Embolando Palavras

Filhote da ditadura, Agripino comemora 30 anos na política

Agripino Maia

José Agripino comemorou 30 anos de “vida pública” (sic) na semana passada. Várias personalidades do DEM (ex-Arena, ex-PDS, ex-PFL) vieram a Natal render homenagens ao senador. Todos teceram loas ao “espírito público” (sic) do potiguar. O primo de Jajá, deputado federal Rodrigo Maia (RJ), presidente nacional do DEM, disse que Agripino “é uma das maiores referências da política do país”.

O blog não poderia deixar a data passar em branco e, modestamente, relembra algumas passagens da carreira política de Jajá que certamente não foram mencionadas durante os festejos:

– Prefeito biônico de Natal, nomeado em 1979 pelo então governador e primo Lavoisier Maia – este nomeado para o cargo pelo pai de José Agripino, Tarcísio Maia (Tarcísio havia sido convocado para assumir o governo estadual, em 1975, pelo general Golbery do Couto e Silva, a “eminência parda do governo Geisel”);

– Com as bênçãos da ditadura, beneficiado pelo voto camarão (os eleitores só podiam votar em candidatos de um mesmo partido, sob pena de anularem o voto) e pela pesada estrutura do então PDS, elegeu-se governador, pela primeira vez, em 1982;

– Em 1985, foi flagrado numa reunião com auxiliares e 120 prefeitos, acertando a estratégia para eleger sua então secretária de Promoção Social, Wilma Maia, prefeita de Natal. A estratégia era a seguinte: os prefeitos deveriam comprar títulos eleitorais, distribuir presentes, incentivar tumultos nos processos de votação e apuração e usar veículos oficiais com placas frias para transportar eleitores do interior para a capital. No final da reunião, Aripino deu a última instrução: “Não podemos deixar rabo-de-palha”. A frase de Agripino batizou aquele que entraria para a história como um dos maiores escândalos políticos do Rio Grande do Norte. O “rabo-de-palha” é um fantasma cujo espectro persegue Jajá até hoje.

– Gravações da fatídica reunião revelaram como Agripino pretendia ganhar o voto dos pobres: “Com uma feirazinha, com um enxoval, com umas coisinhas”.

– Em outro trecho, Agripino revela seu peculiar conceito de democracia: “Vamos indicar a área para vocês trabalharem e inclusive nas áreas modestas, de eleitores indecisos que são sensíveis a uma conversa e a uma negociação, que será feita por nós ou por eles. Democracia é isto!”

– Em 1991, elegeu-se governador pela segunda vez, derrotando o primo Lavoisier Maia. O segundo mandato terminou marcado por outro escândalo: a fraude do “Ganhe Já” – loteria em que o cidadão trocava notas fiscais por cupons que lhe davam o direito de concorrer a prêmios.

– Em 21 de novembro de 1994, o Jornal de Natal publica reportagem sobre a farsa do “Ganhe Já”, revelando como o programa foi usado para enriquecer os amigos do governador:

 

“A Falência do Ganhe Já e o Arrocho Fiscal. A campanha do Ganhe Já, denunciada sistematicamente por este jornal como uma farsa, que vendia uma falsa realidade do Rio Grande do Norte (tendo inclusive motivado a decisão do JN a não publicar quqlaquer anúncio da campanha), faliu sem jamais ter alcançado seu objetivo, aumentar a arrecadação do Estado. Foi apenas um sangradouro de dinheiro que financiou a Dumbo Publicidade e fornecedores e levou o Erário a esvaziar-se a ponto de o Estado não ter dinheiro em caixa sequer para o pagamento da folha do funcionalismo.

O empobrecimento do Estado, que tem hoje uma legião de 1 milhão de flagelados (…), se deu na exata medida do enriquecimento de ‘amigos do peito’ do governador, com destaque para os proprietários da Dumbo Publicidade, responsável pela farsa do Ganhe Já, que manteve quase toda a imprensa amordaçada durante os quatro anos de governo pefelista.

Como tudo que cercou o Ganhe Já antes de sua falência total, a participação da empresa Informe Prestação de Serviços Ltda., terceirizada pela Dumbo Publicidade para executar a campanha, também é um mistério. E dos mais nebulosos. Contratada sem licitação, depois que o então secretário de Fazenda Manoel Pereira anulou inexplicavelmente a concorrência que havia sido aberta justamente para se escolher a firma que iria trabalhar no Ganhe Já, a Informe viveu sempre nas sombras.”

 

– Herdou do pai a concessão da TV Tropical, afiliada da Rede Record, presente dos generais do regime para o velho Tarcísio Maia.

– Além da TV Tropical, controla pelo menos cinco emissoras de rádio no Rio Grande do Norte.

– Utiliza, desavergonhadamente, o aparato midiático que dispõe (concessões públicas, registre-se) para fazer autopromoção e atacar adversários políticos.

– Levou uma surra da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) quando tentou constrangê-la na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em maio do ano passado, insinuando que a ministra estaria mentindo aos senadores porque admitira que mentiu, sob tortura, na ditadura militar. Ouviu, constrangido, a ministra dizer que, naquela época do regime dos generais, os dois (Dilma e Agripino) estavam em “lados diferentes”.

Essa é a pequena contribuição do blog para a retrospectiva política de José Agripino. Lamentavelmente, ninguém tocou em nenhum desses assuntos na festa de Jajá. Caberia à imprensa resgatar esses fatos do passado para lançar luz sobre o presente, levando a informação completa e contextualizada à sociedade. Mais uma vez, prevaleceu a subserviência aos poderosos.

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4 opiniões sobre “Filhote da ditadura, Agripino comemora 30 anos na política

  1. Pingback: Agripino e o balaço no ouvido | Botando a Alcione na Hidra

  2. lembro que agripino deixou de apoiar micarla só porque ela quis implantar o plano de cargos e salários do servidor municipal. Ele atualmente é responsável por rosalba nao querer pagar o plano de cargos e salários do governo do Estado, ele não gosta de servidor concursado, pois servidor concursado faz apenas o que é permitido por lei e não favorece particulares.

  3. Gustavo Lucena em disse:

    Caro Alysson Dantas, vc se esqueceu de mencionar que no desgoverno de José Agripino Maia, ocorreram a quebra de 2 bancos estaduais: o Bandern (1991) e o BDRN (1994), ambos por mal uso e má-gestão.

    Ou seja, isso por si só já demonstra a (falta de) competência e probidade do homem do rabo-de-palha.

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