Embolando Palavras

O julgamento de Cesare Battisti

Não tenho opinião fechada sobre o assunto. O ministro da Justiça, Tarso Genro, concedeu asilo político ao italiano Cesare Battisti, acusado de terrorismo e assassinato na Itália. Battisti alega que não teve chance de se defender em seu país. O Supremo Tribunal Federal (STF) começou a julgar o caso Battisti, mas o julgamento foi paralisado quando o placar estava em 4 x 3 pró-extradição. O ministro Marco Aurélio Melo pediu vistas ao processo.  

A imprensa brasileira, em peso, condenou a concessão do asilo ao italiano. Como não dá pra confiar em nada do que sai nessa mídia conservadora, reproduzo abaixo matéria originalmente publicada no jornal experimental Contraponto e postada no Blog do Nassif, realizada por estudantes de Jornalismo da PUC-SP. O texto é assinado por André Bontempo, Guilherme Zocchio, José Coutinho Júnior e Rafael Albuquerque:

 

A fuga chegou ao fim

Asilo concedido pelo Brasil ao italiano Cesare Battisti é um ato soberano, mas a mídia brasileira, identificada com Sílvio Berlusconi, desqualifica a decisão a todo custo

“Quero dizer a verdade da minha história e esclarecer os episódios relacionados às terríveis acusações lançadas contra mim. Nunca tive a possibilidade, na Itália, de defender-me. Nunca um juiz ou um policial me fez uma só pergunta sobre os homicídios cometidos pelo grupo ao qual pertencia, […] Nunca a justiça italiana ouviu meu testemunho. Hoje, trinta anos depois, pela primeira vez na minha vida, tenho a ocasião de explicar-me perante uma justiça, a justiça do Brasil”. Este é um trecho da carta enviada no dia 25 de fevereiro deste ano pelo italiano Cesare Battisti aos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).

Preso em 2007 no Rio de Janeiro, Battisti recebeu asilo político através de decisão do Ministro da Justiça, Tarso Genro (PT), no dia 13 de janeiro deste ano. O caso divide opiniões sobre se a decisão do ministro é correta ou não. A mídia brasileira tratou do tema de maneira muito superficial e tendenciosa, julgando precipitadamente Battisti como “terrorista” e “assassino”. Deixou de lado que, para compreender melhor o caso Battisti, é necessário entender a Itália dos anos 1970, período conhecido como “os anos de chumbo”.

Os anos 1970 foram um tempo de grande efervescência política na Itália, em que movimentos sociais, como o estudantil e o operário, reivindicavam direitos cíveis entre os quais a legalização do divórcio e do aborto. Segundo o Doutor em História Social e professor da UFRJ, Giuseppe Cocco, “A Itália nesta época não era ‘de chumbo’, pelo contrário, os anos 70 foram uma época de conquistas sociais revolucionárias. Esses anos foram ‘chumbados’ porque o Estado organizou uma série de atentados para criar um clima de terror e reprimir os grupos de esquerda. A luta armada, por parte da esquerda, respondia a essas provocações; foi uma década libertária dentro da qual ocorreram lutas armadas contra o fascismo.”

O PCI (Partido Comunista Italiano), no começo da década de 70, era um partido dividido entre duas correntes ideológicas opostas. Uma inovadora, pois apoiava os movimentos sociais e as propostas de transformação que eles reivindicavam, e a outra conservadora, já que seguia a proposta soviética da Terceira Internacional e se colocava contra os movimentos. “Nos anos 70, o movimento não é absolutamente controlado pelo PCI; ao contrário, ele era muito crítico ao reformismo e ao stalinismo do partido” afirma Cocco. Apesar de não exercer um controle sobre os movimentos, o Partido Comunista era o representante institucional dos anseios populares e conseguiu se eleger em diversas cidades do sul da Itália, obtendo tanta força política quanto a Democracia Cristã (Partido de direita, com maioria no governo).

Esses dois partidos (PCI e Democracia Cristã) em vez de disputarem o poder resolveram unir suas forças e criaram o “compromisso histórico”, que deixou as ideologias desses partidos em segundo plano com a justificativa de que haviam problemas econômicos e administrativos que deveriam ser resolvidos para colocar a Itália nos eixos. No entanto, essa foi uma manobra para o PCI chegar ao poder, já que no contexto da Guerra Fria – o mundo dividido entre países capitalistas e socialistas – a Itália pertencia ao primeiro grupo. Desse modo, o Partido Comunista deixou de lado o seu caráter inovador e adotou uma posição extremamente contrária aos movimentos sociais, os quais encararam o “compromisso histórico” como uma traição. Para o jornalista e organizador do Comitê de Solidariedade a Cesare Battisti, Celso Lungaretti, “A traição do PCI colocou os movimentos numa situação de desespero e excessos, levando-os a atitudes como o seqüestro e assassinato [em 1978] do primeiro-ministro Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas [o principal grupo armado de extrema esquerda]”.

O assassinato de Moro, por sua vez, levou a uma forte repressão dos movimentos sociais, e, com a desculpa de “combater o terrorismo”, são criadas as leis de exceção, que retiravam uma série de direitos da população ao permitir que se prendessem pessoas preventivamente por até dez anos e oito meses com base apenas em hipóteses e sem a necessidade de provas concretas, além de permitirem tortura e legitimarem a delação premiada. A esquerda institucional italiana representada pelo PCI, ao se chocar com os movimentos, deixou de existir; de acordo com Cocco, “não há esquerda na Itália porque não há esquerda sem o apoio dos movimentos sociais”.

 

Leia a matéria completa aqui.

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Uma opinião sobre “O julgamento de Cesare Battisti

  1. Esdras em disse:

    Como esse rótulo do PIG é tosco: na CartaCapital desta semana, o Leandro Fortes escreve que o STF começou a corrigir um erro histórico cometido pelo ministro da justiça, Tasso Genro. Agora pergunto: todos os outros links do blogueiro também são do PIG?

    Ou será melhor assumir que às vezes o bom senso não tem “ideologia”?

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