Embolando Palavras

Esdras

Este blog tem por norma não censurar comentários. O espaço sempre esteve e continuará aberto ao contraditório. É só checar aí na lista de mensagens pra ver que os comentários desfavoráveis são comuns. A unanimidade, segundo Nelson Rodrigues, é burra. 

O Embolando não existe para satisfazer o meu ego. Já passei dos 30 e resolvi, há tempos, essa necessidade de auto-afirmação que todos nós enfrentamos numa determinada fase da vida. Isso aqui é só uma janela (virtual) de onde observo as coisas e dou meus pitacos sobre o que acho interessante. Às vezes fico meio sem saco pra escrever, porque tenho a impressão que nada acontece e a vida, como cantava Cazuza, é só um museu de grandes novidades.

Algumas pessoas reclamam quando não encontram nada aqui sobre esse ou aquele assunto. Não vão encontrar mesmo. Blog não é enciclopédia, jornal nem portal de notícias. Estão procurando no lugar errado. Não dá pra abraçar o mundo, como dizia minha avó. Tenho, como qualquer pessoa normal, uma vida real pra levar. Isso leva tempo. 

Mas deixa voltar à história dos comentários. Esdras é um dos leitores mais ativos do blog. Não o conheço. Nem sei se esse é mesmo seu nome. O fato é que em quase todos os posts ele aparece comentando, cutucando, acusando este escriba disso e daquilo outro. Esdras mantém com o blog uma relação e amor e ódio – mais ódio que amor, registre-se.

Não estou reclamando dele. As visitas de Esdras me deixam lisonjeado. Mas fico impressionado com a agressividade de alguns comentários. No último, Esdras reclamou da postagem sobre as enquetes realizadas pelo UOL, perguntando aos navegantes quais eram os partidos mais e menos sérios do país. PT e PSDB foram apontados, respectivamente, como as legendas mais e menos sérias.

Pois bem. Esdras achou aí motivo pra me desancar, como se eu tivesse algo a ver com a enquete do UOL. Ele disse que eu estava como “criança saltitante” com o resultado da sondagem e ainda questionou meu profissionalismo como jornalista. “Risível“, acrescentou em tom sarcástico. Pensei em bloquear o comentário, porque achei meio ofensivo, mas deixei passar. Daí que só agora parei pra responder.

Esdras, minhas opiniões, convicções e posicionamento ideológico são questões suficientemente claras. Mas se restar alguma dúvida, sugiro a leitura do meu perfil. Como costumo dizer, citando Torquato Neto, eu quero é desafinar o coro dos contentes. Não sou filiado ao PT nem a nenhum outro partido. Mas como esquerdista convicto, admiro a história desse partido construído por muitos corações e mentes que ousaram sonhar o sonho impossível de construir um novo país. A admiração, ao contrário do que você imagina, não me impede de fazer as críticas que julgo oportunas, como na novela José Sarney, quando marquei posição contrária ao apoio do PT a esse arcaico coronel maranhense.

O PT não é perfeito, como alguns petistas ingênuos acreditavam. Desde o nascimento, há 30 anos, até a chegada ao governo com as duas eleições de Lula, o partido passou por diversas provas de fogo e sofreu os desgastes inerentes ao exercício do poder. Ficaram alguns mortos pelo caminho. O discurso sofreu arranhões. Houve pranto e ranger de dentes. Os desiludidos abandonaram o barco e, sem perceber, viraram instrumentos dos conservadores de plantão na tentativa de sabotar o governo do ex-metalúrgico.

A importância do PT para a redemocratização, a inclusão de novos temas na pauta nacional e a discussão de uma nova agenda – focada nas questões sociais – para o país não pode ser minimizada. Gostem ou não, o partido mudou a forma de se fazer política no Brasil ao trazer a público assuntos antes quase esquecidos, como a desiguldade social, a reforma agrária e a defesa dos direitos das chamadas minorias. No governo, a maioria dessas bandeiras foi colocada em prática.

Não vou entrar aqui no debate sobre os tropeços. Eles existiram, não há como negar. Mas creio que o saldo é positivo. O país avançou, mudou, melhorou com o PT. A desigualdade social diminuiu, a ditribuição de renda aumentou e muitos que nunca tiveram uma oportunidade na vida agora conseguem enxergar um futuro diferente. As estatísticas estão aí pra comprovar.

Entao, meu caro Esdras, mesmo sem ser petista, defendo sem nenhum constrangimento a contribuição que o PT tem dado ao nosso país varonil. O PT é maior que alguns deslumbrados que meteram os pés pelas mãos quando subiram o Planalto.

Enquanto você se deixa levar por esse quiprocó comezinho alimentado pelas velhas raposas recionárias, com irrestrito apoio da mídia conservadora, eu me preocupo com embates mais sérios.

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13 opiniões sobre “Esdras

  1. alissoncal em disse:

    Daniel, só estou tentando evitar excessos.

  2. alissoncal em disse:

    Esdras e Daniel, peço que vocês evitem comentários pessoais. Vamos canalizar o conhecimento pra discussão das ideias, sem provocações individuais.

    • esdras em disse:

      Alisson, não acontecerá mais. Acabamos de nos conhecer.

    • Eu não misturo as coisas, Alisson e Esdras. O que eu falei não o fiz em tom de ameaça ou superioridade – apenas é fato.
      A gente tem o hábito de achar que pode falar sobre qualquer assunto – e pode! Mas ainda há espaço para os especialistas. Por isso, repito, não cabe discussão sobre tema científico com base em achismos ou senso comum. Eu não me arvoro a discutir física quântica porque não é a minha praia. Qualquer coisa que eu fale é na base do achismo. Do mesmo modo, falar sobre linguagem e ideologia exige que a gente conheça o mínimo a respeito – se não somente irá cantar com Cazuza.

  3. Eu sou esquerdista convicto – e acho que, mais que isso, quem faz uma leitura coerente da Bíblia só pode ser esquerdista.
    O conflito ideológico estava presente na escrita dos textos bíblicos, esteve presente há quarenta e cinco anos quando os militares derrubaram Jango e está presente hoje.
    A tese do fim da ideologia é a mesma tese ultrapassada, por errônea, do fim da história. Existe ideologia, existe história. Existe discurso, existe linguagem. Assim como só existe o poder porque existem relações e lutas por ele – se não fosse assim, aí estaria certo afirmar o fim da história.
    A própria afirmação de que não se pode ser esquerdista convicto é uma afirmação ideológica – firmada numa (falsa) tese do fim dos conflitos, da história e das concepções ideológicas do mundo.
    As esquerdas mudaram, como mudou a concepção de mundo de meu partido, o PC do B – mas as esquerdas e as direitas ainda existem.

    • esdras em disse:

      Daniel, mais uma vez vamos discordar:

      * Quem faz uma leitura coerente da Bíblia não é esquerdista. Isso é uma definição meramente humana para algo muito maior. É uma tentativa mal sucedida de ideologizar um discurso que não busca isso. Aliás uma leitura coerente mostraria que a Bíblia não é muito adepta da frase “só pode ser…”. Acho melhor ler de novo.

      * O conflito político-ideológico está sendo substituído há muito por ocupação fisiológica de espaços no poder. Tanto é verdade que você mesmo diz que “política é isso mesmo” e que por tática o seu PCdoB, que tem projeto e história, prefere ser sombra do PT, que tem história e você disse que não tem projeto.

      * O fato de haver luta não significa que em si, essa luta seja ideológica, não no seu sentido restrito. Se a ideologia é o poder pelo poder, tudo bem.

      * Quando falo da questão da convicção falo do fato de que na sociedade pós-moderna, que estamos inseridos, nada dura muito tempo, inclusive as tais convicções.

      * O discurso tecido pelos dois blogueiros, maniqueísta por si só, esquece que existem outros atores que antes não existiam (ou que não tinham a importância de hoje), como ONGs, associações, etc, que na maioria das vezes não estão procurando saber se fulano é destro ou sinistro, e sim se podem ajudar a estes grupos no atendimento às suas proposições.

      Por fim, ultrapassado é o discurso de quem acha que poderemos chegar a algum lugar como nação usando a “tática” utilitarista de que os fins justificam os meios, que tudo bem se roubam, mas distribuem renda, que o saldo é positivo (o que não nego e por sinal aplaudo) e que por isso o resto é quiprocó. Isso é um discurso de quem desistiu da luta pela ética, por ver que seus heróis morreram de overdose.

      Se a leitura dos fatos que vocês fazem é baseada nisso (e os textos que escrevem nos dois blogs, que visito diariamente, é o acima descrito) desculpem, eu não concordo.

      Repito o que disse antes: partido nenhum merece crédito, e política partidária tem sido o espaço ideal para a canalhice. Nem isso vocês podem negar.

      As minhas provocações, simples que são, tem um alvo: SERÁ QUE ESSA FORMA DE MANIFESTAÇÃO DEMOCRÁTICA NÃO ESTÁ VENCIDA, MORTA E ULTRAPASSADA, PRECISANDO QUE OS APARELHOS SEJAM DESLIGADOS, PARA QUE ALGO NOVO POSSA NASCER? ALGO MELHOR E MAIS FORTE?

      Se vocês não pensam nisso, pena. Continuem apoiando uma estrutura anti-democrática, que vive para sua auto-manutenção.

      Não é porque não temos respostas, que as perguntas não podem ser feitas.

      Aliás, desculpem, não foi desta vez que se livraram de mim. E se Daniel começou com a Bíblia, então mostro qual a minha luta:

      E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12:2 )

      • Esdras,

        começo a entender suas ideias. Está ficando claro para mim que você precisa estudar melhor o conceito de ideologia. Por isso você acredita no fim da ideologia: é porque você não sabe o que é isso direito. Recomendo ler um autor chamado Mikhail Bakhtin. É com base no seu entendimento de ideologia a partir de seus estudos de linguagem que eu compreendo ideologia. E, desse modo, ideologia não é nada disso que você demonstra entender. O conceito de ideologia não se apreende da música de Cazuza, simplesmente.
        P.S.: Quando eu disse que “achava” que uma leitura coerente da Bíblia nos faria esquerdistas, deixei muito claro que era uma opinião pessoal, ideológica. Implicitamente, concordava com você: na leitura da Bíblia não cabe afirmação de literalidade sob hipótese alguma.

      • esdras em disse:

        Ok, Daniel.

        – Lerei o autor, sim. Mas lembre-se que não se forja opinião lendo só uma fonte.
        – A música de Cazuza era uma ironia.
        – Dizer depois que algo estava implicito não rola. E a questão não é só de literalidade. É de proposta mesmo. A Bíblia não se presta a ideologias. O problema é que muita gente tenta isso.
        – Nem você e nem o blogueiro saíram do lugar, só patinam. Que tal uma discussão mais construtiva? Esquerda e direita? Isso só serve aos interesses mais anti-democráticos que existem e enclausuram opiniões em pólos, o que já não existe. Mas nessa questão eu já notei uma seletiva surdez.

      • Se você tivesse noção do que é discurso e ideologia, minimamente, falaria menos bobagens. Mais ainda: se vc tivesse noção de discurso, ideologia e análise do discurso saberia que o implícito, o não-dito, a maior parte das vezes é mais fundamental que o dito.
        Outra coisa: a Bíblia está repleta de discurso e ideologia. Deus nos fala por meio dela, mas ela foi composta de textos e histórias datadas, históricas, relativas.
        No AT, por exemplo, é bem presente uma tensão entre a religião oficial, do templo/sacerdotes, e a religião das ruas, popular, dos profetas. Aliás, esse conflito se manifesta também na vida e ministério de Jesus.
        P.S.: Você nunca reparou que Rute, avó de Davi, era moabita? E que o Pentateuco nos diz que os moabitas eram amaldiçoados para sempre, sem jamais poder entrar no templo? Esse é um dos exemplos do conflito. Olhe para Jó, que desenvolve uma religiosidade extra-religião – aliás, sequer judeu era Jó. Olhe Jonas e sua religião que considera que os ninivitas não merecem relacionar-se com Deus, a partir de um arrependimento sincero. Todas essas histórias são manifestações dessa disputa ideológica. O fato disso tudo estar como pano de fundo no texto bíblico só aumenta o tamanho do milagre de Deus falar conosco por meio de uma palavra humana tão limitada.
        P.P.S.: Não costumo discutir questões científicas a partir do conhecimento de senso comum – apesar de considerar essa forma de conhecimento fundamental e estudá-la no mestrado e, agora, no doutorado. Lamento, Esdras, mas sua discussão sobre ideologia se funda unicamente sobre o conhecimento de senso comum, enquanto meus pontos de vista se fundam nos estudos da linguagem, principalmente em Bakhtin e Foucault. Este último, aliás, não gostava de ideologia e não a estudava, uma vez que se preocupava com as relações de poder e os efeitos de verdade dos discursos.

      • esdras em disse:

        Parabéns, Daniel. Pegou ar… Realmente, você é disparamente melhor do que eu.

        Humildemente não falarei mais “bobagens”.

        Sua superioridade é tão latente que passa pelo seu discurso (atrasado) e me deixa bem pequeno.

        Obrigado por alumiar a minha noite de densas trevas do conhecimento. Inclusive bíblica.

        Espero que continue a ler a Bíblia dentro do seu pensamento polarizado. É dessa maneira bem particular e intolerante que guerras são feitas, pessoas são mortas, ditaduras florescem. Mas esse conhecimento sua sabedoria superior, que excede o senso comum, já tem.

        Por fim, perdões. Imagino que seja difícil haver diálogo entre o pó e o sol. Recolho-me na minha humilde insignificância.

    • E só mais uma coisa: nada disso se confunde com ética, mas sim com a concepção de vida, do mundo, de projeto de sociedade.

  4. Esdras em disse:

    Allisson, eu existo. Sou de carne e osso, beeem mais carne, aliás. Meu nome é esse mesmo. E acompanho o blog há pouco tempo, mas fiquei admirado quando virei centro das atenções. Alguma coisa há de errado. Cheguei agora e já sento na janela? Tá ruim, hein? Mas deixe-me dizer o que hoje já não enche meus olhos:
    – Acho um atraso, nesta curva da história, alguém ainda declarar-se esquerdista convicto. Aliás, o que é isso hoje? Qual o significado ideológico disso? Aliás quem tem convicção de algo hoje, nesta sociedade pós-moderna?
    – Dúvida: Como você consegue viver neste mundo tão pragmático usando um discurso tão maniqueísta? Esquerda, direita, reacionário. Muito interessante, mas atrasado. Hora de adiantar a leitura e focar melhor suas experiências.
    Quanto ao seu “profissionalismo risível”: tal como o PIG (bolo de rir com essa sigla) você pinça o que agrada. Pense bem: um jornalista que faz denúncias sérias contra um aspone da prefeita, gasta seu tempo e posta uma “notícia” que não traz nada de revelante (DEM/PSDB? Todos que acessam seu blog sabem que essa dupla é um atraso mesmo), ainda mais numa enquete que eu e você sabemos que não tem peso e critério científico nenhum. E se fosse o contrário você diria que foi manipulado. E quem garante que alguém não manipulou? E quantos votaram? Qual o resultado final?
    Aliás, você, o PT e outros “esquerdistas” acham que devem utilizar os mesmos métodos da “direita”, do PIG e do DEM/PSDB. Lamento dizer que concorrem da mesma maneira para manter o país no atraso. Dia desses li que numa pesquisa realizada por algum desses institutos, 70% dos entrevistados fariam parte de alguma manobra antiética se fossem políticos. Vamos longe não é? Daí aparecem cuecas dolarizadas…
    Allisson, tenho um filho de 5 anos e minha esposa está grávida de 4 meses. Eles são o meu partido. É no garoto que tentamos incutir que ele deve dar valor ao estudo. Vou tentar ajudar a formar um cidadão, ético, independente, atualizado.
    Pode defender o PT. É seu direito e por ele vou lutar. Como também apoiá-lo com todas as forças para que nenhum aspone, seu ex-amigo ou não, tenha espaço novamente para fazer do cyberespaço um caminho de violência contra a democracia e os direitos.
    Só acho que, como as pessoas, todas as instituições nascem, crescem e morrem. Acho que na luta ética o PT já morreu, vivendo por aparelhos graças a ortodoxos sem envolvimento como você.
    Afinal qual o embate mais sério? Defender uma instituição com a qual não se tem envolvimento ou tentar viver eticamente num país em que os poderosos (todos eles) riem das leis e que asseclas alegam que os fins justificam os meios?

    Não nego os avanços do PT. Mas não vamos esconder o cinismo atrás destes avanços. Borra a foto, ok?

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