Embolando Palavras

O Pitbull de Micarla

Do Novo Jornal:

PERFIL: Eugênio Bezerra, o polêmico assessor especial da prefeita

Escudo e estilingue

Por Luana Ferreira

Existe alguém no Palácio Felipe Camarão que trabalha para proteger a prefeita Micarla de Sousa de possíveis interferências desagradáveis, comentários maldosos ou  visitas indesejáveis. Enfim, do mundo lá fora. Se você já viu a borboleta nos últimos anos, na prefeitura ou na rua, em campanha ou no cabeleireiro, deve ter notado alguém que a cerca, geralmente segurando sua bolsa, às vezes anotando algumas de suas – muitas – determinações, adaptando o microfone para a sua estatura, abrindo caminho entre as pessoas, oferecendo o chocolate preferido num momento em que o estômago reclama e, principalmente, afastando os jornalistas e fotógrafos que julga inconveniente. Esse alguém é o assessor especial do gabinete da prefeita, Eugênio Bezerra, o “pit bull” de Micarla de Sousa.

Por vezes, a fé cega à borboleta e à administração verde o faz perder a cabeça, e ele transforma o palco imenso da internet em ringue, trava rinhas pessoais com jornalistas que vão contra os mandos da pevista, faz bravatas, chama para briga. Nessas horas, a argumentação pobre, as discussões de baixo nível e os erros de escrita transformam o escudo em munição para os adversários e a prefeita vira alvo fácil: por que Micarla de Sousa confiaria justamente a ele o nobre cargo de assessor especial? Aliás, qual é a função de um assessor especial?

O salário bruto de Eugênio Bezerra é R$ 4.200, mas já foi R$ 9.200 nos primeiros seis meses de gestão, quando era secretário de Assuntos Parlamentares. O cargo foi extinto na reforma administrativa de julho de 2009. Apesar de ter recebido salário de primeiro escalão, nunca teve sala, telefone ou auxiliares nem exerceu a função original de estabelecer a ponte entre o Executivo e a Câmara Municipal de Natal. “Fui para lá porque ela precisava colocar um nome e eu precisava de uma função”, justifica. Até hoje é tratado por secretário por diversos funcionários. De acordo com Roberto Lima, secretário de Administração,o assessor especial do gabinete da prefeita cuida da “comunicação direta através de tecnologias especiais, como a internet”, além de preservar a imagem da prefeita. “Mas isso será mais detalhado quando for publicado um novo regimento interno da prefeitura”, assegura.

Na prática, Eugênio Bezerra cuida da agenda de Micarla de Sousa, elabora o cronograma e administra os eventos da prefeitura, ajuda nos discursos e, claro, carrega a bolsa dela para lá e para cá – o que lhe rende várias piadas, inclusive entre os amigos. Ele não liga.”Não vejo demérito nenhum. Faço qualquer coisa pela prefeita”.

Graças à relação próxima com o poder, se acostumou com pequenas vantagens. Nunca tirou carteira de habilitação, por exemplo, apesar de possuir carro próprio há vários anos.

Entre os colegas jornalistas, ganhou os apelidos de “mucama” e “apupo-ruminante” – este último recentemente, depois de ameaçar as jornalistas Anna Ruth, Eliana Lima (do jornal Tribuna do Norte) e Laurita Arruda (blogueira) após as três escreverem sobre o show de Padre Fábio, que ganhou R$ 221 mil da prefeitura para cantar em Natal em 25 de dezembro. “Vou falar sobre mentiras e verdades. Bom e mal (sic) jornalismo no caso do show de Pe Fábio”, postou no twitter. Em seguida, ameaçou: “Vou falar claro sobre a cobertura da Tribuna. Das coleguinhas (sic) Anna Ruth, abelhinha e Laurita. Alias (sic) sobre esta ultima (sic) tenho um babado forte”.

A frase não pegou bem e Eugênio recuou. “Como Laurita se zangou comigo, resolvi naum (sic) publicar mais minhas opiniões e babados eheheh… deixa pra lá… Não quero ve-la chateadinha”, postou. Depois, justificou no blog. “As (sic) vezes ela exagera e se prescipita (sic). Mas em nenhum momento pedi desculpas a ela ou a quem quer que seja pela minha opinião”. Coincidência ou não, Eliana Lima e Laurita Arruda receberam dias depois flores brancas da prefeita Micarla de Sousa.

Em outro episódio, Eugênio teria trocado acusações no Orkut com o jornalista Alisson Almeida, que foi seu estagiário e depois assessor assistente no gabinete da então deputada Micarla há dois anos. Alisson o provocou ao divulgar o salário dele na comunidade RN Política. Eugênio teria justificado os R$ 9.200 mensais dizendo que “funcionário público que ganha mal ou vai roubar ou desviar”. Ele também teria escrito que como “repórter na equipe de Boechat (jornalista da Band do Rio de Janeiro) ganhava 8 mil reais para trabalhar apenas seis horas”. Eugênio realmente trabalhou na Band do Rio de Janeiro durante um ano, mas como repórter da madrugada, cuja remuneração não passa dos R$ 3.000 de acordo com um funcionário dos Recursos Humanos da emissora.

Ele diz que nessa época teve a sua senha do Orkut roubada e não é autor dos comentários. O episódio fez com que ele trocasse de perfil meses depois.

Alisson Almeida fez um dossiê com as páginas da comunidade (disponível no blog dele, Embolando as Palavras) e divulgou o episódio aos quatro ventos. Em seguida, prestou queixa por ameaças que teria recebido pelo Orkut na Polícia Federal e depois, por telefone, numa delegacia. Eugênio nega tudo. Novamente, a prefeita teria acobertado o fiel escudeiro. “Deixe de arenga com Eugênio”, pediu a Alisson durante um evento.

Na Assembleia Legislativa, quando pela primeira vez teve funcionários sob sua tutela, foi acusado de assédio moral.  “Não me lembro da vez em que ele tivesse argumentos. Era no grito, na truculência ou simplesmente na base do ´eu quero assim´”, lembra um colega. “Ele usa Micarla como escudo”.

Ao receber status de primeiro escalão, começou a destratar os próprios secretários, às vezes deixando-os horas na sala de espera do gabinete ou mesmo impedindo o encontro com a prefeita. “Não iria discutir com um personagem desses, um anônimo”, disse um secretário, sem conseguir dissimular a irritação. Ele teria recebido um empurrão do jornalista.

Certa vez, durante uma entrevista coletiva, Eugênio Bezerra tentou expulsar o fotógrafo Magnus Nascimento da sala porque ele resolveu registrar Micarla Sousa comendo um pedaço de bolo. O resultado foi mais uma vez o inverso: a foto, que nem estava programada para ser publicada, foi estampada com destaque na página do jornal e da internet. Depois, o jornalista reclamou no Orkut, dizendo que a imagem poderia fragilizar a instituição. “Os paparazzi foram responsáveis pela morte de uma princesa”, escreveu.

De origem humilde, vendia bolo da feira

Eugênio é natural de Macau e veio morar em Natal com dois anos de idade. De origem humilde, filho de uma costureira e de um motorista de ônibus, sempre estudou em escola pública. “Meu pai me obrigava a vender bolo na feira e eu fugia para ir à escola”. Tem quatro irmãos, dois deles empregados na GG Tech, que presta serviços à prefeitura. Um dos irmãos foi morto por traficantes há três anos.

Seu primeiro emprego foi aos 14 anos, quando assessorou um vereador de quem não lembra o nome. Nessa idade, sucedeu o ex-vereador Salatiel de Souza na presidência do Grêmio Estudantil Presidente Café Filho da Escola Estadual Winston Churchill, de onde saiu para cursar Edificações na então Etfern (hoje IFRN). Passou no primeiro vestibular para Comunicação Social da UFRN.

Foi “descoberto” pelo produtor da banda Inácio Toca Trumpete enquanto se apresentava no coral da universidade e passou a conciliar o trabalho na TV, a banda – que teve sucesso na cidade e chegou a gravar CD e DVD – e a vida acadêmica. “Ele se sentia muito à vontade no palco. O assédio era geral”, lembra a cantora Karol Pozadski, que dividia o microfone com ele na banda.

Nessa época, mal aparecia nas aulas. “Não lembro destaque em nenhuma disciplina, mas ele se aplicava bastante nas de produção de texto – acho que era porque os melhores eram lidos em voz alta. Era inteligente, mas se achava genial demais para ter que estudar”, comenta um colega de faculdade.

Saiu da banda depois de três anos, mas nunca deixou de cantar em bares e festas que costuma promover na cidade, além de eventos da própria prefeitura. Recentemente formou “A banda do Eugênio” e planeja se apresentar no Carnaval.

Na TV, identificação com Micarla

Foi na TV Ponta Negra, que pertence à família de Micarla de Sousa e onde ela mantinha um programa de debates, que o jornalista conheceu a futura prefeita. A identificação dos dois foi imediata. Para alguns, a borboleta viu em Eugênio a imagem perfeita do pajem que sempre quis ter. Para o jornalista, ela conseguiu “enxergar que havia uma inquietude muito grande e que era um bom profissional”. A fama de truculento, arrogante e briguento se espalhou mais ou menos no ritmo em que Micarla de Sousa galgava as escadas do poder.

Ele foi demitido da TV três vezes, e duas vezes voltou (dizem) pelas mãos da borboleta. Certo dia, Eugênio se negou a fazer uma matéria já no fim do expediente, discutiu com o chefe e chegou a agredi-lo fisicamente, de acordo com testemunhas, e chamá-lo para a briga fora do prédio, segundo ele mesmo. “Ele sempre foi muito difícil. Tinha algumas inseguranças em relação aos outros. Com medo que passassem na frente dele, passava por cima se fosse necessário”, atesta um funcionário da época. Outro colega disse que ele era considerado um repórter criativo, versátil e rápido, mas que “se achava melhor do que todo mundo”.

Depois de sua última demissão, em 2003, novamente por briga, resolveu que era hora de fazer uma especialização, tatuou um escorpião, seu signo, para inaugurar a nova fase e se mandou para o Rio de Janeiro. Não concluiu o curso de Comunicação e Imagem da PUC, como costuma dizer. Fez quatro disciplinas e trancou, deixando para trás várias mensalidades, que hoje custam R$ 498, em aberto. Ele também exagera ao afirmar que ocupou um cargo de direção na CNT do Rio, o que foi negado por uma jornalista antiga de lá. “Talvez ele tenha tirado férias de alguém por um mês”. A sua passagem pela Band, como repórter da madrugada, não marcou a chefe de jornalismo da Band, Alessandra Martins. “Para trabalhar nesse horário, deve-se ter um perfil específico, não pode se intimidar com a violência. Acho que ele era um repórter correto”.

Voltou do Rio de Janeiro em 2005 a convite da prefeita Micarla de Sousa e desde então a segue com devoção quase religiosa.  “Abri mão de mim para ajudar uma pessoa que acredito. Não trabalharia para nenhum outro político na minha vida”, confessou.

Uma tarde com o assessor

A reportagem acompanhou uma tarde de trabalho de Eugênio no gabinete da prefeita.  Às 14h30, de bloquinho e lápis na mão, ele deixou a saleta que divide com mais duas funcionárias para almoçar com Micarla de Sousa no salão nobre do Palácio Felipe Camarão. Visivelmente desconfortável, deixou quase metade do peixe com legumes e arroz ao curry. “É esquisito ser fotografado comendo”. Eugênio estava elegante na camisa listrada azul de gola branca Vila Romana, sapato Zara, calça jeans Calvin Klein e relógio Diesel. Entre uma garfada e outra, anotava as determinações – relacionadas principalmente à agenda – da prefeita, que se prepara para entrar de férias. Não pronunciou palavra.

Depois, de volta à saleta, falou sem parar por duas horas, riu muito, brincou com as colegas atendentes, pegou cadeira para o fotógrafo e atendeu vários telefonemas. Entrou e saiu da sala da prefeita várias vezes –não autorizou a reportagem a segui-lo – e era o único funcionário a fazê-lo. Disse que se sentia capaz de recomeçar caso o projeto político de Micarla de Sousa não vingasse e que não se arrependia de nada do passado. “Faria tudo outra vez”.

Poucas horas antes, escrevera na primeira postagem do dia em seu blog. “Vou avisando. Não adianta ameaçar, xingar, dar indiretas, insinuar ou tentar me intimidar. Isso só me estimula a continuar.”

A pedido do Novo Jornal, um amigo, no caso a jornalista Adriana Keller, e um desafeto, o jornalista Alisson Almeida, escreveram sobre Eugênio Bezerra:

No Capítulo XXIII de “O Príncipe”, Maquiavel aconselha os governantes a se afastarem dos aduladores, “dos quais as cortes estão repletas”. “Não há outro meio de guardar-se da adulação, a não ser fazendo com que os homens entendam que não te ofendem dizendo a verdade; mas, quando todos podem dizer-te a verdade, passam a faltar-te com a reverência”, escreve. Eugênio Bezerra é um desses aduladores a quem Maquiavel chama de “peste”. Assessor mais próximo da prefeita Micarla de Sousa, usa do inabalável prestígio que desfruta para perseguir quem atravessa seu caminho, como fez recentemente ao ameaçar revelar “babados fortes” sobre jornalistas que questionaram os gastos exorbitantes do município com o show do padre Fábio de Melo. Em julho do ano passado, ao participar de uma discussão num fórum do Orkut, o secretário especial da prefeita tentou justificar seu super salário atacando os servidores públicos, a quem chamou de potenciais ladrões. Com a divulgação da declaração irresponsável, reagiu da única forma que conhece – com mais ameaças e truculência. Para EB, quem ousa criticar a administração municipal é imediatamente convertido em inimigo público. A única lei que esse rapaz conhece é a da subserviência.

Jornalista Alisson Almeida

“Eugênio Bezerra é o tal.
O cara que segura todas as ondas, desde uma bronca daquelas sem solução aparente, até simplesmente a mão do aflito. Ele é presente.
Eugênio é um ser apaixonado, que por optar em fazer todas as coisas da sua vida com uma grande colherada de paixão, por vezes acaba por se perder na emoção. Antes assim. Vivo, pulsante e, sobretudo amigo. Já o vi vibrar e já o vi sofrer, mas sempre fazendo a roda girar, sempre movimentando e distribuindo energia gratuita para outros que adoram viver de “gato”.
Impulsivo, emocional, arrogante… Humm! Também é. Temperamental e amoroso como um bom escorpião e como um simples ser humano cheio de qualidades e defeitos.

Eugênio é um grande amigo, um presente que ganhei o qual amo e confio como poucos que encontramos no decorrer da vida. Para mim, ele é necessário. Mas isso interessa pra alguém?”

Jornalista Adriana Keller

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10 opiniões sobre “O Pitbull de Micarla

  1. wania ferreira em disse:

    Eugenio Não é esse monstro que falam, trabalhei no Sistema Ponta Negra de Comunicação e nunca ouvi ninguém falar mau dele.
    Pra mim ele é gente boa!

  2. wania ferreira em disse:

    Trabalhei no Sistema Ponta Negra de Comunicação, e nunca vi Eugenio brigar com Ninguém por lá, tbm nunca ouvi dizer, pra mim ele é gente boa , não tenho nada de negativo a declarar dele como pessoa.

  3. Ele é muito é nojento!

  4. Jovem em disse:

    Concordo plenamente com Maria Cecília, uma capa pra um cidadão desses? Ele deve ser um novo cliente candidato da agencia do dono do jornal.

  5. Emanoel em disse:

    Ei cara!! tu ganha bem nhem…será que o trabalho é árduo??.

  6. ENQUANTO A PREFEITURA É PALCO DESSE ESPETÁCULO SEM GRAÇA DE PICUINHAS E DISSE ME DISSE, A CIDADE AFUNDA, NÃO ADIANTA FICAR NERVOZINHO, A MAIORIA DA POPULAÇÃO DESAPROVA A ADMINISTRAÇÃO ATUAL E PONTO. ARTISTAS NÃO RECEBEM SEUS CACHÊS, OS VALES TRANSPORTES DOS SERVIDORES NÃO FORAM PAGOS, O PRONTO SOCORRO DE SATÉLITE NÃO TEM UMA ÚNICA CADEIRA COM AS QUATRO PERNAS (DIGO PORQUE VI), AS RUAS MAIS ESBURACADAS DO QUE NUNCA… ISSO É QUE É BABADO FORTE!

  7. Alysson, embora sua opinião tenha sido destacada, eu achei a reportagem do “Novo(?) Jornal” muito ruim, apenas passou manteiga.

    Todos nós sabemos de que lado eles estão e o que eles defendem. E podem ter certeza que essa gang midiática corrobora com todos os devaneios do pitbull da borboleta.

  8. Maria Cecília em disse:

    É muita falta de pauta desse jornal…
    É muita falta do que fazer desse Eugênio…

  9. Daniel Dantas em disse:

    Eugênio eh o tal: uma analise do discurso revela q Adriana concorda com Alisson.

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