Embolando Palavras

Pequenas memórias indeléveis

Estava viajando na memória. Marcel Proust disse que sem nossa memória não somos nada, porque a memória é nossa coerência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento.

Neste dia dedicado à saudade, muitas memórias ressurgem do sótão da minha história particular. É quase como se eu pudesse tocá-las, ou como se a roda da vida girasse ao contrário. Nesse giro invertido, as coisas se sucedem aleatoriamente, como slides projetando imagens desbotadas na parede da lembrança.

Às vezes tenho medo de esquecer, porque envelhecer também é esquecer. Eu só me dei conta que estou realmente envelhecendo na semana passada, quando descobri meus primeiros fios de cabelos brancos. Caramba. Ainda ontem eu tinha 18. Naquela época fazia planos de estar rico aos 25, casado aos 28 e pai aos 30.

Isso me lembra o Kevin Arnold, personagem do meu seriado favorito, “Anos Incríveis”, que passava na Band em 1995, quando cheguei a Natal pra estudar na Escola Técnica Federal.

Certo dia, Kevin havia tomado aulas de piano pra tocar num recital, mas desistiu porque um menino, que tocava melhor que ele, iria apresentar a mesma música. Desiludido, diz a si mesmo:

Quando somos crianças, somos um pouco de cada coisa. Artista, cientista, atleta, erudito. Às vezes parece que crescer é desistir destas coisas, uma a uma. Todos nos arrependemos por coisas das quais desistimos. Algo de que sentimos falta, de que desistimos por sermos muito preguiçosos, ou por não conseguirmos nos sobressair, ou por termos medo“.

No dia em que sua namoradinha (Winnie) vai embora, Kevin a observa partir da varanda da sua casa, perdido em alguma coisa entre desolado e conformado:

E se os sonhos e as recordações se misturam, é assim mesmo que deve ser… porque todos merecer ser heróis.”

No último episódio da série, a despedida em tom existencialista:

Crescer acontece muito depressa. Um dia, você está de fraldas e no outro já está indo embora. Mas as lembranças da infância permanecem com você durante muito tempo. Me lembro de um lugar… uma cidade… uma casa… Como todas as outras casas….Um jardim, como todos os outros…. numa rua, como todas as outras. E… depois de todos esses anos, eu continuo a me lembrar… com admiração.

Estava lendo uma bela reportagem de Joshua Foer sobre memória na National Geografic Brasil. O jornalista diz que tudo o que somos se situa entre dois pólos: o de lembra-se de tudo e o de não se recordar de nada. Em outro trecho, Joshua escreve:

Se formos capazes de converter o que quer que estejamos tentando lembrar em vívidas imagens mentais e então rearranjá-las em algum tipo de espaço arquitetônico imaginário, conhecido como palácio da memória, as lembranças podem se tornar indeléveis.”

 As minhas memórias nem sempre são tão vívidas. Às vezes faço um esforço descomunal pra lembrar das coisas mais triviais, como o nome de alguém que conheci na semana anterior. Outras vezes, sou visitado por memórias desagradáveis, que eu gostaria de lançar pra sempre no lago do esquecimento.

Esse inexplicável desequilíbrio é muito desconcertante. Eu queria lembrar só o bom da vida e dizer como o profeta Jeremias: “Quero trazer a memória aquilo que me esperança“.

Mas sou levado a me identificar com AJ, personagem da matéria de Joshua Foer, que disse: “Eu me recordo do bom, e isso é muito reconfortante. Mas também me lembro de ruim, e de todas as más escolhas“.

 

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