Embolando Palavras

Folha e a campanha contra o PAC

A mídia conservadora segue engajada na tentativa de desacreditar o governo federal e suas realizações. Desde o lançamento do PAC, a imprensa a serviço da direita distorce informações para convencer o público do “fracasso” do programa.

A Folha de São Paulo deu mais um passo nessa estratégia. Na edição de hoje (8), o jornal vem com uma notícia que é um primor em manipulação.

Leiam a matéria e a seguir comento:

 

Trabalho escravo é flagrado em obra do PAC

Fiscais resgatam 98 trabalhadores em construção de usina no interior de Goiás

Em instalações sem cama nem banheiro, funcionários trabalhavam em troca de comida, acumulavam dívidas e não recebiam salários

EDUARDO SCOLESE

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Fiscais do governo federal e do Ministério Público do Trabalho encontraram e resgataram 98 trabalhadores em regime análogo à escravidão numa obra que integra o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), no sul de Goiás.
A partir de uma denúncia, a ação de procuradores e de auditores do Ministério do Trabalho numa usina hidrelétrica começou no início da semana passada e somente foi concluída na madrugada de anteontem, quando os trabalhadores foram indenizados e puderam retornar às suas casas.
A construção da usina Salto do Rio Verdinho é de responsabilidade da Votorantim Energia, braço do Grupo Votorantim, e tem o apoio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que no final do ano passado injetou cerca de R$ 250 milhões na sua implantação.
Planalto e PT apostam no PAC como uma vitrine da candidatura petista para a sucessão de Lula no ano que vem. Na semana passada, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), pré-candidata petista a presidente, aproveitou um evento sobre saneamento para, em discurso, falar das preocupações sociais e ambientais do programa. Ela chegou a compará-lo ao Bolsa Família.
O PAC, porém, é um motivo de reservas a Dilma por parte de movimentos sociais e de ambientalistas, caso do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens). Eles avaliam que o programa prioriza a geração de emprego e o crescimento da economia sem levar em conta as condições socioambientais.
Procurada ontem, a Casa Civil não se manifestou sobre o flagrante da fiscalização.

Sem salário e banheiro
O resgate na usina ocorreu nos limites dos municípios de Caçu e Itarumã (a cerca de 370 km de Goiânia). Sem salários e instalados em alojamentos precários (sem cama e banheiro), os trabalhadores atuavam no desmate e na limpeza de uma antiga fazenda que será usada como reservatório de água, assim que as comportas da usina forem abertas.
A contratação deles ocorreu por meio de “gatos” (como são chamados os aliciadores de mão-de-obra degradante) ligados a uma empresa terceirizada que já atuava na obra quando o Grupo Votorantim assumiu o projeto, em 2007 -a obra começou em 2005.
Um desses “gatos” oferecia alimentos aos trabalhadores, mas, como esses não recebiam salários e estavam sem dinheiro, eram obrigados a acumular dívidas em troca da comida -uma forma de mantê-los sob “escravidão”, já que não podiam sair sem quitar as contas.
Contratada para a limpeza do terreno, a empresa (Construtora Lima e Cerávolo, com sede no sul do Piauí) foi buscar os trabalhadores no interior de Mato Grosso e de Minas. Desde que chegaram, a partir de maio, não receberam salários.
Diante do flagrante, o Grupo Votorantim assumiu as dívidas com os 98 trabalhadores e com outros 30, da região, que souberam da ação e aproveitaram para cobrar dívidas anteriores. O grupo desembolsou R$ 420 mil com as rescisões, alugou ônibus para o transporte deles a MT e MG e decidiu rescindir o contrato com a empresa.

 

A análise da arquitetura da matéria ajuda a revelar o propósito subliminar desse factóide: começa com a denúncia de trabalho escravo e, em seguida, dá uma guinada política quando diz que o PAC será usado como vitrine pelo governo na sucessão presidencial. É a deixa para citar a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), responsável pelo gerenciamento do programa. O repórter lembra que a ministra é pré-candidata do PT à eleição presidencial. Pronto: Dilma é a responsável pelo trabalho escravo.

A Folha esticou a corda de maneira grotesca e irresponsável. Primeiro vem a notícia negativa, depois a associação da notícia à ministra Dilma Rousseff para tentar desgastá-la. A matéria força a barra para enganar o leitor fazendo-o crer que caberia à Casa Civil fiscalizar a execução das obras do PAC, quando, na verdade, essa é uma tarefa de outros órgãos, como Ministério do Trabalho, Ministério Público Federal e IBAMA, entre outros.

Luis Nassif demonstrou com precisão como a notícia foi manipulada:

 

Vamos ver onde o repórter Scolese peca por desinformação e onde peca por má fé:

Por desinformação

1. Qualquer obra do PAC é de responsabilidade civil e criminal do seu executor.

2. A fiscalização cabe aos órgãos competentes – Ministério do Trabalho, Ministério Público Federal, IBAMA etc., não à Casa Civil, que coordena o PAC, nem à Fazenda, que libera os recursos.

3. Pela matéria, as empresas responsáveis foram autuadas.

Por má fé

No pé da matéria, diluídas no texto as seguintes informações:

1. A tal obra começou em 2005, tocada pela Construtora Lima e Cerávolo – que praticou o chamado “trabalho escravo”.

2. A Votorantim assumiu a obra em 2007. Rompeu o contrato com as terceirizadoras de mão de obra e já indenizou os 98 trabalhadores que haviam ingressado com a ação. Portanto, o problema já foi solucionado há dois anos.

3. O PAC começou em 2007 – quando o problema já estava solucionado. O repórter Scolese poderia estar desinformado quanto à responsabilidade do PAC nas obras. Não estava quanto ao ano em que o problema foi solucionado e o ano em que o PAC começou.

4. As repórtes Andrea Michel e Laura Capriglione, na Folha, mostram que há espaço para matérias jornalísticas dignas do nome.

ERRATA

Houve um engano na minha leitura sobre a data da solução do problema. Segundo a matéria, a Votorantim só resolveu a questão após o flagrante da semana passada.

 

Alguém ainda acredita na isenção do PIG?

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14 opiniões sobre “Folha e a campanha contra o PAC

  1. esdras em disse:

    Não questionei a sua honestidade, Alisson. E nem a sua falta de isenção. Simplesmente constatei uma realidade. E não adianta fingir ou falar a verdade. Sempre haverá uma opinião tendenciosa de lado-a-lado. Só.

    • alissoncal em disse:

      Esdras, opinião é diferente de informação. A Folha deveria se ater, neste caso, a informar. Mas a notícia foi falseada pra atender a um propósito obscuro. Até mesmo as opiniões precisam estar fundamentadas em fatos críveis.

      • esdras em disse:

        Engraçado. Quando é contra Dona Dilma, é PIG, tem que informar, etc. Não se pode ter opinião.

        Agora, no seu blog tem notícia sobre a rampa anti-mendigo, com palavras de um padre respeitado, pegando no pé dos governantes de São Paulo.

        Ou seja, vira e mexe, o PIG deixa de ser PIG. Baste que fale ou escreva o que o blogueiro quer.

        Realmente, todos sabemos de qual lado você está.

      • alissoncal em disse:

        Esdras, como disse antes, não distorço os fatos pra justificar minhas opiniões. O PIG é PIG sempre. Desconfio do PIG em qualquer ocasião. Assisto e leio o PIG com quilômetros de distanciamento crítico. Apenas um cego não vê a diferença de tratamento que o PIG dá ao governo Lula, comparando com o tratamento que era dispensado ao governo FHC. Apenas um ingênuo não enxerga como o PIG protege José Serra e Aécio Neves. Agora mesmo com a divulgação da nova pesquisa CNT/Sensus isso se manifestou. O Estadão disse que Dilma “caiu” e Serra “oscilou negativamente”.

      • esdras em disse:

        Se você acredita nisso, vá em frente. Só que eu queria saber porque quando fala mal é PIG, e quando fala bem não é.

        Outrossim, em tempos bem pretéritos, fui assinante de jornal. Inclusive da Folha. E lembro bem que em alguns momentos ela era considerada “petista”, principalmente nas áureas épocas que o PT e a “esquerda” batiam ponto nas CPIs com toda animação -você lembra do Mercadante? Como defendia a rigorosa apuração dos fatos? Esse tempo existiu.

        Mas hoje, o princípio do PT é mais parecido com os do Hugo Chavez. Se pudessem, fechavam tudo. Fazer o q?

      • Em termos de gêneros do jornalismo, duas coisas são bem distintas: opinião e informação. Quando um veículo vende uma coisa pela outra, ou seja, vende opinião travestida de notícia, como faz a Veja, ele fere a ética. É ótimo um veículo ter opinião, mas melhor é cada coisa ter seu espaço definido – opinião é vendida como opinião; notícia é vendida como notícia.

      • esdras em disse:

        Caros, cursei cinco semestres de jornalismo. Conheço os “princípios” norteadores. Mudei de curso pois vi que meu estômago não aguentaria o que muitos fazem com tanta satisfação (dizer meias-verdades, trabalhar para o político na campanha e depois voltar para o jornal, etc).

        Dito isto, sei o que é opinião e informação. E sei também que esta diferença tem sido jogada ao pó.

        O que escrevi: é interessante usar uma reportagem da Folha para detonar uma rampa anti-mendigo da dupla Serra/Kassab (com toda a opinião contra e válida do Pe. Lancelotti) e depois dizer que este mesmo jornal é do PIG.

        Ou seja: quando ataca a Dilminha, é PIG. Quando critica o Serrote, é sério. Então qual a notícia e qual a opinião?

        Acho apenas que é preciso ter o mínimo de coerência, mesmo tomando partido de algum discurso ou “ideologia”. Lá na frente ele pode nos pegar.

      • Eu acho – posso estar enganado – que nunca chamei nenhum veículo de PIG. Porque efetivamente para mim isso não é importante. Quando a Época fez a denúncia da corrupção nos correios – que derivou no mensalão -, fez jornalismo: investigou, filmou, comprovou.
        Quando a Veja fez uma matéria sobre supostos dólares cubanos financiando a campanha de Lula, não fez jornalismo: não tinha qualquer comprovação do que falava, usava três testemunhas – um que já havia morrido, outro que ouvira um comentário do morto sobre o assunto e um terceiro que vira caixas de bebidas, mas não sabia se lá dentro estava dinheiro. Ou seja, o assunto durou três dias exatos porque não tinha substância.
        De modo igual, o suposto grampo de Gilmar Mendes e Heráclito Fortes – que nunca foi comprovado, pelo contrário – todos os laudos disseram que nunca houve grampo – e cujo suporto áudio nunca apareceu. Isso não é jornalismo.
        Quando a grande mídia fez diversas denúncias sérias contra o padre Júlio Lancellotti (que aliás tinha sido o primeiro a procurar a imprensa para dizer que estava sendo chantageado), a repercussão – que prejudicou a imagem do padre – não teve a mesma repercussão dos desmentidos…

        Eu não falo em PIG, mas sei que a grande mídia faz muito pouco de jornalismo – não importa se a favor ou contra quem eu goste.

      • Aliás, é por isso que estou participando da comissão pró-conferência de comunicação – por acreditar, como pesquisador, professor e jornalista – que a solução para uma democracia melhor é uma democratização dos meios de comunicação.

      • esdras em disse:

        E essa democratização é sob que modelo? o do Chavez? Ou estão procurando propor algo novo?

        Antes de achar que é uma provocação, quero deixar claro que é curiosidade.

        Afinal os modelos de “democratização” que conheço são muito polarizados, seguindo os interesses de meia-dúzia que se considera conhecedora da necessidade e anseios dos outros. Não deixa de ser elitista por si só.

      • A teoria da comunicação e do jornalismo apontam, no mundo, os melhores caminhos para a democratização da comunicação. basicamente, quatro pontos são reiterados como fundamentais eixos de orientação. o primeiro e mais fundamental é a auto-regulamentação da área, através da criação de mecanismos como um Conselho de Jornalistas. O segundo a necessidade de formação superior na área de comunicação para os profissionais da área – em cursos que abranjam de maneira integral uma boa formação teórica e prática, além de uma boa formação humana. O terceiro é o controle social da mídia através de um mecanismo como o já previsto na nossa Constituição: Conselho de Comunicação Social, com paridade entre poder público, sociedade civil, empresários. A Conferência da área este ano é um bom mecanismo. O quarto eixo é a liberdade de expressão – não necessariamente liberdade de imprensa ou de empresa.

  2. alissoncal em disse:

    Esdras, sempre assumi que tenho um lado muito claro. Mas não distorço informações pra justificar meus posicionamentos. Isenção é um mito. A diferença é que o PIG finge que é isento pra enganar a sociedade.

  3. esdras em disse:

    Não. E nem na sua, blogueiro. Então, fica uma pela outra, ok?

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