Embolando Palavras

Pequeno relato da insegurança

AssaltoVirei mais um número na estatística da violência. No domingo passado (6), quando seguíamos pela Avenida 9 (Coronel Estevam), eu e um amigo fomos abordados por dois rapazes armados, cada um com revólver calibre 32, na calçada da Escola Estadual Francisco Ivo Cavalcanti, próximo do cruzamento com a Avenida Bernardo Vieira. Eram 6h da manhã.

Os assaltantes estavam de bicicleta. Depois de levarem nossos celulares e carteiras, seguiram tranquilamente em busca de novas vítimas. Mandaram a gente “seguir reto” e “sem olhar pra trás pra não levar bala”. Obedecemos a ordem e andamos o mais rápido que pudemos.

Não dá pra descrever aquela sensação. Pavor talvez seja a palavra que mais se aproxima do que senti. Quando demos as costas, só imaginava que eles estavam apontando as armas pra gente e iriam apertar o gatilho a qualquer instante. O medo era dilacerante e eu sentia, antecipadamente, o tiro atravessando minha carne. Diante do pânico, acredito que o cérebro é capaz de reproduzir sensações como essa.  

Buscamos, em vão, ajuda da polícia. Ligamos três vezes para o 190, contamos o caso e pedimos que enviassem uma viatura. Explicamos que os assaltantes estavam de bicicleta e seria possível alcançá-los, desde que a viatura viesse rapidamente. Esperamos 40 minutos, mas nada da ajuda chegar.

Enquanto esperávamos, sentados no meio-fio da calçada, em frente a um posto de combustíveis, os assaltantes passaram por nós mais uma vez. Vinham das bandas da Avenida 7. Quando nos viram, ainda disseram: “Olha nossos amigos ali”. Corremos pra padaria da esquina pra nos proteger. Eles devem ter percebido que estávamos esperando a polícia e, por isso, não voltaram.

Depois desse segundo susto, desistimos de esperar pela polícia e seguimos pra casa. Nossos documentos foram encontrados por um homem que passeva com seu cão na calçada do Mercado da Avenida 4. Ele encontrou um boletim de ocorrência no meio dos documentos do meu amigo e conseguiu nos avisar. Meu amigo havia sido assaltado outra vez, em 2007, no campus da UFRN.

Já se passaram dois dias do assalto, mas a lembrança daqueles instantes de medo não sai da memória. Agora ando assustado pelas ruas. Há uma grande diferença entre só ouvir relatos de violência e ser vítima dela. Você se torna escravo da sensação de insegurança e não consegue mais relaxar nem por um minuto. Não sei quanto tempo dura essa tensão.

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10 opiniões sobre “Pequeno relato da insegurança

  1. esdras em disse:

    Ok, Alisson. Então explica qual parte da ideologia força a prática ou o encobrimento da corrupção como questão de Estado, não só no governo Lula, mas no FHC, Itamar, Collor e Sarney. Esta parte do discurso é igual para todos os políticos, credos e “ideologias”?

    Se é assim, qual a tal diferença “ideológica”?

    Prá mim, fica patente que o “rouba mas faz” é então “ideológico” também.

    Toda a questão que eu levanto é simples e até hoje tem a resposta negada: Se a “esquerda” tem um discurso e “ideologia”, como a sua prática na questão do fazer política é tão parecida com a “direita”? Será que para muitos destes políticos, esta questão” ideológica”, tão prezada por você, não é algo vencido? Por que os partidos políticos de “esquerda”, na hora de julgar os deslizes éticos, agiram igual aos de “direita”?

    Vou dizer porque acho esta questão tão séria: os mesmos governantes que dizem que fazem isto e aquilo, incharam o Estado com “companheiros” e faltou dinheiro para combater aqueles dois deliquentes que te assaltaram. É por conta da corrupção, que é histórica, que a fila para fazer tratamento contra câncer não acaba nunca.

    Nós, brasileiros, somos muito ricos. Achamos que podemos aceitar alguns desvios por pura “ideologia”. Depois não adianta reclamar dos quiprocós comezinhos.

    Sei que os grandes “ideólogos” não gostam de discutir questões do senso comum. Mas quando falta tratamento de saúde para alguém da família, duvido que usemos estatísticas ou a “ideologia” para dizer que precisávamos aceitar a corrupção do PMDB para haver a governabilidade, e assim garantirmos conquistas sociais.

    Quanto ao que é opinião, faço um exercício diário: leio tudo, até o que não gosto e não concordo. Daí, vou pontuando o que não consigo engolir. E isso vale prá você, pro Diario Oficial do políticos de Natal (um outro blog, altamente patrocinado), e para qualquer um. Exerço o meu direito de cidadão de não engolir meias-verdades ou completas-mentiras. Sem “ideologias” partidárias.

    • alissoncal em disse:

      Esdras, como explicitei outras vezes, creio que esse governo que aí está representa um avanço positivo para o país, principalmente por inverter a lógica perversa que relegava os pobres à invisibilidade eterna. Isso não significa que feche os olhos para os equívocos do governo. Não concordo com a máxima do “rouba, mas faz” nem entendo que seja esse o caso. Lula e o PT precisaram fazer concessões pra governar – concessões demais, acredito. Nesse ponto, agiram – como você aponta – como a direita. É a real politik. Isso é só uma constatação, não um juízo de valor.

      A pragmática da política impôs a necessidade dessas “concessões”. Pra mim, esse ainda é o maior erro do governo. Mas é preciso ter em mente que o governo Lula não é um governo de esquerda. É um governo de coalizão, em constante disputa, onde a correspondência de forças é bastante desigual. Isso não justifica nenhuma condescendência com a corrupção, mas é algo que não pode deixar de ser levado em conta. Quando você abre espaço, em certa medida você perde controle.

      Apesar disso, esse governo fez muito mais pelo combate à corrupção que os anteriores. As operações da Polícia Federal estão aí pra comprovar. Mas concordo com você quando critica a tentativa desastrosa de justificar desvios éticos, colocando-os em segundo plano. Entretanto, penso que essa crítica não pode ser pretexto para sabotar o governo, como fazem o PIG e a oposição. Quando digo que não devemos nos deter nesses quiprocós comezinhos, quero dizer que não podemos ser ingênuos ao ponto de sermos pautados pela agenda de escândalos da mídia – cuja capacidade de indignação depende da simpatia com quem está no poder.

      • esdras em disse:

        Olha, Alisson, sabotar o governo é real politik, também.

        O PT fez “Fora FHC” desde o início, e hoje mantém o mesmíssimo programa econômico. Não tenha dúvida que se um dia voltar a ser oposição, muda tudo. Não existe oposição propositiva. Isso é uma utopia. O PT não foi e ninguém será. Oposição faz barulho, careta e finge que fiscaliza, só isso.

        Assim, esta constatação só reforça que o tal PIG faz as suas críticas, mentiras e desvios, não por “ideologia”, mas por pragmatismo puro. Afinal, eles não vendem informação, eles vendem jornal.

        Deixemos então de tentar “ideologizar” algo que não tem nenhuma “ideologia”. Como você mesmo diz, é simpatia. Eu acho que é mais do que isso: é quem paga mais.

        Quanto ao combate à corrupção, faz parte do jogo. Não se combate depois. Tem que se combater antes. E eu não vejo nenhum governante ou legislador ter a iniciativa de propor mudanças para tornar as leis que combatem a corrupção mais eficazes, procurando coibir desde o início.

        Quanto à questão pragmática de fazer concessões, fico a me perguntar: será que somos tão ingênuos de acreditar que só havia esse jeito mesmo? Qual o governante que tendo o capital de popularidade do Lula, e tendo um mínimo de senso ético, não faria de tudo para se desgarrar da tal “herança maldita” que ele diz que herdou?

        Fica a pergunta e uma resposta: é a tal real politik. Será que ele queria se livrar mesmo? Afinal, ele é “o cara” ou não? OU melhor: ele só não pode porque sabe que o rabo está tão preso quanto o dos outros.

  2. Sheyla Azevedo em disse:

    Amigo, lhe sou solidária ao ocorrido. É realmente uma sensação ruim de impotência, medo e desalento. Mas, olhe, passa. Como tudo passa nessa vida. Como diria Pe. Antônio Vieira: “Tudo gasta o tempo. Tudo passa, tudo acaba, tudo digere. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera”… (talvez tenha invertido alguma coisa aí, mas é esse o sentido do primeiro período do sermão O tempo e o amor).

  3. esdras em disse:

    Ora, Allisson, pare com este quiprocó comezinho. Ou você acha que só você passou por isso? Passe para embates mais sérios… Afinal o governo de todos é apoiado pela “esquerda” e foge sempre do senso comum.

    • alissoncal em disse:

      Caro Esdras, só compartilhei o que ocorreu comigo pra fazer a crítica da falta de segurança – dessa vez no lugar de vítima dessa situação. Não disse que só aconteceu comigo. Pouco me importa que o “governo de todos” seja apoiado pela esquerda. Não estou entre esses apoiadores. Você é que está generalizando e incorrendo no erro de achar que a esquerda é homogênea.

      • esdras em disse:

        Não, Alisson. Engano seu. Nunca achei que algo que não existe possa ser homogêneo. É apenas mais uma provocação.

        Só estou colocando que aquilo que achamos pequeno hoje (corrupção, falta de ética, etc), amanhã perpetua nossa sensação de insegurança.

        Ou seja, vamos adequar os discursos tendo sempre a visão da consequencia prática, e não apenas protegendo os nossos discursos.

        O quiprocó vira assalto quando pensamos apenas na teoria e esquecemos que a prática está na rua.

        Quer um “embate sério”: dou-lhe dois. Discuta saúde e segurança no seu blog. Chame especialistas. Chamou um participante de reality-show, pode chamar especialistas que não tenham vinculação política, ou trazer artigos de pessoas que conheçam a questão.

        Quer um debate? Suscite isso dentro do seu blog.

        Garanto que será mais útil e mais jornalístico do que simplesmente fazer o Ctrl+C e Ctrl+V de notícias e opiniões de outros.

        Eu apoio e aplaudo qualquer tentativa de discutir situações práticas. Sem partidarismos.

        Quanto ao seu momento de pânico, solidarizo-me com você.

      • alissoncal em disse:

        Esdras, mais tarde comento sua tréplica. Grato pela solidariedade.

      • alissoncal em disse:

        Esdras, é verdade que discurso e realidade / prática precisam caminhar juntos. Da mesma forma que não apenas “proteger o discurso”, não se pode achar que a prática se constrói autonomamente, como se fosse dissociada da ideologia – que você insiste em negar.

        A sugestão de pauta está anotada. Mas já tratei diversas vezes sobre “saúde” e “segurança pública” no blog. O debate continua aberto, sempre.

        Quanto ao que é mais útil e mais jornalístico, você sabe que a blogosfera é uma grande rede de circulação de informações e troca de opiniões. Não vejo problema em repercutir opiniões de outros – principalmente quando os “outros” em questão são pessoas bem conceituadas em suas respectivas áreas. Você sabe que estando aqui na província é mais difícil ter acesso a algumas informações na fonte. Blogueiros conhecidos como Luis Nassif e Paulo Henrique Amorim, por exemplo, têm uma rede de contatos e informantes muito ampla. Veja o Blog do Nassif e observe como grande parte do conteúdo é contribuição dos leitores. Então, a gente termina se servindo desse material também e acrescentar nossa visão sobre os fatos. Cabe a cada um filtrar o que é útil e descartar o que não presta.

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