter à curiosidade do distinto público, ávido por espiar a intimidade de cada confinado neste zoológico humano.

A cultura do “Big Brother”, representante mais famoso dessa categoria de programa, continua despertando enorme interesse nas pessoas. A possibilidade de virar ídolo da noite para o dia atiça o imaginário popular. Como poucos conseguem a chance de entrar no jogo, a maioria tem que se contentar com o simples lugar de espectador.

Para o psicólogo e psicoterapeuta Álvaro Guedes, ex-participante do “Aprendiz Universitário”, programa exibido pela Rede Record, onde um grupo de 18 jovens se enfrentavam numa espécie de gincana empresarial, há muito mais elementos de “show” do que de “realidade” nessas atrações.

Álvaro acredita que o interesse do público pelos realities e pelo “Aprendiz” em particular se explica pela “tendência do ser humano de querer saber da vida dos outros”: “O indivíduo tem interesse em conhecer a reputação do outro. Então, você tem uma série de ferramentas culturais e midiáticas que se utilizam dessa tendência natural para criar e lançar vários produtos. A mídia acaba capitalizando isso de forma comercial, o que não quer dizer que seja, necessariamente, ruim”.

Álvaro garante que não foi a promessa de virar celebridade que o motivou a participar do reality da Record. “Eu estava interessado mesmo na aventura, na possibilidade de fazer algo fora do cotidiano e, evidente, estava de olho no prêmio.” Eliminado no 10º programa, ele acha que foi “ingênuo” porque imaginava que O Aprendiz era mais reality do que show, o que, em sua opinião, contribuiu para sua saída.

Após a experiência, o balanço é que os custos foram maiores que os tais 15 minutos de fama. Em sua estréia como colunista do blog, Álvaro faz revelações sobre os bastidores do programa, comenta sobre a interferência da edição na escolha do vencedor e faz um desabafo sincero: “tenho dúvidas se participaria novamente de algo dessa natureza”.

Leia abaixo a íntegra da coluna:

 

As revelações de um “Aprendiz Universitário”: os segredos de um reality show.

 

ÁlvaroRecentemente participei da sexta edição do programa O Aprendiz, exibido na Rede Record de Televisão e apresentado pelo empresário Roberto Justus. Como se trata de um reality show de grande audiência na TV aberta brasileira, penso que não é necessário fazer maiores apresentações da atração.

Não há dúvidas que esta foi uma experiência que não se repetirá na vida de nenhum dos 17 participantes que estiveram lá comigo. Ficamos confinados por meses a fio – alguns mais, outros menos, conforme a ordem de eliminação/demissão do programa – sobre uma pressão de trabalho intensa.

A rotina do programa era relativamente simples: acordar cedo, tomar café da manhã e trabalhar cerca de 14 horas até podermos nos dar ao luxo de dormir, apenas para recomeçar tudo de novo no dia seguinte.

As tarefas que deveríamos executar exigiam muito pouco conhecimento técnico, mas tinham a ver, geralmente, com administração, publicidade e comunicação, mesmo que de forma relativamente leiga.

Muita gente ainda me pergunta se realmente aprendi algo com o programa. Muitos, ingenuamente, acreditam que um programa de televisão, com mais características de show que de realidade, pode proporcionar momentos de extrema aprendizagem e crescimento profissional.

Não posso falar em nome dos outros 17 integrantes da turma. Eles, provavelmente, terão coisas diferentes para expor. Mas, quanto a mim, asseguro que esse “aprendizado” não se efetivou. Admito que esperava mais do programa, principalmente considerando a imagem passada pela emissora e pelo então apresentador.

Para ser sincero, aprendi meia dúzia de jargões usados pelo pessoal da área da comunicação social/publicidade. É importante frisar que não quero dizer, com isso, que “O Aprendiz” tenha sido inútil, não é exatamente por aí. Entretanto, ele também não foi a porta de entrada para um mundo completamente novo e cheio de possibilidades, como muita gente fantasia.

A maioria esmagadora das coisas que eu vivi nos exatos 75 dias em que estive confinado não foi novidade alguma. Esse, inclusive, é um ponto que merece destaque, pois foi a gota d’água para a minha eliminação/demissão do programa.

Em alguns momentos, no espaço de convivência reservado para nós, quando não estávamos divididos em equipes, comentei que realmente tinha mais interesse na quantia de R$ 1 milhão do que na outra metade do prêmio (um estágio na empresa de publicidade do então apresentador, com salário de R$ 10 mil/mês).

Reconheço que fui inocente ao deixar escapar minha opinião, uma vez que todos ali eram concorrentes. Aliás, uma análise feita a posteriori me levou à conclusão de que este foi o meu maior erro no decorrer do reality show: não ter jogado. Encarei as equipes “Best” e “Maxxi” como a simulação de duas empresas, ao invés de encará-las como grupos formados de pessoas concorrentes. Tinha o seguinte lema: “Neste programa, 70% é de cooperação e 30% de competição”. Assim, eu queria dizer que a melhor maneira de se livrar de uma sala de reunião era agir cooperativamente para vencer a tarefa, sem uma preocupação excessiva de aparecer individualmente.

Mas alguns jogavam sem pudores, pautando suas ações na possibilidade de conseguirem desculpas para escaparem de uma possível berlinda. Estrategicamente, então, essas pessoas buscavam aparecer mais, o que não quer dizer que trabalhavam muito mais. Penso que, em uma empresa de verdade, o mais importante é conseguir bons resultados e não “vencer no grito”, apesar da consciência de que, infelizmente, as coisas nem sempre – ou quase nunca – funcionam desta maneira.

Quando fui eliminado do programa, percebi que a imagem construída ao meu respeito não havia sido das melhores. Pelo contrário, deram a entender que eu era uma pessoa extremamente arrogante, individualista e presunçosa. Boa parte dos telespectadores se esquece, porém, que o programa era editado e montado para se encaixar numa narrativa/sequência de show. Para se ter uma idéia, passávamos 14 horas gravando, mas só 50 minutos, em média, iam ao ar. Cada participante aparecia mais ou menos cinco minutos durante as tarefas. Agora, me digam: vocês acham que é possível conhecer uma pessoa em cinco minutos?

A verdade é que esses adjetivos se encaixavam perfeitamente em outros participantes (não citarei nomes a fim de evitar vieses de julgamento, creio que a edição das imagens já fez isso em demasia). Obviamente que, como qualquer ser humano, eu tenho defeitos infinitos, alguns incorrigíveis (outros apenas “incorrigidos”), mas coloquem algumas horas de vídeo nas mãos de um editor e verão o que ele é capaz de fazer.

Não que eles inventassem algo, mas os editores tinham em mãos material suficiente para transformar qualquer um em herói ou vilão. Eles construíam nossa imagem para se adequar ao que acontecia na sala de reuniões. Era uma edição retroativa, porque havia a necessidade de ser coerente com a decisão de Roberto Justus. Além disso, o programa era formado por sequências descontínuas que, na realidade, eram intervalos enormes entre uma cena e outra.

Experimente perguntar a cada um dos aprendizes, desde a primeira edição, OBJETIVAMENTE, o que eles aprenderam com o programa. Aí cada um poderia listar o que o programa acrescentou em suas vidas. Respostas do tipo “foi uma experiência única, incrível”, “aprendemos muita coisa”, “proporcionou crescimento pessoal”, “uma série de coisas”, seriam imediatamente rejeitadas, posto que dizem nada. Como já falei antes, não é que o aprendizado seja inexistente, mas fica a léguas do que se especula do lado de fora.

Estou arrependido de ter participado? Acho que arrependimento não é bem a palavra certa, mas tenho minhas dúvidas se participaria novamente de algo daquela natureza e, em princípio, desaconselho aos interessados.

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9 opiniões sobre “15 minutos de fama

  1. Aldani Campos em disse:

    Colega e Professor.
    Nesses quase 40 anos aprendi na vida uma coisa bem básica: “Participar do grande jogo, mas por ele não ser tocado!”

    Abraços,

  2. Guilherme Aragão em disse:

    Prof. Daniel Dantas,

    Faltei nesta aula!

  3. Guilherme,

    Como professor em curso de jornalismo, lamento que você não tenha aprendido na faculdade que “nem tudo aquilo que é veiculado na TV é a realidade”.

  4. Guilherme Aragão em disse:

    Concordo com todas as palavras ditas pelo Alvaro.
    Como um futuro comunicólogo/jornalista, envergonho-me ao dizer que aprendi uma coisa com o programa: nem tudo aquilo que é veiculado na TV é a realidade.
    O “show” é muito mais importante que o “reallity”.
    Não digo isto por ter sido o primeiro a sair do programa. Gostaria de ter permanecido por um tempo maior. Todavia, não me arrependo em nenhum momento por ter tido uma curta passagem pelo Aprendiz 6.

    Enfim… Alvaro, um forte abraço! Muita saúde e sucesso! Estou aguardando vc e sua mãe aqui no litoral de SP! Apá também manda abraços para vocês.

  5. Gustavo em disse:

    O texto deve ser lido por todos que ainda alimentam a inocente fantasia de que em reality shows há mais “reality” do que propriamente “show”.

    O comportamento ignobil da edição, pré-fundamentada e comprometida apenas com os índices de audiência, enseja à formulação ao telespectador de uma “realidade” paralela ao que de fato está acontecendo, vindo a acolher sem resistência os pontos de vistas dos editores.

    Não vence o mais competente, vence quem eles querem.

  6. Muito interessante e lúcido esse texto. Nele encontram-se pontos que propiciam uma boa reflexão. Texto muito pertinente ao título.

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