Embolando Palavras

O xadrez de 2010

Não deu pra comentar antes a pesquisa CNI/IBOPE, divulgada no início da semana, sobre a sucessão presidencial. Mas o assunto movimentou a blogosfera, gerou várias análises e dividiu opiniões. As interpretações variaram conforme as convicções políticas do freguês. Resumidamente, a pesquisa indicou que José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) caíram, enquanto Ciro Gomes (PSB) e Marina Silva (PV) cresceram.

No principal cenário pesquisado, Serra lidera com 34%, Dilma e Ciro aparecem empatados com 14%, Heloisa Helena (PSOL) figura com 8% e Marina surge com 6%.

No segundo cenário, quando Aécio Neves (PSDB) substitui Serra, Ciro Gomes lidera com 25%, Dilma vem em seguida com 16%, Aécio com 12%, Heloísa Helena com 11% e Marina Silva com 8%.

Em outra simulação, sem Heloisa Helena na lista, Serra lidera com 35%, Ciro Gomes aparece com 17%, Dilma Rousseff soma 15% e Marina Silva, 8%. Com Aécio no lugar de Serra e sem Heloísa Helena, Ciro Gomes lidera com 28%, seguido de Dilma com 18%, Aécio com 13% e Marina Silva com 11%.

No levantamento que exlui Marina, Serra tem 34%, Ciro 17%, Dilma 15% e Heloisa Helena, 10%. Em relação às pesquisa anterior, realizada em junho, quando a senadora Marina Silva ainda não aparecia nas simulações, José Serra caiu 4% e Dilma Rousseff caiu 3%. Já Ciro Gomes cresceu 5% e Heloisa Helena, 3%. 

Agora vamos às análises sobre os números. Os comentaristas divergem sobre a importância das pesquisas nesta época, quando ainda falta mais de um ano para as eleições. Alguns afirmam que o jogo já começou pra valer, enquanto outros dizem que é cedo demais pra se prever alguma coisa. A imprensa tucana comemorou a queda da ministra Dilma Rousseff, mas procurou esconder o tombo do governador José Serra. Estratégia previsível. Faz parte da campanha para desacreditar a pré-candidatura da petista.

Dilma, como se sabe, há tempos enfrenta artilharia pesada, com a fabricação de sucessivos escândalos pela mídia. A mais recente armação foi o Linagate. Considerando esse longo processo de exposição desfavorável, associado à exploração desumana do câncer da ministra, a queda de Dilma Rousseff era esperada.

A mídia simpática aos tucanos se esforçou para fazer crer que a candidatura da ministra “naufragou”. Para isso, seguiram um roteiro pré-definido:

– Destacar que Dilma “caiu”, enquanto Serra apenas “oscilou negativamente”; 

– Enfatizar que Dilma tem a maior “rejeição” (40%), sem mencionar os 30% de reprovação ao candidato tucano;

– Não dizer, em hipótese alguma, que Dilma só é conhecida por 32% dos entrevistados, enquanto Serra é por 66% — isso quer dizer que a ministra tem maior potencial de crescimento, principalmente quando ficar claro para a população que ela é a candidata do presidente mais popular da história do país (Lula, segundo a pesquisa, tem 81% de aprovação).

No blog Óleo do Diabo, Miguel do Rosário destacou o que chamou de “cacoetes” usados pela mídia na divulgação da pesquisa:

Quero destacar um ponto que ninguém parece ter percebido. No quadro mais importante, o que inclui Serra, Ciro Gomes, Dilma, Heloísa Helena e Marina, a imprensa repetiu ad infinitum que Ciro “ultrapassou” Dilma. Está claro que há uma tentativa, que não é de hoje, de romper a aliança PT-PMDB. O ponto que ninguém viu é que Ciro não está à frente de Dilma. Está em empate técnico. Ele tem 17%, ela tem 15%. Esses dois pontos percentuais correspondem à margem de erro. Para quem não sabe, a margem de erro embute um fator casual. Ou seja, é possível que a mesma pesquisa, se fosse realizada na mesma época, usando os mesmos métodos, mas entrevistando pessoas diferentes, poderia trazer Dilma à frente de Ciro.

 

Em relação à “rejeição” de Dilma, Miguel observou o seguinte:

Dilma Roussef só é conhecida por 32% dos entrevistados, enquanto Serra é por 66% e Ciro Gomes, por 45%. Esses dados se conformam perfeitamente com os das outras pesquisas, que mostram o crescimento mais rápido de Dilma junto às classes educadas, com ensino superior e com renda mais alta, as quais, provavelmente, já sabem muito bem quem é Dilma e que ela deverá ser a candidata apoiada pelo presidente Lula. Cotejando a pesquisa com a sólida popularidade de Lula, as perspectivas de Dilma são as mais positivas. (…) Entre os  menos escolarizados, Lula tem aprovação de 88%. Para mim é evidente que, quando o presidente estiver liberado para participar do horário eleitoral e informar os cidadãos de que sua candidata é Dilma, este povão simples e honesto irá votar em peso nela. Mas Lula também tem aprovação de 71% entre os que tem curso superior completo ou mais, e 72% tanto entre os que ganham de 5 a 10 salários como os que ganham mais de 10 salários. Ou seja, mesmo entre o público alvo da grande imprensa, aqueles que mais consomem carros e adquirem imóveis nas capitais, Lula tem uma vasta e sólida aprovação. Repare ainda que a aprovação de Lula no Nordeste é de 90%, um índice jamais visto em nenhum país democrático, ainda mais para um governante em final de mandato, com todos os desgastes decorrentes daí.

 

No Vi o Mundo,Luiz Carlos Azenha escreveu que “a campanha eleitoral está em andamento”, mas acha que, por enquanto, toda movimentação ainda é “interna”:

José Serra precisa provar sua viabilidade eleitoral antes de obter o compromisso firme dos financiadores de campanha. Por isso trabalha para inflar Marina e Ciro e para limar, pela ordem, Aécio Neves e Dilma Rousseff. Nessa tarefa, conta com o inestimável apoio da maior parte da mídia corporativa.

Acho que as pesquisas de opinião pública valem muito pouco faltando mais de um ano para a eleição.

(…)

Romper a aliança entre PT e PMDB parece ser o grande objetivo estratégico de Serra. Para isso, ele precisa criar dúvidas sobre a viabilidade eleitoral de Dilma. É disso que se trata. Como analisou Rodrigo Vianna com acerto, anteriormente, é a UDN tentando romper o acordo entre PTB e PSD.

Com a economia brasileira bombando, a máquina do governo federal nas mãos, o apoio de Lula e do PMDB, Dilma Rousseff é uma candidata fortíssima, ainda que os números das pesquisas não reflitam isso ou tenham sido deturpados para não refletir isso — no que acredito, especialmente quando o IBOPE diz que Dilma tem uma taxa de rejeição de 40%. Tornar Dilma a vilã terrorista da classe média apenas repete o padrão do “medo” usado contra Lula, mas já é campanha eleitoral, sim. Clássica.

 

O Escrevinador Rodrigo Viana aposta que o personagem central desse xadrez político que começa a ser jogado agora com olhos voltados para 2010 é Ciro Gomes:

O que sei dizer é o seguinte: de fato, a maior parte da população não está pensando em eleição. O que não quer dizer que o jogo já não tenha começado.

Lá na frente, quando a grande massa de eleitores entrar em campo, parte do jogo já terá sido jogado.

Serra ou Aécio no PSDB?

Dilma com PMDB ou Dilma com Ciro?

Lula terá um ou dois candidatos?

Tudo isso começa a ser definido agora.

A minha tese central é que esse arranjo (ou dessarranjo?) de forças hoje tem um personagem central: Ciro Gomes.

Ele, e não Marina, pode mudar toda a estratégia eleitoral do governo.

Lula e o PT estão preparados para uma eleição plebiscitária: Dilma é Lula; Serra é o anti-Lula.

Ciro aparece nas pesquisas com força suficiente para manter sua candidatura. Uma candidatura lulista, mas fora da estratégia oficial do governo.

Vários leitores (aqui, e no blog do Azenha) acham que a candidatura Ciro serve aos interesses de Serra.

Discordo frontalmente. E, nesse ponto, discordo também do Azenha.

Para Serra – com sua máquina de dossiês e o apoio do PIG – é mais fácil centrar fogo em Dilma. É mais fácil colar nela a pecha de “inexperiente”, de “pau mandado de Lula” ou (para agradar a extrema-direita) de “terrorista”.

Se Ciro sair candidato, Serra terá dois adversários para bater. Serão dois contra um. Se centrar todo fogo em Dilma, Ciro cresce. Se bater muito em Ciro, vem a Dilma com apoio do Lula.

Esse é o ponto que trago para debate. Apesar de faltar muito tempo para as eleições, essa escolha será feita nos próximos meses (muito antes da Copa do Mundo e do Carnaval).

Fora isso, lembro também o papel de Aécio. Dentro do PT , há quem tema mais a candidatura dele do que a de Serra. Faz sentido. Ele tem condições de se apresentar não como “anti-Lula”, mas como o “pós-Lula”.

(…)

Mas o fato é que muita gente no PT avalia que Aécio pode mesmo ser um candidato mais difícil de derrotar, apesar de hoje estar atrás nas pesquisas.

Entre os tucanos, muita gente também sabe disso. Mas como tirar da corrida o governador de São Paulo, com mais de 30% de intenções de voto?

Isso tudo está em jogo, desde agora.

Aécio está se guardando “pra quando o carnaval chegar”. Serra (representante da neo-UDN) segue em sua estratégia de rachar a aliança PT-PMDB (que reproduz a velha aliança PSD-PTB).

Com a economia bombando, e a popularidade de Lula nas alturas (como lembra o Azenha), o PMDB dificilmente ficará contra a candidatura apoiada pelo lulismo. Seria suicídio. E o velho PSD (digo, PMDB) não é de cometer suicídio político.

Ciro já se lançou ao mar. Pode até não ser candidato. Mas, nesse caso, venderá mais caro para o lulismo o apoio do chamado bloquinho (PSB-PDT-PCdoB), o que pode atrapalhar (mas não inviabilizar) as negociações do PT com o PMDB.

Muito antes da final da Copa da África do Sul, tudo isso estará já acertado. 

 

Papo de Buteco

As opiniões acima são bastante críveis, principalmente porque levam em conta todas as variáveis que a mídia, em sua sanha pró-tucana, tentou esconder.

Mas como esse blog é democrático, vamos deixar a palavra de jornalistas e afins um pouco de lado para dar espaço à voz rouca das ruas e seus palpiteiros políticos.

Numa roda de amigos ontem à noite, ao som do chorinho, o papo sobre as eleições e a pesquisa do Ibope rolava solto. Destaco a opinião de um colega petista, preocupado com a situação: “Quando José Dirceu caiu, o partido (PT) ficou sem candidato natural. Naquele momento, Lula deveria ter preparado Marina Silva para ser sua sucessora. Marina tem a simpatia do povo e tem uma história de vida parecida com a dele (Lula). Mas Lula se isolou em sua popularidade e deu às costas ao PT. Aí decidiu ungir Dilma sua candidata, mas a ministra não cresce. Dilma não leva essa“, desabafou.

Este embolador ouviu a confissão de “medo” de outro petista, que também acredita que Lula errou ao escolher Dilma para ser sua candidata: “A candidata deveria ser Marina. O jogo não vai ser nada fácil. Corremos o sério risco de perder o governo para os tucanos e ver o país retroceder.”

É isso aí. A guerra vai ser dura mesmo.

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