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“Meu coração está aprendendo a ser leve”

Texto gostoso, pescado do blog da minha amiga Melina França, moça de sorriso fácil, coração grande e abraço acolhedor. Que nessas andanças por onde o coração levar você, não falte caminhos para trazê-la de volta — mesmo que não seja pra ficar.

De uma leveza que não tem tamanho

Meu coração está aprendendo a ser leve. A deixar ir. A deixar-se ir. Levar das experiências só boas lembranças. Apesar das lágrimas. Apesar do álcool. Apesar da música que repete sempre o mesmo refrão. Memórias de um tempo que – sentenciamos entre goles de vinho – não volta mais.

Ainda assim, acho que o bonito da vida são as intercessões. Os encontros casuais ou premeditados. As belezas que nem sempre se mostram. As pessoas que nos marcam com um sorriso, por mais que doa. As alegrias que nos invadem mesmo de longe. A felicidade que nos toma frente a um abraço.

“Eu te amo tanto que não conseguiria jamais cortar suas asas. Voa, meu bem, voa”. Era uma mãe para uma filha, um rapaz para uma moça, uma moça para um rapaz. Poderia ser qualquer um. E eram todos. Era preciso descobrir uma forma de amor que tivesse qualquer desprendimento.

Nem suspeitávamos, mas se era preciso aprender a amar, ser amado exigia a mesma devoção. Não sabia se, quando ele passasse para pegar o resto das coisas, ainda estaria por aqui. E apesar dos pesares, tudo terminou de um jeito quase tranquilo. Sem promessas. Mas se você me permite um só pedido, me prometa que vai ser feliz. Que vai se deixar ser feliz. Sem esse fardo, sem esse enlace, sem essa dor.

Olha, a gente só encontra nessa vida quem merece encontrar. Alguém me disse isso há muito tempo, e carreguei a frase como um mantra. Acho que a gente estava assim, meio premeditado, mas talvez não fosse a hora certa. Talvez tenha sido a minha distância. Ou a minha mania de ouvir a mesma música tantas vezes repetidas. Ou o fato de estar pensando mais em mim que em “nós”. Não, eu não soube conjugar. Você sabia disso antes daquela partida. Sabíamos, sim, e nos recusávamos a crer. Tudo antes parecia tão bonito. Não deixa de ser, somehow, mas já é tarde, hora de ir.

Meu coração está aprendendo a ser leve. E que me leve longe, coração.

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Azul

Pesquei esses versos no blog da Priscila (ExDuco). Não conheço o autor, mas a simplicidade, beleza e lirismo da sua poesia são tocantes:

Então pintei de azul os meus sapatos por não poder de azul pintar as ruas; depois vesti meus gestos insensatos e colori as minhas mãos e as tuas.” (Carlos Pena Filho)

A oração de Borges

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

Imortais

“A verdade é que vivemos adiando tudo o que é adiável; talvez todos nós saibamos no fundo que somos imortais e que, cedo ou tarde, todo homem fará todas as coisas e saberá tudo.”

“Era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intoleravelmente preciso.”

[Borges – Funes, o memorioso – Ficções]

A morte de Saramago

José Saramago morreu no dia 18 de junho, aos 87 anos em sua casa em Lanzarote, nas Ilhas Canárias. Um comunicado da Fundação Saramago informou que o escritor morreu acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila.

O apóstolo Paulo definiu a morte como a mais teimosa e iniludível manifestação da finitude humana. Saramago fantasiou que seria possível, quem sabe, frear o curso inexorável da vida para a morte. Mas, parafraseando uma das suas obras, a morte não faz intervalo e leva até os seres que parecem, em algum aspecto, encantados.

Apesar do luto, como disse um amigo historiador, que venha a vida e que se faça alegria, para que no fim, se aprenda a morrer um imortal.

Borges e a utopia

“Mas não falemos dos fatos. Os fatos já não têm importância para ninguém. São meros pontos de partida para o pensamento e a invenção. Nas escolas nos ensinam a dúvida e a arte do esquecimento. Antes de tudo o esquecimento de coisas pessoais e locais. Vivemos no tempo, que é sucessivo, mas procuramos viver sub specie aeternitatis.”

(Utopia de um homem que está cansado / O livro de areia)

A tentação segundo Clarice Lispector

A tentação do prazer. A tentação é comer direto na fonte. A tentação é comer direto na lei. E o castigo é não querer mais parar de comer, e comer-se a si próprio que sou matéria igualmente comível. E eu procurava a danação como uma alegria. Eu procurava o mais orgíaco de mim mesma. Eu nunca mais repousaria: eu havia roubado o cavalo de caçada de um rei da alegria. Eu era agora pior do que eu mesma!

(A Paixão Segundo G.H.)

Antes do abismo dos dias

Por Sheyla Azevedo no Bicho Esquisito:

 

Sinto-me entre vírgulas.
As noites estão mais curtas, é fato. Porém, os dias ficaram mais longos. Mas isso não é nenhuma reclamação óbvia. Não quero fazer reclamações óbvias. O óbvio não me distrái. No máximo dá preguiça.

Enquanto isso outras coisas orbitam entre minhas vírgulas:

ardência nos olhos
fome na metade do dia
sonhos no meio da noite
garganta seca, rinite, alergia
chulé de gato
pão caseiro
o choro por um fio
o risco de um arame no pé
nós em pingos d’água
mãos nômadas passeando pelo corpo no banho
esquecimentos
cor de batom
interrogações
a distância do ponto final

PS.: agora volto para o abismo, nem totalmente sã, nem salva.

Saramago: “Deus não é confiável”

Matéria do Caderno 2 do Estadão sobre o novo livro do escritor português José Saramago, “Caim”, em que narra o assassinato de Abel sob outra perspectiva. A obra, como outras do autor, já está causando polêmica antes mesmo do lançamento.

Leia trecho da reportagem:

 

Saramago ataca Deus outra vez

Em Caim, livro que lança em outubro, autor português questiona o catolicismo

 

saramago

 

Depois de padecer de uma grave enfermidade respiratória que quase lhe custou a vida, o escritor português José Saramago comprova ter recuperado o fôlego e a disposição para a polêmica. Em outubro, ele lança seu novo romance, Caim, em que redime o personagem bíblico do assassinato do irmão Abel e credita a Deus a autoria intelectual do crime, ao depreciar o sacrifício que Caim Lhe havia oferecido. “Deus não é confiável. Que diabo de Deus é esse que, para enaltecer Abel, despreza Caim?”, comentou Saramago, em entrevista divulgada ontem pela agência espanhola de notícias EFE.

O escritor respondeu às questões por e-mail da ilha de Lanzarote, onde encerra as férias de verão, preparando-se para voltar a Lisboa. Lá, no fim de outubro, o livro deverá ser lançado, segundo o editor português Zeferino Coelho, confirmando ainda que Caim vai ser apresentado antes na Feira Internacional do Livro de Frankfurt, que ocorre entre 14 e 18 do mesmo mês – depois, chegará também à Espanha e ao Brasil.

Ateu confesso, Saramago já havia provocado uma enorme polêmica com a comunidade católica ao lançar, em 1991, O Evangelho Segundo Jesus Cristo (editado no Brasil, assim como toda a obra do autor, pela Companhia das Letras). Ali, conta a história do filho de Deus sob uma ótica mais terrena, anticlerical, humanizando Cristo ao evidenciar seu caráter frágil e vulnerável, além de insinuar uma relação com Maria Madalena.

“O filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo”, diz um trecho do livro, que também ressalta o caráter punitivo de Deus: “Dizer um anjo que não é anjo de perdões, ou nada significa, ou significa demasiado, vamos por hipótese, que é anjo das condenações, é como se exclamasse Perdoar, eu, que ideia estúpida, eu não perdoo, castigo.”

A reação foi imediata e violenta. Em Portugal, o então subsecretário de Estado adjunto da Cultura, Sousa Lara, vetou o livro de uma lista de romances portugueses candidatos a um prêmio literário europeu. A medida foi apoiada pelo primeiro-ministro do momento, Aníbal Cavaco Silva, alegando que o escritor não representava o pensamento da maioria dos portugueses. Revoltado, Saramago decidiu deixar o país e se estabelecer em Lanzarote, onde ainda mantém residência fixa.

A fogueira voltou a arder em 1998, quando Saramago foi eleito pela Academia Sueca como vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. A decisão foi atacada pelo Vaticano, que condenou a oferenda a “um comunista com visão antirreligiosa do mundo”, segundo noticiou na época o diário oficial do Vaticano L?Osservatore Romano. O escritor retrucou no mesmo tom. “Em vez de opinar sobre literatura, tema sobre o qual não entende, o Vaticano deveria se preocupar com os esqueletos que tem guardados no armário”, comentou. “Só podia se esperar isso desta Igreja que em toda a História vem se metendo onde não é chamada e opinando sobre coisas que não tem capacidade de compreender.”

Apesar de retomar o mesmo estilo feroz e iconoclasta, Saramago não teme ser novamente crucificado ao lançar Caim. “Certamente haverá vozes contrárias, mas o espetáculo será menos interessante”, disse ele à EFE. “O Deus dos cristãos não é Jeová. Além disso, os católicos não leem o Antigo Testamento. Caso os judeus se manifestem, não serei surpreendido. Já estou habituado.”

Leia a matéria completa aqui.

 

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