Embolando Palavras

O problema dos transtornos alimentares

Por Álvaro Guedes (Psicólogo e Psicoterapeuta)

ÁlvaroHá alguns meses tivemos notícia da morte de uma modelo, cujo peso estava muito abaixo da média, levando a crer que a moça sofria de algum tipo de transtorno alimentar. Em seguida, ficamos sabendo que se tratava de um quadro de anorexia nervosa. O caso teve bastante repercussão e as pessoas passaram a olhar com mais preocupação para a situação das modelos – principais vítimas da obsessão pela magreza. Em alguns países da Europa, por exemplo, modelos muito magras foram proibidas de desfilar.

Outro caso muito divulgado foi o da participante de um reality show (Big Brother Brasil) que sofria de bulimia nervosa. Ela apresentava episódios de compulsão alimentar, ingerindo grande quantidade de comida em um curto espaço de tempo; em seguida, induzia vômitos em si mesma para botar pra fora o que havia ingerido. A exposição despertou o interesse das pessoas pelo assunto, que passou a ser discutido com mais freqüência na imprensa.

De modo geral, os transtornos alimentares são mais comuns em mulheres. Os casos mais comuns são de “Anorexia Nervosa”, “Bulimia Nervosa” e “Transtorno da Alimentação Sem Outra Especificação”, que é quando há algum quadro de problema relacionado à alimentação, mas os sintomas são insuficientes para classificar o problema em algum outro transtorno.

A taxa de incidência anual média da Anorexia Nervosa é estimada em 0,5% para as mulheres e um décimo disso para os homens. Para a Bulimia Nervosa, a estimativa de prevalência é de 1 a 3% em mulheres e de um décimo disso em homens.

É importante frisar que esses transtornos são problemas sérios, podem levar à morte e, por isso, merecem um tratamento complexo e atenção especial. Estão longe de ser uma “frescurinha boba”, como alguns podem, inadvertidamente, pensar.

A Anorexia Nervosa começa, principalmente, na puberdade, entre os 14 e os 18 anos. É muito difícil que apareça antes disso e ainda mais raro – mas não impossível – que apareça em pessoas acima dos 40. A pessoa que sofre desse transtorno tem um medo intenso de ganhar peso e está sempre insatisfeita com seu corpo. Apesar da perda de apetite não ocorrer na maioria dos casos, a pessoa restringe sua dieta aos poucos, retirando primeiro os alimentos mais gordurosos, diminuindo cada vez mais a quantidade/variedade do seu cardápio.

A pessoa se percebe como muito gorda e tem uma idéia fixa de que precisa emagrecer, mesmo quando não é o caso. Estar 85% abaixo do peso normal esperado para a altura é um fator de alerta e, nesse caso, pode indicar que se trata de Anorexia Nervosa.

Quando alguém sofre de Anorexia Nervosa existem dois padrões comportamentais que a pessoa pode seguir: (1) Restritivo: a pessoa evita se alimentar, mas não pratica técnicas de purgação (vômitos auto-induzidos, ingestão de laxantes etc.); (2) Compulsão Periódica/Purgativo: a pessoa come compulsivamente, mas em seguida, tomada pela culpa, elimina tudo que comeu através da purgação.

O caso da Bulimia Nervosa é um pouco diferente e envolve certa dificuldade de controlar os impulsos alimentares. Considera-se um episódio bulímico quando dentro de um período de duas horas o sujeito ingere mais alimento do que as outras pessoas consumiriam durante período e circunstâncias similares; além disso, é necessário que a pessoa se perceba como incapaz de controlar o seu próprio comportamento alimentar, tanto no que diz respeito à quantidade quanto ao tipo de alimento que está sendo ingerido. Ela simplesmente não consegue parar de comer. É comum haver a ingestão de alimentos ricos em carboidratos, gordura e açúcar.

Esses episódios bulímicos devem ocorrer, em média, duas vezes por semana por no mínimo três meses (ou algo em torno disso). Assim como na Anorexia Nervosa, o sujeito que sofre de Bulimia Nervosa tem sua auto-imagem influenciada pelo peso e forma do seu corpo. É necessário saber que nem sempre a pessoa que apresenta o transtorno bota comida para fora só para compensar a ingestão exagerada de alimento. O que caracteriza o transtorno é a adoção de estratégias compensatórias, que não necessariamente são métodos purgativos. Essa compensação pode se dar por meio de jejum ou prática intensa de exercícios.

Alguns problemas secundários podem surgir como consequência das questões originais, como uma timidez exagerada e depressão, dentre outros. Complicações médicas e odontológicas também podem surgir, pois a indução recorrente de vômitos pode danificar o esmalte dentário e provocar lesões no esôfago, língua e boca.

O tratamento para esses tipos de transtornos é preferencialmente multidisciplinar: psicólogos, médicos e nutricionistas devem integrar a equipe que acompanharão o caso.

Uma dificuldade para o tratamento é a relutância da pessoa em reconhecer que está com um grave problema de saúde e que necessita de atenção profissional. Muita gente não admite o transtorno e insiste que tem razões para manter aquele comportamento, como ficar bonita (o) ou agradar a alguém.

Outra dificuldade é que, diferentemente de uma doença infecto-contagiosa qualquer, cuja sintomatologia se apresenta mais rápida e explicitamente, a pessoa que tem um transtorno alimentar pode mascarar a sua doença por meses a fio, sem que os amigos ou parentes percebam logo.

Quando o problema é detectado, a pessoa deve ser tratada com acolhimento, buscando-se compreender, genuína e amistosamente, os motivos que estão levando a pessoa a manter esse padrão de comportamento. A preocupação dos parentes é grande e, certamente, é esperado um abalo repentino, mas o acolhimento inicial deve ser uma abordagem mais eficiente do que a reprovação e o oferecimento insistente de alimentos. Exigir enfadonhamente que a pessoa coma só vai tornar o horário das refeições um momento ainda mais chato e angustiante.

Do ponto de vista psicológico o tratamento para os transtornos alimentares envolve, de modo geral, a psicoeducação (informar ao paciente sobre o seu problema, quais as implicações dele, o que é mito e o que é verdade etc.); o monitoramento do padrão alimentar; estratégias comportamentais para prevenir os episódios de compulsão alimentar e aumentar o autocontrole; desafio de crenças e pensamentos irracionais/exagerados; e identificação da função psicológica do transtorno (fuga de alguma situação estressante, chamar a atenção para si etc.).

O acompanhamento constante é fundamental para analisar a progressão do transtorno, seja ela positiva ou negativa.

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