Embolando Palavras

Diário da América Latina

Gustavo Barbosa, amigo e colaborador do blog, envia artigo sobre suas andanças pela América Latina. Leia, a seguir, a narrativa apaixonada de um rapaz latino-americano pelo seu continente:

Um janeiro histórico nos Andes

A América Latina é um continente fantástico, seja em virtude das suas inúmeras belezas naturais ou da fascinante cultura dos mais diversos povos que nela vivem – em especial os de origem indígena, legítimos latino-americanos que perfazem naco indelével da formação antropológica dos seus habitantes. No último mês, tive a oportunidade de viajar por três países deste fabuloso continente: Peru, Bolívia e Chile. Neles, pude comprovar o caleidoscópico cultural que caracteriza os povos indígenas – em especial no Peru e na Bolívia – bem como tive a oportunidade de, atônito, deparar-me com maravilhas do porte de Machu Picchu (Peru), do Lago Titicaca (Bolívia) e do deserto do Atacama (Chile). Belezas que compõem o vasto acervo de cartões postais que tão bem alçam estas regiões à condição de destinos que figuram entre os mais procurados do planeta, não apenas por suas qualidades estéticas, mas pelos valores históricos e culturais que carregam.

A par dos pontos turísticos famosos que eu e meus acompanhantes de mochila pudemos conhecer e da riquíssima cultura indígena que não apenas observamos como forasteiros, mas também como participantes – como em Ollantaytambo (Peru), onde tivemos a oportunidade de fazer parte de festividades tradicionais dos povos indígenas da região -, presenciamos também acontecimentos políticos importantes que certamente figurarão nos relatos históricos do nosso continente. Abstraindo-se de qualquer juízo de valor ideológico, tivemos sorte ao nos ver presentes em cada um destes países nos exatos momentos em que capítulos da história se iniciavam com portentosas capitulares, sentindo de perto o início e a continuação de novos tempos através de manifestações populares engendradas em função de dados acontecimentos que, certamente, influenciarão os futuros meandros políticos da América Latina.

Em Arequipa, Peru, ficamos surpresos ao nos deparamos com a edição do dia do diário La Republica em uma de suas bancas. Nele, a manchete em letras garrafais anunciava o final de um entrevero que se iniciara há quase 20 anos: o ex-presidente do Peru, Alberto Fujimori, fora condenado a 25 anos de prisão por violações aos direitos humanos consubstanciadas em duas chacinas ocorridas em 1991 e 1992, nas quais 25 pessoas foram assassinadas por agentes do governo, incluindo 9 estudantes e um professor de esquerda contrários politicamente ao então presidente, sequestrados e executados por seus subordinados. Ainda depois do noticiado, fora possível notar fortes resquícios de uma sólida simpatia dos peruanos ao ex-presidente, sem embargo das acusações contra ele feitas e até mesmo de sua condenação.

Ao iniciarmos nossa passagem pelo Chile por Arica, cidade situada ao norte do país, após passarmos por solo boliviano, jamais imaginávamos que, ao pisar na terra de Neruda, ficaríamos exatamente em meio ao característico furor eleitoral ínsito aos derradeiros e dramáticos momentos de segundos turnos presidenciais. O pleito se deu entre Eduardo Frei – candidato da popularíssima presidente Michele Bachelet e cuja plataforma se fundava na continuidade da coalizão político-administrativa de centro-esquerda que governa o Chile desde a deposição de Pinochet – e entre Sebastian Piñera, candidato oposicionista, conservador, empresário bem sucedido que fez riqueza durante a ditadura chilena e, ainda hoje, mantém fortes laços com os remanescentes políticos do regime. “Súmate al cambio”, fora o slogan de sua campanha, mostrando que o eficaz discurso da mudança, responsável pelas mais simbólicas eleições da década, tais quais as de Lula, Evo, Kirchner e Obama, também soa palatável para o eleitor, em que pese se figurar como uma amarga e não tão sutil idiossincrasia quando adotada pela direita.

A façanha de vencer uma eleição adotando um discurso de mudança contra um governo de altíssima aprovação denota um pouco os devastadores efeitos que este discurso costuma ter, deixando claro seu potencial retórico em detrimento de seu substancial sentido. Piñera levou de forma plena e legítima, segundo as regras do regime democrático, sem margens para esperneios pós-eleitorais e descabidas evocações do chamado “tapetão”. Provavelmente também levará ao poder consigo nomes de sua coalizão de campanha, formada em boa parte por ex-pinochetistas, como o presidente do Senado, Jovino Novoa, membro da União Democrata Independente. Novoa foi subsecretário-geral de governo de Pinochet entre 1979 e 1982.

Não é a simples eleição de Piñera que dá relevo ao acontecimento. A quebra do longo período em que o grupo de Bachelet esteve no poder e as potenciais chances de estar se iniciando um novo ciclo na América Latina, a começar pelo Chile, é que dão relevância à derrota de Frei, servindo também com uma espécie de alvissareiro prenúncio para as forças conservadoras do todo o continente, imperantes na década de 90, discretas neste início de século.

Na volta para a Bolívia, fomos para Tiwuanaku, a 70 km de La Paz, para sentirmos de forma definitiva o prazer de sermos simultâneos telespectadores da história. Lá aconteceria a posse de Evo Morales, reeleito com mais de 60% dos votos. A solenidade seria de acordo com os costumes e a tradição indígena, visto que a maior parte da população boliviana é formada por descendentes dos povos Quecchua, Aymara e demais que formam o grosso da sociedade boliviana.

Evo, o primeiro presidente de origem indígena da América, discursou inicialmente em aymara, língua ainda falada pela maioria dos bolivianos, depois passando para o espanhol. Juntas, dão aos bolivianos o status de povo preponderantemente bilíngüe. Discursou para um público formado não apenas de bolivianos, mas de pessoas de todo o planeta que resolveram aproveitar a turística estada em solo andino para prestigiar aquela legítima manifestação popular protagonizada por aqueles cujos elos com a terra são de fato e de direito e cujas origens se albergam de forma categórica ao patrimônio do país tão quanto as belíssimas montanhas andinas e o majestoso lago Titicaca; aqueles que compõem o cerne originário de seu povo, que lá habitaram antes da chegada do colonizador e que com suas vidas construíram esta terra onde um dia lutou Simon Bolívar. Trata-se dos descendentes dos índios, cujos povos estão agora reconhecidos e discriminados na constituição do recém-intitulado Estado Plurinacional da Bolívia. A posse de Evo dá continuidade a um novo momento iniciado ainda em 2006, momento histórico que, como os acima narrados, tivemos o privilégio de ver, sentir e participar.

Como uma espécie de bônus às belezas naturais, as surpresas acima relatadas temperaram nossa peregrinação pelos sagrados Andes, nos conferindo a dádiva de observadores diretos dos aludidos eventos, sem intermediadores midiáticos ou jornalísticos. Erigir-nos à condição de participantes foi, sem dúvida, uma pretensão descabida, visto que não participamos do sufrágio chileno, boliviano e tampouco das vitórias ou derrotas eleitorais de Fujimori, hoje um cadáver político já sepultado. Todavia, ter estado nos respectivos epicentros da mudança – que, se boas ou más, resta somente ao futuro ratificar -, deu um novo e diferente gosto à nossa breve passagem por estes países latinos; um gosto político, peculiar, diferente, inesperado e agradabilíssimo, paralelo às maravilhas da natureza e à interação com os nativos, concedendo à nossa um venturoso elemento a mais que, certamente, não se repetirá novamente em qualquer outra viagem de nossas vidas.

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