Embolando Palavras

A direita vence no Chile

Após 20 anos a direita volta ao poder no Chile. O bilionário Sebastian Piñera derrotou o governista Eduardo Frei nas eleições deste domingo (17) e se tornou o novo presidente do país, interrompendo duas décadas de domínio da esquerda. A frente social-democrata Concertação governava a república chilena desde a queda do ditador Augusto Pinochet, em 1990.

Piñera é o primeiro presidente de direita eleito democraticamente no Chile em 52 anos. Em 1958, o ex-presidente direitista Jorge Alessandri vencera o socialista Salvador Allende.

Mas o que ascenção da direita chilena pode significar para o resto da América Latina? A vitória de Piñera, além de encerrar um ciclo político em seu país, pode indicar que o continente ensaia uma onda reacionária com o retorno dos grupos conservadores. O desgaste da presidente Cristina Kirchner na Argentina e do presidente Hugo Chávez na Venezuela pode dar ainda mais ímpeto aos direitistas.

Para Eduardo Guimarães, presidente da ONG “Movimento dos Sem Mídia”, a direita chilena é a mais perigosa da América Latina. Por isso, considera que a volta da direita naquela faixa costeira encravada entre a cordilheira dos Andes e o oceano Pacífico é trágica para o continente, principamente agora que os conservadores colocam “as manguinhas de fora por toda parte”.

Uma matéria publicada em dezembro na revista Época revelou a ligação de Piñera com o antigo regime de Pinochet:

A biografia de Piñera se cruza com a história do regime ditatorial de Pinochet em vários momentos. Em 1973, poucos meses antes do golpe que derrubou o socialista Salvador Allende do poder, o jovem Piñera foi para os Estados Unidos, onde cursou mestrado e doutorado em economia pela Universidade Harvard. Casou-se em dezembro daquele ano com Cecília Morel. Três anos depois, regressou ao Chile, em plena ditadura. Usou o dinheiro que recebera do governo boliviano por uma consultoria financeira para abrir sua primeira empresa, a construtora Toltén. Seus negócios deram um salto em 1979, quando Piñera obteve do governo a licença para criar a Bancard, primeira administradora chilena de cartões de crédito – ele venderia a empresa ao Transbank por cerca de US$ 40 milhões em 1989. Apesar de seu pai, José Piñera Carvallo, ter sido um dos fundadores do Partido Democrata-Cristão, de esquerda, Piñera nunca concordou com as plataformas político-econômicas da legenda, que considerava atrasadas.

Piñera tentou se desvincular da imagem de empresário ligado ao regime militar ao declarar publicamente, em 1988, seu voto pelo “Não” no plebiscito convocado por Pinochet para que o povo decidisse se ele poderia concorrer às eleições dali a dois anos. Com a derrota de Pinochet, a direita apresentou como candidato Hernán Büchi. Piñera tornou-se seu chefe de campanha. A candidatura foi derrotada pela Concertação, mas Piñera elegeu-se senador pelo partido Renovação Nacional, que ficou com parte do espólio político de Pinochet. Em sua coalizão, Piñera está rodeado de ex-pinochetistas. Um exemplo é o presidente do Senado, Jovino Novoa, da direitista União Democrata Independente. Novoa foi subsecretário-geral de governo de Pinochet entre 1979 e 1982, um dos períodos mais brutais da repressão.

Em outro trecho a reportagem registra a promessa de Piñera de respeitar os direitos humanos, ao mesmo tempo em que diz que “não vai exacerbar as divisões do passado”, numa referência ao período da ditadura de Augusto Pinochet. Piñera teria se comprometido com ex-militares a não “eternizar” os julgamentos por violação de direitos humanos – qualquer relação com o posicionamento contrário dos direitistas brasileiros ao Programa Nacional de Direitos Humanos não é mera coincidência.

A pergunta que se faz agora é a seguinte: será que o fantasma da direita terá forças para retomar o poder aqui no Brasil? O candidato dos conservadores brasileiros, o governador tucano de São Paulo José Serra, é favorito para vencer as eleições de outubro, segundo todas as pesquisas de opinião até então divulgadas. As chances da direita tupiniquim – representada pelo PSDB e pelo DEM – são enormes.

No Chile, a presidente Michele Bachelet não conseguiu transferir seus 80% de aprovação para o candidato da sua coligação. No Brasil, Lula conta com popularidade recorde, mas sua escolhida para sucedê-lo no cargo, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), ainda patina nas pesquisas de intenção de voto. O prestígio de Lula será suficiente para eleger Dilma? Ninguém ousa arriscar um palpite.

Anúncios

Navegação de Post Único

Uma opinião sobre “A direita vence no Chile

  1. Leda em disse:

    Dizer que o Serra é de direita é má-fé… e dizer que o Lula é de esquerda, é brincadeira. É só ver as ligações dele com Collor, Sarney, ACM, e, se bobear, até o Maluf será bem recebido! Além disso, nunca houve neste país governo mais corrupto, né não?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s