Embolando Palavras

Sobre a imprensa e os bajuladores

Por Gustavo Barbosa, colaborador do blog

 

“Repete a sabedoria popular que o mundo é dos intrépidos ou dos apurados na agilidade do salto. Poderemos sentenciar que também é dos medíocres. Porque, com efeito, são estes os que contam com as melhores probabilidades de vencer, visto como, hábeis na insinuação, na submissão e no agrado, não lhe é difícil rodear-se de quem os ampare na escalada das posições vantajosas. E sobem porque, cônscios da incapacidade e possuídos de ambição, exímios parecem na arte de conservar o sorriso, a cabeça baixa e a mão estendida.” Assim se inicia o artigo “Justiça, afinal”, escrito por Israel Nazareno e publicado no dia 14 de agosto de 1949 no extinto jornal “A República”, que também possuía Câmara Cascudo como colaborador.

Bajular é uma arte. Arte malsã de permutar o auto-respeito por benesses pessoais. Talvez seja também o caminho mais próximo para o êxito profissional. Não há dúvidas, entretanto, que é o mais indigno, cujas veredas se preenchem apenas por aqueles cuja pequenez constitui a maior e mais genuína qualidade de seus espíritos. Optar pelo sucesso indigno e amoral é, no fim das contas, uma opção particular, em especial daqueles para os quais os fins justificam os meios. Difícil de respeitar, é verdade, mas devemos observar os adeptos de tal escolha conforme aconselha Anatole France, citado por Lima Barreto em Os Bruzundangas: com ironia e piedade. O próprio Lima Barreto, por sinal, com a fina e genial acidez que o tornou o maior nome do nosso pré-modernismo, também dedicou em Triste fim de Policarpo Quaresma algumas cáusticas linhas à bajulação quando discorre sobre o personagem Genelício, intocável caricatura do capachão escatológico e nonsense: “moço, menos de trinta anos, ameaçava ter um grande futuro. Não havia ninguém mais bajulador e submisso do que ele. Nenhum pudor, nenhuma vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que podia.” Um fiel retrato do puxassaquismo, universalmente onipresente além de sempre carregado da irrelevância ínsita aos que o exercitam – a menos que, naturalmente, influa de alguma forma nos interesses da coletividade, o que ocorre quando se materializa através dos meios de comunicação somado ao envolvimento político de cargos e interesses públicos, como há de se tratar a seguir.

A bajulação em solos potiguares possui suas idiossincrasias, principalmente em se tratando da relação entre a imprensa e os atores políticos locais. Em completa consonância com o feudalóide viés coronelista que ainda permeia nossa classe política, o apadrinhamento e o clientelismo ainda são a motriz da nossa comunicação social. Em troca de favores e benefícios materiais como cargos, sinecuras, verbas publicitárias e algum prestígio – note-se que aqui o prestígio nasce, vejam vocês, da adulação e do bobo-cortismo voluntário – um exército de bajuladores coloca-se a postos para derramar oceânicos litros de saliva nos testículos de seus patrões senadores, deputados, governadores, prefeitos e vereadores, prontos para alienar sua consciência, liberdade e dignidade sem qualquer parcimônia, tudo em prol do mais abjeto servilismo.

Com o advento dos blogs e sua conseqüente popularização, houve uma proliferação maciça de blogueiros e colunistas que, mestres no ofício de lamber botas e destruir as biografias dos adversários de seus senhores, conseguiram galgar a notoriedade que almejavam. No entanto, a democratização da informação – em grande parte oriunda da própria blogosfera – da mesma forma garantiu o contraponto a essa desvairada vassalagem virtual com a insurgência de nomes independentes que não hesitaram em escancarar as vísceras do puxassaquismo em rede.

Mas se a democratização da informação proporcionada pela internet concebeu ferramentas para neutralizar um pouco as hostes de blogueiros acólitos, a mesma paridade de armas não existe nas mídias impressa e televisa, a começar por esta última, que conta com o aval do Estado. Concessões públicas de rádio e TV são deliberadamente utilizadas como veículos de promoção pessoal de grupos políticos, estando as três maiores redes televisivas locais comprometidas com interesses puramente partidários. A mídia impressa, então, possui igualmente um vínculo muito mais que umbilical com interesses escusos e anti-republicanos, visto que o abuso de poder econômico com vistas a favorecer pessoal e politicamente determinados indivíduos por meio de veículos de comunicação fere de morte dois dos maiores sustentáculos do Estado Democrático de Direito: a garantia de isonomia entre os cidadãos e a existência de uma imprensa realmente fiscalizadora e investigativa, preocupada com a real apuração da verdade factual bem como com a defesa do interesse público, não com sandices, rinhas e picuinhas políticas senis e provincianas existentes entre a clientelista e atrasada classe política norterriograndense.

Ao final, pode-se achar que bajular é ofício dos mais fáceis. Ledo engano. Submeter-se cabisbaixamente aos desígnios megalomaníacos dos tubarões locais exige uma constante violação moral para aqueles nos quais ainda remanesce alguma dignidade. Para os completamente amorais, também não é função das menos ardorosas, pois a eles resta a instabilidade ocasionada pela efemeridade com que seus senhores permanecem no poder. Uma vez derrotados nas urnas, perde o inveterado serviçal seu eventual cargo comissionado, sua assessoria e a publicidade governamental em seu blog ou jornal é cessada, secando por completo a fonte estatal que oxigenava sua submissão. Inicia-se, então, um novo périplo por um novo patronato, escamoteando de vez a já escassa e solapada dignidade que lhe resta.

Diante das escassas oportunidades que nossa terra proporciona ao desenvolvimento de um jornalismo independente que, antes sirva de manutenção do status quo, confronte-o, resta aos diletantes e vocacionados sobreviverem às duras penas, esforçando-se para ganhar seu pão sem alijar suas convicções e sem sucumbir diante da promiscuidade oportunista e vendilhona que melhor caracteriza as relações de poder entre imprensa e políticos no Rio Grande do Norte. São esses comunicadores os verdadeiros heróis da resistência, verdadeiras ameaças às hordas de parasitas aduladores que os cercam e ao senhorio político a que tão caninamente servem.

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3 opiniões sobre “Sobre a imprensa e os bajuladores

  1. Allyson em disse:

    Sou maranhense e vivo em Brasília, essa relação entre a imprensa e os atores políticos locais, não é muito diferente. A premissa enoja, mas é possível reconhecer alguns cafetões / garotos e garotas de programa

  2. Pingback: Substantivo Plural » Blog Archive » Sobre a imprensa e os bajuladores

  3. Arimater em disse:

    Lendo esta postagem, por muitas vezes vi o que jugo, nomes e caras que compõem em sua maior totalidade a imprensa potiguar, porque não dizer a imprensa brasileira. Em alguns momentos do texto viajei identificando cada nome e cada veículo ou senhor a que serve, mais o pior da minha sana consciência estava por vir: Tomando como premissa que Prostituir é o ato de trocar sua dignidade por algum tipo de vantagem, bajular não seria um ato de se prostituir?
    Se a premissa for verdadeira, só teremos a lamentar por esses lobos que salivam diante de um pseudo poder arquitetado no interior do perímetro de suas fortalezas tão bem arquitetadas quanto castelos de areia recém construídos a beira de uma maré que está preste a encher.
    E o que dizer aos senhores ao qual pagam por esses serviços? Talvez dissesse que assim como o amanhecer da lua de mel não tem o mesmo sabor do anoitecer anterior, cuida-te, pois teu servo pode amanhecer nos braços de outro, basta que sua principal fonte de poder seja menos vantajosa do que as cifras do vizinho.

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