Embolando Palavras

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Folha publica comentário preconceituoso contra nordestinos

Uma pequena matéria postada no site da Folha.com, sobre o desafio que o ex-presidente FHC fez ao seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva, convidando-o a disputar outra eleição contra ele, rendeu quase 1200 comentários. Em entrevista a um programa de rádio, FHC mandou o seguinte recado para Lula: “Ele se esquece que eu o derrotei duas vezes. Quem sabe ele queira uma terceira. Eu topo.

O devaneio de FHC, porém, tem pouca — para não dizer nenhuma — importância. O que despertou minha atenção e indignação foi o comentário de um leitor, identificado como Ivo Antonio, prontamente publicado pela Folha.com.

Eleitor declarado do tucano, Ivo se referiu aos nordestinos, em tom pejorativo, como aqueles que “tem (sic) como prato preferido farinha e de sobremesa rapadura” e completou afirmando que, se os moradores dessa região não pudessem votar, FHC derrotaria Lula.

SE OS QUE TEM COMO PRATO PREFERIDO FARINHA E DE SOBREMESA RAPADURA. NAO PODER VOTAR. E CONTAR MENTIRA.(onde o molusco e imbativel) ABRO APOSTO E DOU 2 POR 1 A FAVOR DO FHC“, escreveu o leitor, que, como se vê, não domina bem as normas gramaticais.

O comentário reflete o velho preconceito que vigora em camadas do Sul e do Sudeste do Brasil contra os habitantes do Norte e do Nordeste. Ele não citou os nordestinos, mas ao mencionar a farinha e a rapadura, dois ingredientes muito usados na culinária regional, deixou explícito a quem estava se referindo.

Particularmente, não considero ofensa ser chamado de comedor de farinha ou de rapadura. Tenho orgulho da minha condição de nordestino, da herança cultural dessa terra e da capacidade de resistência desse povo historicamente esquecido. Não custa lembrar as sábias palavras de Euclides da Cunha, segundo quem “O sertanejo é, antes de tudo, um forte“.

Mas o comentário do leitor da Folha.com nada tem a ver com o reconhecimento da riqueza cultural dos nordestinos — o que inclui os elementos da nossa culinária, com seus cheiros e sabores apreciados por gente do mundo inteiro. Ele destilou preconceito em cada palavra. É o típico pensamento de setores do Sul e do Sudeste que se julgam superiores aos habitantes das demais regiões do país.

Na eleição de 2010, esse pensamento aflorou com força. Inconformados com a derrota de José Serra (PSDB), os conservadores propagaram a falsa tese de que Dilma Rousseff (PT) só teria sido eleita em função dos votos do Norte e do Nordeste. Mas um levantamento com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelou que a petista derrotaria o tucano mesmo se fossem computados apenas os votos do Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

A xenofobia da elite e da classe média burguesa do Sul e do Sudeste contra os nordestinos não é novidade. Em São Paulo, há um movimento batizado de “SP para Paulistas” que, em manisfesto na internet, defende, entre outros pontos, limites à migração nordestina.

Uma das integrantes do movimento, a estudante de Direito Mayara Petrusco declarou no Twitter, logo após a vitória de Dilma, que “nordestino não é gente, faça um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado“. A declaração lhe rendeu  uma denúncia junto ao Ministério Público Federal, apresentada pela Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional de Pernambuco (OAB-PE). Para a entidade, o ato configurava os crimes de racismo e de incitação pública à pratica delituosa, no caso, homicídio.

Outra integrante do movimento, a atendente de suporte técnico Fabiana Pereira, 35 anos, afirmou que “São Paulo sustenta o Bolsa Família”, o que, em sua opinião, contribui para atrair nordestinos para a cidade. “São Paulo sustenta e eles (nordestinos) decidem quem vai nos governar”, declarou a jovem, em entrevista à Terra Magazine.

O próprio José Serra, quando era governador de São Paulo, em entrevista ao SP TV da Rede Globo, chegou a culpar os migrantes nordestinos pela baixa qualidade de ensino em seu Estado.

É lamentável que isso ainda ocorra no Brasil. É igualmente lamentável que políticos utilizem deste artifício para conquistar votos. Mas é ainda mais triste que veículos como a Folha abram espaço para esses xenófobos exalarem seu preconceito.

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Rodrigo Vianna: “FHC quer o subtucanismo sem povo”

Do Escrevinhador

Em algum momento, lá pelo fim do segundo mandato de Lula, quando o presidente operário bateu em níveis inacreditáveis de popularidade, FHC foi tomado pelo pânico. Escreveu, então, um artigo (acho que no “Estadão”) qualificando o lulismo de “subperonismo”.

Quem conhece a Argentina e o Brasil sabe que no país vizinho Perón é uma presença ainda hoje dominante na política. Curioso: os argentinos desmontaram o Estado criado por Perón (e o autor do desmonte foi, esse sim, um subperonista – Carlos Menem, homem de costeletas largas e pensamentos curtos), mas o peronismo persiste como referência quase mítica no discurso político.

Nós, brasileiros, somos mais pragmáticos. Aqui, Vargas praticamente sumiu do imaginário popular. Mas sobrevive no Estado brasileiro – que FHC tentou desmontar. Vocês se lembram? Em 94, pouco antes de assumir a presidência, o tucano disse que uma das tarefas no Brasil era “enterrar a era Vargas”. Não conseguiu. Vargas sobrevive no BNDES, na Previdência Social, no salário-mínimo, na Petrobrás, nos sindicatos. O Brasil moderno foi construído sobre os alicerces deixados por Vargas. FHC gostaria de tê-los dinamitado.

Agora, o ex-presidente tucano reaparece. Não para tentar desqualificar o lulismo. Mas para lançar um alerta. Ele teme que as “oposições” se percam ”no burburinho [êpa, cuidado Stanley!!!] das maledicências diárias sem chegar aos ouvidos do povo“…. E pede que os tucanos deixem pra lá essa história de falar com o povão, e concentrem-se nas classes médias.

Literalmente, em artigo que acaba de ser publicado, o ex-presidente afirma:

“Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os “movimentos sociais” ou o “povão”, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos. Isto porque o governo “aparelhou”, cooptou com benesses e recursos as principais centrais sindicais e os movimentos organizados da sociedade civil e dispõe de mecanismos de concessão de benesses às massas carentes mais eficazes do que a palavra dos oposicionistas, além da influência que exerce na mídia com as verbas publicitárias.”

FHC lança, assim, as bases do “subtucanismo”.

Em algum momento, quando ainda estava no poder, ele havia dito: “esqueçam o que escrevi”. Agora, escreve: “esqueçam o povão”.

Mas o subtucanismo de FHC não deve ser desprezado. Ele parte de uma constatação real, concreta. A de que a oposição (que se refugiou no discurso moralista da classe média) pode perder também esse quinhão. O ex-presidente e ex-sociólogo afirma que a tarefa da oposição é de uma “complexidade crescente a partir dos primeiros passos do governo Dilma que, com estilo até agora contrastante com o do antecessor, pode envolver parte das classes médias.”

Aqui nesse blog, ainda nas primeiras semanas de governo Dilma, escrevi um pequeno texto, intitulado “PT rumo ao centro e oposição na UTI”. Duvido que FHC tenha se rebaixado, e lido o subjornalismo que aqui praticamos. Mas, curiosamente, era mais ou menos isso que eu afirmava naquele post:

É um movimento claro: Lula já ocupara a esquerda e a centro-esquerda; agora, o projeto petista expande-se alguns graus mais – rumo ao centro! Isso sufoca a direita e a oposição.

Minha subanálise, baseada em subobservações dos primeiros movimentos de Dilma, avançava um pouco mais:

Lula e Dilma jogam de tabelinha. Ele mantém apoio forte entre a “esquerda tradicional”, e também entre sindicalistas e movimentos sociais, além do povão deserdado que vê em Lula um novo “pai dos pobres”. Ela joga para a classe média urbana e pragmática que – em parte – preferiu Marina no primeiro turno de 2010. Dilma, com essas ações, deixa muita gente confusa e irritada na esquerda. Mas reconheça-se: é estratégia inteligente.

O discurso de Aécio

A grande mídia deu amplíssima cobertura — elogiosa, registre-se — ao discurso do senador Aécio Neves (PSDB-MG), ontem, numa sessão que durou quase cinco horas. O neto de Tancredo Neves marcou posição como líder da oposição.

No plenário do Senado, o ex-governador tucano de SP, José Serra, duas vezes derrotado pelo PT, tentou disputar as atenções com o colega mineiro, mas acabou relegado ao lugar de coadjuvante.

Como disse Paulo Henrique Amorim, Aécio “fez um discurso de neoliberal diet“. Ao contrário do que cantou o PIG, o ex-governador mineiro não apresentou nenhuma proposta para um novo projeto de país. Trocou o “choque de gestão” pelo “choque de realidade”, inventou a roda ao dizer que a função da oposição “é se opor”, como não pensei nisso antes?, e, como era previsível, atacou o PT, Lula e Dilma.

O discurso representou, na prática, o lançamento da candidatura de Aécio Neves à sucessão presidencial de 2014. Alguém duvida que a imprensa conservadora já escolheu seu candidato?

Datafolha: “Dilma é aprovada por 47% dos brasileiros”

Da Folha.com:

Pesquisa Datafolha mostra que a presidente Dilma Rousseff é aprovada por 47% dos brasileiros, segundo reportagem de Fernando Rodrigues, publicada na edição deste domingo da Folha.

Com essa taxa de popularidade, Dilma iguala-se ao recorde registrado por Luiz Inácio Lula da Silva nesta mesma época no segundo mandato do antecessor da atual ocupante do Palácio do Planalto.

Ou seja, Dilma com seus 47% hoje se iguala tecnicamente com os 48% de Lula em 2007, já que a margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

Lula teve 43% de aprovação no terceiro mês de seu primeiro mandato, em março de 2003. Depois, bateu um recorde de aprovação presidencial em início de governo, em março de 2007, atingindo a marca de 48%.

Segundo o Datafolha, Dilma supera em popularidade todos os antecessores de Lula, quando se considera esta fase inicial do mandato.

O instituto faz pesquisas nacionais desde 1990. Em junho daquele ano (a posse então era em março), Fernando Collor tinha 36% de aprovação. Itamar Franco, que assumiu depois do processo de impeachment de Collor, marcou 34% depois de três meses no cargo. Fernando Henrique Cardoso, eleito em 1994 e reeleito em 1998, teve aprovação no início de seus governos de 39% e 21%, respectivamente.

Na pesquisa divulgada hoje, o Datafolha registra 7% que consideram a gestão de Dilma “ruim” ou “péssima”. Outros 34% a classificam como “regular”. Há também 12% que não souberam opinar.

O instituto entrevistou 3.767 pessoas em 179 municípios nos dias 15 e 16 deste mês.

Wikileaks e as eleições de 2010: as vísceras do jornalismo do PIG

Com informações dos blogs Gonzum e Maria Frô

Documentos vazados pelo Wikileaks, sobre as eleições 2010, revelaram que o então candidato tucano José Serra apostava suas fichas em Marina Silva (PV) para ser sua vice e ajudá-lo a derrotar Dilma Rousseff (PT). A informação foi repassada ao cônsul americano pelo colunista da Veja, Diogo Mainardi, que lhe contou sobre uma conversa que teve com o ex-governador de São Paulo.

Com base nas informações de Mainardi, o cônsul americano afirma que José Serra pediria a Marina Silva para ser a vice dele. Diante da improbabilidade disso acontecer, o tucano esperava o apoio dela no segundo turno da eleição de 2010.

Na mesma nota, o diplomata americano conta que, durante um almoço, Mainardi lhe revelou que escreveu um artigo na Veja defendendo a chapa Serra / Marina depois que o tucano lhe disse que a verde era a “companheira de chapa de seus sonhos”.

Na coluna em questão, Mainardi batizou a dobradinha Serra / Marina de “chapa cabocla”. “Uma chapa formada por José Serra e Marina Silva embaralharia a campanha de 2010, pegando o PT no contrapé e enterrando de vez a desastrada candidatura de Dilma Rousseff”, escreveu o colunista.

Apesar da defesa da “chapa cabocla”, Mainardi confessou ao cônsul que não acreditava na sua concretização. Para o colunista, Marina estava “interessada em fixar sua própria credibilidade, concorrendo, ela mesma, à presidência.

Em plano mais realista, Mainardi disse ao cônsul que o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, lhe dissera, no início desse mês, que permanecia “completamente aberto” à possibilidade de concorrer como candidato a vice na chapa de José Serra“, diz trecho da nota vazada pelo Wikileaks.

A opinião de Mainardi era compartilhada pelo colunista d’OGlobo, Merval Pereira, que, em encontro no dia 21 de janeiro, disse ao cônsul dos EUA no Rio de Janeiro que o então governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), estaria disposto a “fazer tudo” para ajudar José Serra, inclusive ser seu vice.

Merval disse acreditar que “não só [Aécio] Neves aceitará ser vice-presidente de Serra, mas também que Marina Silva apoiaria Serra num eventual segundo turno.

Como se sabe, tanto as análises de Mainardi, chamado de “renomado colunista político”, como as previsões de Merval Pereira revelaram-se enormes furadas. O problema é que, ao confundir análise com torcida, os dois colunistas do PIG passaram por cima dos fatos e se apegaram à ilusão de que suas hipóteses virariam verdade por inércia.

A promiscuidade entre a velha imprensa e a direita tucana não é novidade. Além dos delírios de José Serra, o documento do Wikileaks expôs as vísceras do jornalismo praticado pela grande mídia.

Ao emprestarem suas páginas para Mainardi e Merval repassarem os recados ditados pelo tucano, Veja e O Globo trocaram a fantasia da imparcialidade pelas vestes da subserviência.

Dilma no RN: Aeronáutica desmente O Globo

Desde a última sexta-feira (4), a presidenta Dilma Rousseff  desembarcou no Rio Grande do Norte, onde veio se refugiar durante o período momesco no Centro de Lançamento Barreira do Inferno, em Parnamirim. O PIG, com o perdão do trocadilho, aproveitou para fazer carnaval com a notícia.

No mesmo dia em que Dilma chegava ao RN, o jornal “O Globo” saía com uma matéria afirmando que o Comando da Aeronáutica teria gasto R$ 8 milhões para hospedar a presidenta na base militar em Parnamirim.

O Coronel Aviador Marcelo Kanitz Damasceno disse, em nota, que a reportagem errou ao confundir “todo o volume de empenhos” previsto para a base em 2010 com os preparativos para receber Dilma Rousseff.

Leia, abaixo, a íntegra da nota emitida pelo comando da Aeronáutica:

“Em relação à reportagem “Em base militar com praia deserta, Dilma passará carnaval em família” (4/3), o Centro de Comunicação Social da Aeronáutica esclarece que há equívocos nos dados que podem levar o leitor a uma interpretação errônea dos fatos.

A reportagem erra ao afirmar que ocorreram despesas no valor de R$ 8 milhões tendo em vista a visita da presidente da República. O valor que a reportagem alude possivelmente refere-se aos R$ 7.830.599,10 correspondentes a todo o volume de empenhos emitidos pelo Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI) em 2010, de acordo com dados disponíveis no Siafi.

Este valor refere-se às despesas de custeio administrativo de todas as atividades do CLBI em 2010, dentre os quais R$ 2,36 milhões de investimentos realizados para atender às demandas do Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), como o lançamento do foguete Improved Orion, previsto para ocorrer em abril deste ano.

As melhorias envolvem reforma do lançador principal, ampliação da casamata, além de construções, como o prédio de montagem de motores e um laboratório para experimentos científicos.

CORONEL AVIADOR MARCELO KANITZ DAMASCENO — Centro de Comunicação Social da Aeronáutica.”

A lenta morte do DEM

O outrora poderoso DEM, cujas raízes remetem à ARENA (Aliança Renovadora Nacional), sustentáculo da ditadura militar, vive seu pior momento político desde a eleição de Lula em 2002, quando o partido começou a minguar e perder importância no cenário político brasileiro.

A anunciada saída do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, deverá transformar o ex-FPL e ex-PDS numa legenda periférica. Kassab confirmou que criará outro partido para, mais tarde, fazer sua fusão com o PSB. Pretende levar senadores, deputados, vereadores e prefeitos para a nova agremiação política.

O DEM começou a perder espaço ainda durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), quando os tucanos ganharam a preferência da parcela mais conservadora dos eleitores. Com o fim da Era FHC, os liberais entraram em queda livre.

Nas últimas eleições, a legenda diminuiu ainda mais na Câmara e no Senado. A bancada ficou reduzida a 46 deputados federais (eram 65 em 2006) e 5 senadores (eram 14 até o fim de 2010).

Mas o partido poderá ficar ainda menor. É que a senadora Kátia Abreu (TO), líder da bancada ruralista, declarou que a oposição “está na UTI”, revelou que se sente “desconfortável” e admitiu que deverá ingressar em outro partido.

Além dela, o partido poderá perder ainda a governadora do RN, Rosalba Ciarlini. Na imprensa potiguar, comenta-se que a democrata pensa em migrar para uma legenda da base aliada da presidenta Dilma Rousseff (PT). Caso tenha êxito a estratégia do prefeito de São Paulo de criar um novo partido e posteriormente incorporá-lo ao PSB, driblando as regras contra a infidelidade partidária, Rosalba estaria disposta a acompanhar Gilberto Kassab. Assim, num futuro próximo, assumiria o comando do PSB no RN.

Conservadorismo

Como observou Maria Inês Nassif, repórter especial de Política do Valor Econômico, a imagem do DEM sempre esteve ligada ao conservadorismo. A legenda mudou de nome, inventou um novo slogan — “O partido das novas ideias” — e renovou sua liderança, mas continuou identificado à ideologia arcaica, ao coronelismo regional e às oligaquias estaduais, que se projetaram nacionalmente com a ajuda do regime militar.

Apesar das pirotecnias retóricas e publicitárias, o partido, na verdade, nunca deu nenhum passo para romper com sua velha estrutura apoiada na eternização de lideranças desgastadas ou de seus herdeiros, como os deputados federais Rodrigo Maia (RJ) e ACM Neto (BA). Prova disso é a eleição do senador José Agripino (RN), prevista para ocorrer em março, para a presidência da legenda.

O senador potiguar é um símbolo da tradição coronelística e oligárquica que dominou o país durante décadas, com notada predominância na região Nordeste. O começo da trajetória de Agripino não deixa dúvidas quanto a isso: prefeito biônico de Natal, nomeado pelo primo e então governador Lavoisier Maia, ingressou na política pela porta da ditadura.

Antes dele, seu pai, Tarcísio Maia, havia sido nomeado governador do RN pelo general Golobery do Couto e Silva durante o governo Geisel. Com a ascenção petista ao poder em 2003, Agripino notabilizou-se ao liderar o partido em sua ‘cruzada ética’ durante a oposição ao governo Lula.

O monopólio do discurso moral era a estratégia para tentar sobreviver junto à opinião pública. O plano caiu por terra quando a Polícia Federal prendeu José Roberto Arruda, único governador eleito pela legenda em 2006, acusado de comandar um esquema de pagamento de propina no Distrito Federal. O episódio ficou conhecido como o mensalão do DEM.

Resta esperar para ver se o partido vai continuar minguando até desaparecer ou se encontrará um caminho que evite a iminente extinção.

 

O polêmico discurso de Dilma no aniversário da Folha

A presidenta Dilma Rousseff compareceu à cerimônia de aniversário de 90 anos da Folha de S.Paulo, ontem à noite, quando proferiu um discurso em defesa da liberdade de imprensa. A presença e o discurso da presidenta geraram muita polêmica. Para muitos, Dilma errou ao comparecer ao evento e, mais ainda, ao elogiar o “bom jornalismo” do jornal da família Frias.

Em texto publicado no “Brasília, eu vi“, o jornalista Leandro Fortes afirmou que Dilma, em seu discurso, cometeu o “pecado capital” de ter “corroborado com a falsa retórica da velha mídia sobre liberdade de imprensa e de expressão”.

Transcrevo, abaixo, a íntegra do artigo de Leandro Fortes (comento em seguida):

Dilma na cova dos leões

Na íntegra do discurso de Dilma Rousseff proferido na cerimônia de aniversário de 90 anos da Folha de S.Paulo, disponibilizado na internet pela página do Portal UOL, lê-se, não sem certo espanto: “Estou aqui representando a Presidência da República. Estou aqui como presidente da República”. Das duas uma: ou Dilma abriu mão, em um discurso oficial, de sua batalha pessoal para ser chamada de “presidenta”, ou, mais grave, a transcrição de seu discurso foi alterada para se enquadrar aos ditames do anfitrião, que a chama ostensivamente de “presidente”, muito mais por birra do que por purismo gramatical.

Caso tenha, de fato, por conta própria, aberto mão do título de “presidenta” que, até então, lhe parecia tão caro, este terá sido, contudo, o menor dos pecados de Dilma Rousseff no regabofe de 90 anos da Folha.

Explica-se: é a mesma Folha que estampou uma ficha falsa da atual presidenta em sua primeira página, dando início a uma campanha oficial que pretendia estigmatizá-la, às vésperas da campanha eleitoral de 2010, como terrorista, assaltante de banco e assassina. A ela e a seus companheiros de luta, alguns mortos no combate à ditadura.

Ditadura, aliás, chamada de “ditabranda”, pela mesma Folha.

Esta mesma Folha que, ainda na campanha de 2010, escalou um colunista para, imbuído de sutileza cavalar, chamá-la, e à atual senadora Marta Suplicy, de vadia e vagabunda.

Essa mesma Folha, ora homenageada com a presença de Dilma Rousseff.

Digo o menor dos pecados porque o maior, o mais grave, o inaceitável, não foi o de submeter a Presidência da República a um duvidoso rito de diplomacia de uma malfadada estratégia de realpolitik. O pecado capital de Dilma foi ter, quase que de maneira singela, corroborado com a falsa retórica da velha mídia sobre liberdade de imprensa e de expressão. Em noite de gala da rua Barão de Limeira, a presidenta usou como seu o discurso distorcido sobre dois temas distintos transformados, deliberadamente, em um só para, justamente, não ser uma coisa nem outra. Uma manipulação conceitual bolada como estratégia de defesa e ataque prévios à possível disposição do governo em rever as leis e normas que transformaram o Brasil num país dominado por barões de mídia dispostos, quando necessário, a apelar para o golpismo editorial puro e simples.

A liberdade de expressão que garantiu o surgimento de uma blogosfera crítica e atuante durante a guerra eleitoral de 2010 nada tem a ver com aquela outra, defendida pela Associação Nacional dos Jornais, comandada por uma executiva da Folha de S.Paulo. São posições, na verdade, antagônicas. A Dilma, é bom lembrar, a Folha jamais pediu desculpas (nem a seus próprios leitores, diga-se de passagem) por ter ostentado uma ficha falsa fabricada por sites de extrema-direita e vendida, nas bancas, como produto oficial do DOPS. Jamais.

Ao comparecer ao aniversário da Folha, a quem, imagina-se, deve ter processado por conta da ficha falsa, Dilma se fez acompanhar de um séquito no qual se incluiu o ministro da Justiça. Fez, assim, uma concessão que está no cerne das muitas desgraças recentes da história política brasileira, baseada na arte de beijar a mão do algoz na esperança, tão vã como previsível, de que esta não irá outra vez se levantar contra ela. Ledo engano. Estão a preparar-lhe uma outra surra, desta feita, e sempre por ironia, com o chicote da liberdade de imprensa, de expressão, cada vez mais a tomar do patriotismo o status de último refúgio dos canalhas.

Dilma foi torturada em um cárcere da ditadura, esta mesma, dita branda, que usufruiu de veículos da Folha para transporte e remoção de prisioneiros políticos – acusação feita pela jornalista Beatriz Kushnir no livro “Cães de guarda” (Editora Boitempo), nunca refutada pelos donos do jornal.

A presidenta conhece a verdadeira natureza dos agressores. Deveria saber, portanto, da proverbial inutilidade de se colocar civilizadamente entre eles.

A parcialidade,  o partidarismo e o reacionarismo da Folha de S.Paulo não são nenhuma novidade. Os episódios descritos por Leandro Fortes ainda estão vivos na memória daqueles que, como eu, se engajaram na eleição de Dilma Rousseff.

Apesar disso, considero exageradas as críticas à presidenta. A meu ver, Dilma teria sido extremamente descortês se não tivesse ido à cerimônia. Ao comparecer, demonstrou uma postura republicana, como convém à situação.

Em relação ao discurso, não vi, em nenhum momento, Dilma se referir à Folha como exemplo de “bom jornalismo”. A presidenta fez uma deferência ao fundador do jornal, Octavio Frias de Oliveira, citando-o como “um exemplo de jornalismo dinâmico e inovador“.

Ao dizer isso, Dilma estaria concordando com o jornalismo praticado pela Folha? Não. Creio que a presidenta está se referindo somente à qualidade técnica do jornal, sem fazer nenhuma defesa da sua linha editorial, como muitos, apressadamente, interpretaram.

Discordo quando Dilma diz que a Folha ocupou um papel “decisivo em momentos marcantes da nossa história, como foi o caso das Diretas Já”. Neste ponto, abusou da diplomacia.

Como lembrou Leandro Fortes, o jornal rebatizou a ditadura para “ditabranda” e, à época do regime dos generais, emprestou veículos para transporte e remoção de prisioneiros políticos. A Folha seguiu o mesmo receituário da TV Globo, que aderiu à campanha das Diretas Já apenas quando não havia outra saída.

No mais, Dilma fez um discurso óbvio: condenou a censura, defendeu a liberdade de expressão e disse que o governo “deve saber conviver com as críticas dos jornais para ter um compromisso real com a democracia“. Acrescentou, como havia dito durante a disputa eleitoral, que prefere “o som das vozes criticas da imprensa livre ao silêncio das ditaduras“.

Dilma afirmou ainda que uma imprensa “livre, plural e investigativa” é “imprescindível para a democracia num país como o nosso, que, além de continental, agrega diferenças culturais.

A Folha, malandramente, tentou fazer crer que, ao pregar a “liberdade de imprensa e expressão“, Dilma estaria corroborando com o ‘modus operandi’ da grande imprensa e chancelando a doutrina da mídia conservadora — avessa a temas como regulação, controle social dos meios de comunicação e revisão do modelo brasileiro de concessões públicas de rádio e TV.

Não concordo com Leandro Fortes, para quem Dilma fez uma “concessão aos seus algozes”. A presidenta, na verdade, deu um recado ao jornal ao ponderar a necessidade da imprensa ser “livre e plural”. Liberdade de imprensa não é licença para manipular, distorcer ou mesmo inventar os fatos. Quando em vez de informar a mídia tenta influenciar os fatos, significa que extrapolou a sua função e abusou da liberdade.

A Folha é qualquer coisa, menos plural. Na cobertura da eleição presidencial de 2010, dedicou sucessivas páginas a factóides criados pela oposição, publicou na capa uma ficha falsa contra a então candidata petista e apoiou a campanha difamatória e fascista promovida pelo então candidato tucano, o ex-governador de São Paulo, José Serra.

Dilma demonstrou habilidade extrema ao preferir as entrelinhas para dizer o que pensa dos barões da mídia.

 

Democracia, comunicação e política

“Contra os políticos pesa também acusação de conduzir a linha editorial dos periódicos de grande circulação e de canais de rádio e televisão locais, fortalecendo as imagens por meio de matérias jornalísticas positivas, dirigindo críticas aos oponentes.”

O trecho da notícia acima, para nosso desânimo, não é sobre nenhum figurão da política potiguar. Trata-se de denúncia do Ministério Público Eleitoral (MPE) contra o governador do Acre, Tião Viana (PT), o seu vice, Carlos Messias, o senador Jorge Viana (PT) e os dois suplentes dele. Para o MPE, eles cometeram abusos e ilícitos usando meios de comunicação locais.

Fico me perguntando por que o Ministério Público do RN não segue o exemplo do MPE do Acre. Políticos usando jornais, rádios e emissoras de televisão com fins eleitorais é uma prática antiga por aqui. Todas as concessões de TV no RN estão sob controle de políticos: as famílias Alves e Maia e a prefeita de Natal, Micarla de Sousa (PV), controlam, respectivamente, as afiliadas locais da Globo, Record e SBT.

Não dá pra ignorar a influência que esses meios de comunicação exercem sobre o jogo político, chegando, muitas vezes, a interferir nos critérios de escolha dos cidadãos. Como intermediários entre a fonte de informação e o público, os meios de comunicação selecionam o que e como noticiar e influenciam no julgamento popular sobre os fatos.

Essa influência, obviamente, nem sempre é determinante. As duas eleições do ex-presidente Lula (PT) e a recente eleição da presidenta Dilma Rousseff (PT) estão aí pra demonstrar que, sim, é possível se contrapor à força da mídia conservadora. Mas esses dois casos são exceções que só confirmam a regra.

Pra ficarmos por aqui mesmo, basta lembrarmos o fenômeno Micarla de Sousa. A prefeita de Natal chegou ao cargo em 2008, entre outros fatores, graças à imagem que projetou junto à população através da televisão.

Durante dois anos, Micarla fez da TV Ponta Negra o trampolim para a sua vitoriosa candidatura. Transformou o vídeo em tribuna particular, assumiu o lugar de porta-voz das queixas do povo e se apresentou como uma espécie de justiceira dos fracos e oprimidos.

Enquanto não mexermos na caixa-preta das concessões de rádio e TV no Brasil, casos como esse continuarão se repetindo. Como disse a professora e filósofa Marilena Chauí, em entrevista à revista Caros Amigos, sem comunicação não há democracia. Caso esse modelo de comunicação atrasado e concentrador se perpetue no país, nunca seremos a democracia que sonhamos ser.

Lula: “A esquerda faz oposição e a direita tenta dar golpe a cada 24 horas neste País”

Em discurso durante comício em Porto Alegre (RS), ontem à noite, com a presença de Dilma Rousseff e Tarso Genro, o presidente Luís Inácio Lula da Silva criticou o comportamento da oposição durante o governo dele, afirmando que a direita “tenta dar golpe a cada 24 horas”.

Foi no governo que aprendemos que a esquerda faz oposição e a direita tenta dar golpe a cada 24 horas neste País“, acusou. Em seguida, Lula acrescentou que uma parte da elite brasileira “faz política de forma sórdida”.

A direita aguentou 15 anos de governo duro de Getúlio Vargas mas, em quatro anos de democracia com Vargas, o fez dar um tiro no coração“, destacou o presidente.

De acordo com matéria do Portal Terra, o presidente ainda lembrou o envolvimento da direita na renúncia de Jânio Quadros, na instituição do parlamentarismo após a renúncia de Jânio e no fim do governo de João Goulart para, em seguida, informar que em um momento de crise de seu próprio governo, mandou um recado “a essa direita”.

Eu mandei dizer a eles: vocês mataram o Getúlio, mas, se vocês quiserem me enfrentar, eu não estarei no meu gabinete lendo o jornal de vocês. Eu estarei na rua com o povo desse País“. E emendou: “o legado mais sagrado que posso deixar para a história deste País é o paradigma da governabilidade“.

Eleições, Shakespeare, Cascudo

As folhinhas do calendário passaram numa velocidade surpreendente até aqui. Estamos há apenas três meses das eleições que vão escolher o novo presidente do Brasil, governadores, senadores e deputados estaduais e federais. É verdade que enquanto a Copa do Mundo rola nos campos da África do Sul, pouca  gente quer saber de política, eleições e candidatos. Mas, mesmo com todas as atenções voltadas para a seleção do Dunga, o jogo da luta pelo poder continua a ser jogado diariamente.

O desfecho deste enredo só será conhecido em 3 de outubro, talvez um pouco depois, se houver segundo turno. Mas os primeiros atos dessa história com inspiração shakespeariana (vide a tragédia “Rei Lear”) foram e continuam sendo encenados sem intervalo.

No plano nacional, o confronto entre Dilma Rousseff (PT), José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV) representa mais que a prosaica disputa para saber quem sucederá o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Planalto.

Como disse Emir Sader, as eleições vão definir se o governo petista foi uma exceção, um parêntese no modelo neoliberal, ou a sinalização para um novo modelo de sociedade, com foco nas questões sociais (leia-se distribuição de renda e combate à miséria) e com o Estado exercendo a função de protagonista do desenvolvimento.

Já aqui na província de Cascudo, a eleição se aproxima sem que os candidatos tenham dito ainda a que vieram. Por enquanto, ocupam-se com pantomimas  sem graça, que só servem para encher as páginas de blogs ainda mais sem graça, alinhados com um ou outro lado.

Neste Rio Grande do Norte, prevalecem ainda as pequenas ideias, as nulidades intelectuais e o silêncio cúmplice com os absurdos cometidos pelos mandatários de plantão.

Roberto Jefferson dispara: “O DEM é uma merda”

A coisa está fedendo mais que o previsto. O PSDB anunciou que o vice de José Serra será o senador Álvaro Dias (PSDB-PR). O primeiro a dar a informação, pelo Twitter, foi o deputado federal cassado Roberto Jefferson (PTB), para quem Serra é a “síntese” do homem bom.

O episódio gerou um reboliço danado, levou o DEM a ameaçar romper a aliança com o PSDB e provocou a reação de outros aliados dos tucanos.

Em resposta à choradeira dos democratas, Jefferson usou novamente o Twitter para atacar o partido: “O DEM é uma merda!!!”, escreveu o performático petebista.

Não satisfeito, Jefferson ainda tripudiou da legenda, dizendo que, se as carpideiras do DEM insistirem, os petebistas disputarão a indicação do tesoureiro do partido, Benito Gama, para a vice de José Serra.

Enquanto isso, Lula e Dilma Rousseff assistem de camarote as trapalhadas da oposição.

CNI/Ibope: Dilma se isola na liderança da corrida presidencial

A nova pesquisa CNI/Ibope divulgada hoje mostra a ex-ministra Dilma Rousseff (PT) isolada na liderança da corrida presidencial, com 40%, seguida pelo ex-governador de São Paulo, José Serra (PSDB), com 35%. A senadora Marina Silva (PV) surge em terceiro, com 9% das intenções de voto.

A pesquisa foi realizada entre os dias 19 e 21 deste mês, em 140 cidades e ouviu 2.002 eleitores. O levantamento está registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o n° 16292/2010. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

É a primeira vez que o Ibope mostra Dilma à frente de Serra. Na pesquisa anterior, divulgada no dia 5, a petista e o tucano estavam empatados com 37%.

Na simulação de segundo turno, Dilma venceria Serra por 45% a 38%.

Dilma também lidera na pesquisa espontânea, com 22%, contra 16% de Serra e 3% de Marina.

No critério rejeição, 30% dos entrevistados disseram que não votariam em Serra de jeito nenhum. A rejeição de Dilma ficou em 23%.

A pesquisa revelou que 73% dos eleitores identificam Dilma como a candidata do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ainda segundo a pesquisa, a aprovação ao governo Lula atingiu novo recorde: 85% consideram o governo ótimo ou bom.

Os números chegam a surpreender, porque a pesquisa foi feita após a exibição dos programas de TV do DEM, PPS e PSDB, ambos estrelados pelo candidato tucano.

Dilma cresceu mesmo depois do desgaste provocado pelo caso dos suposto dossiês contra Serra, que teriam sido produzidos pelo núcleo de “inteligência” da campanha dela. A oposição explorou o caso à exaustão e Serra chegou a culpar Dilma diretamente pelo episódio.

Não é à toa que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse ter “sérias dúvidas” sobre a possibilidade de vitória de José Serra.

Emir Sader diz que Brasil mudou “perfil social” e está “menos injusto”

Por Alisson Almeida, no portal Nominuto.com:

Foto: Elpídio Júnior

“O Brasil está menos injusto que antes”. A afirmação é do filósofo, cientista político e professor aposentado da USP (Universidade de São Paulo) Emir Sader, que fez palestra e lançou o livro “Brasil: entre o passado e o presente”, hoje pela manhã, em Natal. Para ele, o “perfil social” do país mudou desde a ascensão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao poder em 2003.

“O país está menos injusto do que era antes. Isso nunca aconteceu [antes]. Ficou igual ou piorou”, comentou, acrescentado que essa “prioridade nas políticas sociais” estaria ajudando o Brasil a reverter a condição de “um dos países mais desiguais do mundo”.

Emir Sader disse enxergar a situação atual como “uma ponte para a construção de outro tipo de sociedade”. Para ele, além do poder em si, o que está em disputa nas eleições presidenciais deste ano “é o lugar do Brasil no mundo”.

O professor elogiou a política externa brasileira, sustentando que, nos últimos sete anos, o país alcançou o status de “nação soberana” graças ao que considera como “política de prioridade dos acordos regionais [com os países da América Latina e América do Sul] em vez dos tratados de livre comércio com os Estados Unidos”.

“Nós diversificamos o comércio internacional, retomamos o intercâmbio com a China, o intercâmbio regional, o mercado interno de consumo popular. A diversificação internacional foi fundamental para o Brasil conquistar o lugar soberano que tem no mundo”, declarou.

Emir Sader afirmou que o “papel do Estado” também mudou neste período, o que teria funcionado como impulsão para os fenômenos do “desenvolvimento econômico” e da “distribuição de renda” experimentados pelo país. “Tudo isso indica que o Brasil de hoje é diferente do que era antes”, apregoou.

Ele criticou duramente o pré-candidato tucano a presidente, José Serra, a quem chamou de “ignorante” em política internacional. A crítica se deve às declarações do ex-governador de São Paulo acusando a Bolívia de ser “cúmplice” do tráfico de drogas.

“O Serra é um ignorante, não conhece política internacional, nunca esteve na Bolívia na vida. O grande produtor e traficante de cocaína na América do Sul e no mundo é a Colômbia. Em segundo é o Afeganistão. Por que ele não faz essa crítica à Colômbia?”, indagou.

O professor disse que o Brasil não é “condescendente” com supostas “práticas autoritárias” de nenhum regime, mas que o país está a favor de um “mundo multipolar”.

“O Brasil não está a favor do regime do Irã. O que o Brasil quer é um mundo multipolar, sem a superioridade militar norte-americana. O Brasil não está a favor do regime de Cuba, da Venezuela nem do Irã. Está a favor de uma solução equilibrada que não considere que o Irã é o maior risco para o mundo”, argumentou.

“Oposição está sem discurso”

Emir Sader acusou a oposição ao governo federal de estar “sem discurso”. “Eu acho que eles [partidos de oposição] estão sem discurso, porque o povo não quer mudar, quer aprofundar o que está aí [com o governo Lula]”.

Para o cientista político, a estratégia da oposição de reivindicar a paternidade dos programas sociais do governo petista não funcionou, porque o povo não reconheceu isso. Por isso, continuou, tucanos e democratas teriam partido para as “críticas pontuais” à gestão lulista.

“Ele [José Serra] está indo para os dois eixos fundamentais da política da direita: segurança pública com linha dura e redução de impostos. É o discurso tradicional da direita. As grandes soluções, criação de ministérios, todos os eixos tradicionais da direita. Eles dão aquela pinta que são mais progressistas. O Serra tem dito que é mais progressista que a Dilma [Rousseff, candidata do PT à sucessão presidencial]”, ironizou.

Emir Sader disse ainda que a “abstinência do poder” fez mal às legendas da oposição, principalmente ao DEM, partido que considera “em plena derrocada”.

“O DEM é um partido do poder. A abstinência do poder já fez mal pra ele [DEM]. Depois, o desencontro com o PSDB na oposição. Terceiro, o programa Bolsa Família puxou o tapete social deles, ajudou a enfraquecer as lideranças coronelísticas que eles tinham, principalmente no Nordeste”, comentou.

O professor afirmou que “a nova geração de líderes da direita é bem pior que a anterior”. “Eles pegaram o espólio de líderes decadentes”, completou.

A situação do Rio Grande do Norte, único Estado onde o DEM apresenta chances concretas de vitória nas eleições regionais, seria, na visão dele, uma “exceção”.

“Acho que isso daqui [no RN] é uma exceção que não muda a regra geral. A vitória [das esquerdas] neste ano vai liquidar uma geração da direita no Brasil”, apostou.

Imprensa

Emir Sader criticou também o comportamento da chamada grande imprensa na cobertura do processo sucessório nacional. Para ele, os maiores veículos jornalísticos estariam atuando como “partido de oposição”.

“O problema não é só que o candidato da [Rede] Globo, da Folha de São Paulo e da [Editora] Abril é o [José] Serra. Eles estão editorializando tudo. Como confessou a executiva da Folha, diante da fraqueza dos partidos de oposição, eles são o partido. Isso é gravíssimo. É uma confissão aberta de que não há nem imparcialidade informativa”, avaliou.

Emir Sader atribuiu esse comportamento da mídia ao “desconhecimento das transformações que estão ocorrendo no país”.

“Pela cobertura que eles [veículos de imprensa] dão, não se dão conta do que é o país real. Eles estão desencontrados do país. É uma elite branca do Centro-Sul que está de costas para a realidade”.

Para quem vão os votos de Ciro?

Por Maurício Dias (Carta Capital /Coluna Rosa dos Ventos):

Votos de Ciro Gomes tendem a favorecer Dilma, diz especialista

A retirada da pré-candidatura do Deputado Ciro Gomes à Presidência da República consolida uma pergunta que já rondava o debate sobre a sucessão presidencial: para onde escoarão os votos do eleitor de Ciro? Para Serra ou para Dilma?

Na terça-feira 27, o PSB defenestrou Ciro Gomes. A Executiva do partido decidiu, por 11 votos contra 2, que os socialistas não teriam candidatura própria à Presidência da República. Mas, além desse fator, sem a presença de Ciro Gomes na competição, cresce a possibilidade de a eleição de outubro ser definida no primeiro turno. Um resultado possível em eleição polarizada, entre petistas e tucanos, e ainda com forte viés plebiscitário como será a de outubro.

Nesse ambiente inteiramente polarizado,a oposição e a imprensa que a vocaliza reagiram à decisão do PSB de retirar o nome de Ciro do páreo e, principalmente, contra a decisão de consolidar o apoio à candidata governista.

O que será dos votos de Ciro? O cientista político Ricardo Guedes, diretor do Instituto Sensus, responde à pergunta assim: “os votos de Ciro Gomes vão mais para Dilma Rousseff do que para José Serra. Em dados gerais, pelos nossos cruzamentos, 50% vão para a candidata do PT e 30% para o candidato do PSDB.”

Para ele, os 20% restantes seriam redistribuídos igualmente entre Marina Silva, do PV, e os indecisos.

“Se considerarmos as proporções para Dilma e para Serra, temos 65% dos votos indo para ela e 35% para ele”, diz Guedes.

A lógica do raciocínio de Ricardo Guedes baseia-se no princípio do que ele considera “pacto do tipo social-democrata europeu”, que teria se formado no Brasil. Ou seja, “a esquerda passa a ser institucionalizada, e a direita cede para programas sociais”.

Os votos de Ciro Gomes favoreceriam, assim, Dilma Rousseff por estar na posição de centro-esquerda do especto político.

Guedes lembra que o eleitor de Marina Silva, o terceiro nome da disputa com potencial de voto pequeno, mas possivelmente decisivo, pode vir a fazer voto útil em Dilma, na reta final das eleições. Isso ocorreu com a ex-senadora Heloísa Helena, do PSOL, nas eleições presidenciais de 2006. Ela chegou a ter 15% das intenções de voto (um número muito próximo ao porcentual máximo atingido por Ciro nas pesquisas de 2009) e terminou com 5%.

Guedes afirma que o voto dela “fluiu para Lula”.

O nome de Plínio de Arruda Sampaio, recentemente definido como pré-candidato do PSOL, ainda não foi incluído nas pesquisas.

Ricardo Guedes engrossa o coro daqueles que acham possível (como já falou João Francisco Meira, do Vox Populi), a eleição ser decidida pela via rápida, em apenas um turno. A favor da candidata do PT.

As condições econômicas e sociais favorecem a candidatura de Dilma Rousseff, que expressa o voto na continuidade, estando a oposição com dificuldades de formular um projeto alternativo para o País. Com a tendência de maior conhecimento de Dilma, as intenções de voto permanecerão equilibradas até o início do período eleitoral, com os programas eleitorais nos meios de comunicação e os debates”.

Ao contrário do que se esperava, a questão ambiental não tomou conta dos debates. Isso projeta dificuldades para Marina manter um porcentual de votos acima de um dígito. A pesquisa Ibope, mais recente, indicou que 10% dos eleitores votariam nela se a eleição fosse hoje.

Os debates, segundo Guedes, serão fundamentais para a alteração, ou não, dessas tendências. Ele acredita que, como ocorreu com a candidatura de Heloísa Helena nas eleições passadas, parte do eleitorado de Marina Silva pode vir a fazer o voto útil. Enviado pelo amigo Amorim de São Paulo.

O “Dia D” de Serra

Serra sagrou-se candidato do PSDB. No mesmo dia, Dilma encontrou-se com sindicalistas.

José Serra, enfim, deixou a exitação para trás e assumiu a candidatura à Presidência da República. Esta é a segunda tentativa do tucano. A primeira foi em 2002, quando perdeu as eleições para o agora presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Neste ano, o espectro de Lula promete continuar assustando Serra. Pela primeira vez desde a redemocratização do país, Lula não será candidato, mas deverá participar ativamente da eleição. O presidente quer transformar a própria sucessão num plebiscito entre o seu governo e o governo do ex-presidente FHC, o guru do tucanato. Lula não medirá esforços para fazer da sua escolhida, a ex-ministra Dilma Rousseff, a primeira mulher a governar o Brasil.

Mas, voltemos a José Serra. O ex-governador de São Paulo vai mesmo comandar a tropa da oposição em 2010. No discurso que fez durante o lançamento da candidatura, ontem pela manhã em Brasília, Serra lançou o bordão que vai usar na campanha ( “O Brasil pode mais” ), repetiu velhos clichês da direita e tentou transmitir a imagem de grande conciliador nacional.

“O Brasil pode mais” parece ser a saída encontrada pelos marqueteiros tucanos para solucionar o problema da falta de discurso da oposição. É uma nova embalagem para um velho clichê: “continuar o que está dando certo, mas mudar o que está dando errado”.

O Chapeleiro Maluco da “Veja”, num tom meio envergonhado, inventou até uma justificativa para do PSDB: “o tucano reconhece e incorpora os avanços havidos no governo Lula — que ele inclui numa trajetória de conquistas dos últimos 25 anos — e diz ser preciso ir além”. Perceberam que agora, com a proximidade da eleição, eles admitem que houve “avanços no governo Lula”?!

O que Serra precisa dizer, sem embromação, é como ele vai fazer o país “ir além”. Ele vai repetir a política de juros estratosféricos, arrocho salarial, elevação de impostos, cortes em programas sociais, ausência de crédito, desemprego e privatizações do governo FHC?!

“O Brasil pode mais” nada mais é que uma tentativa dissimulada se livrar da carapuça anti-Lula, que a oposição vestiu durante esses mais de sete anos de governo petista. Invocado assim, como num passe de mágica, a frase pretende vender um conceito inovador, quando não passa do mais puro prosaicismo.

Serra pregou que o país poderia crescer mais se resolvesse os gargalos na infraestrutura. No discurso fica bonito, mas antes de prometer mais crescimento, o tucano deveria dizer, para acabar com qualquer dúvida, se vai mesmo acabar com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), como disse o senador José Guerra (CE), presidente nacional do PSDB, em entrevista à “Veja”.

O tucano fez menção aos programas sociais do governo Lula, com destaque para o “Bolsa Família”, dizendo que é tudo herança do governo FHC. É um discurso confuso, porque a oposição sempre criticou esses programas, classificando-os como “eleitoreiros”. Agora, reivindicam a paternidade das ações e prometem mantê-las. Então, vão continuar com os mesmo programas “eleitoreiros”?

Em outro momento, Serra invocou o tema da justiça, pregou o cumprimento da lei e protestou contra a impunidade. O discurso da moralidade, da ética e da justiça, definitivamente, não cai bem a nenhum tucano. Uma folheada rápida nas páginas da história recente do governo FHC e dos governos estaduais tucanos causaria constrangimentos à turma de plumagem colorida. Serra sabe disso, mas insiste na mesma bravata, apostando na memória curta da população.

Finalmente, Serra quis se mostrar como conciliador, como líder capaz de unificar a nação dividida pelo sectarismo lulo-petista. “Não aceito o raciocínio do nós contra eles. Não cabe na vida de uma Nação. Somos todos irmãos na pátria. Lutamos pela união dos brasileiros e não pela sua divisão“, anunciou, em tom profético.

Pode haver discurso mais direitista? Nada mais conservador que tentar esconder a luta de classes, o abismo social que nos separa, a injustiça que fazer de uns mais cidadãos que outros. Cito Miguel do Rosário: “O PSDB está ao lado dos ricos, mas como não pode afirmar isso, então diz que não tem lado, que estará ao lado de todos. Não é assim, Serra. Os ricos não precisam de apoio governamental. Quem precisa são os pobres. Isso demarca quem está ao lado da maioria do povo brasileiro, que é ainda muito pobre, e quem não está“.

A resposta

O presidente Lula e a ex-ministra Dilma Rousseff não deixaram os tucanos sem resposta. Num evento paralelo ao lançamento da candidatura de Serra, Lula ironizou o slogan do PSDB: “Eles querem e nós fazemos. Essa é a diferença substancial”.

O presidente prosseguiu: “Dilma não será a candidata da defesa de teses abstratas, será a candidata de auto-afirmação. Se eles dizem o Brasil pode mais, nós fazemos mais”.

Em relação ao ataque do PSDB à suposta divisão regional e em classes incentivada pelo governo e pelo PT, Lula reagiu assim: “Não queremos é deixar a divisão que eles deixaram entre ricos e pobres”.

Dilma seguiu no mesmo tom usado pelo presidente: “Esse país pode mais porque nós fizemos com que ele pudesse mais”. A ex-ministra lembrou que esses que agora dizem que o país pode “ir além”, quando estiveram no governo fizeram exatamente o contrário. Na Era FHC, o país andou para trás. Dilma os batizou como “viúvas da estagnação” e “exterminadores do emprego e do futuro”.

No discurso que proferiu durante o evento promovido pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), berço político de Lula e do PT, Dilma demarcou a diferença entre os projetos petista e tucano: a defesa dos mais pobres, a defesa do patrimônio nacional e o respeito aos movimentos sociais.

Destaco dois pontos do discurso de Dilma. O primeiro trata daquilo que deve ser a prioridade do governo: “O Estado deve estar a serviço do interesse nacional e da emancipação do povo brasileiro“.

O segundo é uma provocação direta ao “conciliador” José Serra, o governador que manda a polícia bater em professores grevistas: “A democracia que desrespeita os movimentos sociais fica comprometida e precisa mudar para não definhar. O que estamos fazendo no governo Lula e continuaremos fazendo é garantir que todos sejam ouvidos. Democrata que se preza não agride os movimentos sociais. Não trata grevistas como caso de polícia. Não bate em manifestantes que estejam lutando pacificamente pelos seus interesses legítimos“.

Sobre manchetes sensacionalistas

Manchetes sensacionalistas são moda na grande imprensa. Funciona assim: escândalos artificiais são publicados em letras garrafais e, a seguir, desmentidos em cantos de página.  

Quando não há escândalo na praça, a gente arranja alguma coisa — descontextualiza, superdimensiona ou tira um “fato novo” da cartola mesmo.

Manchete do G1  deste domingo: “‘Acho normal’ que mensaleiros exerçam direitos políticos, diz Dilma”.

Na matéria, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) não diz o que a manchete sensacionalista afirma que ela diz.

Leiam a declaração da ministra: “Acho que o PT está procedendo de forma correta. Acho normal que exerçam seus direitos políticos. Ninguém pode ser cassado a priori. Eu acho que a gente deu um passo grande no Brasil quando se compara com outros países do mundo, e dizemos que somos uma das maiores democracias”.

Vamos contextualizar: Dilma não “saiu em defesa dos mensaleiros”. A ministra disse que qualquer filiado ao partido, no gozo dos seus direitos partidários, tem a prerrogativa de participar do processo eleitoral em curso.

Não cabe à ministra vetar a participação de ninguém no processo político interno do PT. Como a própria matéria afirma, as pessoas acusadas de participarem do “mensalão” ainda não foram julgados pela Justiça. Portanto, não podem ser condenados a priori.

Dizer que “Dilma saiu em defesa dos mensaleiros” é, no mínimo, usar de má fé, levando os leitores a acreditarem que a ministra concorda com as ações supostamente praticadas pelos réus.

Enfim, temos uma refinaria

Alheio às acusações de que a Refinaria Clara Camarão é um “prêmio de consolação para o RN”, presidente Lula visita o Pólo Industrial de Guamaré.

 

Por Alisson Almeida, para o Nominuto.com

 

Pólo Industrial de Guamaré será ampliado para operar como refinaria.

 

A refinaria que leva nome de guerreira (Clara Camarão), finalmente, deve sair do papel. Para torná-la realidade, foi necessário travar uma verdadeira luta – termo usado, em tom propositadamente dramático, por algumas personalidades presentes no ato de lançamento da obra.

Trata-se da tão sonhada refinaria do Rio Grande do Norte, batizada de “Clara Camarão”, no município de Guamaré. A cidade fica na região litorânea, distante 165 km de Natal. Para chegar lá, é preciso se aventurar entre os buracos da BR 406.

O Pólo Industrial, onde será instalada a unidade de processamento, fica a 5 km da área urbana. Coube ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva dar o “start” para implantação da refinaria. Na quinta-feira (19), Lula e a governadora Wilma de Faria (PSB) assinaram um termo de compromisso entre o governo do Rio Grande do Norte e a Petrobras para ampliar a capacidade instalada da planta.

A partir do segundo semestre de 2010, segundo estimativas oficiais, a antiga Unidade de Tratamento e Processamento de Fluidos (UTPF) vai operar como uma refinaria de verdade, com a produção de gasolina e nafta petroquímica, somando-se aos produtos que já são beneficiados no complexo – diesel, gás liquefeito de petróleo (GLP) e querosene de aviação (QAV).

Lula chegou a Guamaré com quase duas horas de atraso, desembarcando no heliporto do Pólo Industrial por volta das 16h30. Na tenda armada para sediar a cerimônia, o presidente era aguardado por políticos, secretários de estado e funcionários da Petrobras.

A ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) foi a ausência mais presente do evento. A ungida de Lula para ser sua sucessora, a partir de 2011, foi citada em quase todos os discursos e proclamada como a grande responsável pela conquista da refinaria.

Vestindo um típico macacão de petroleiro, Lula proferiu um discurso carregado de críticas à oposição, citou alguns investimentos realizados pelo seu governo no RN e defendeu a importância da Refinaria Clara Camarão para o desenvolvimento da economia potiguar.

“Para mim pouco importa o que os adversários estão dizendo, porque enquanto eles falam, nós estamos trabalhando. Os adversários estão com um sério problema. Eles precisam achar um assunto para discutir com a gente. Duvido que todos eles juntos, nos últimos 20 anos, tenham feito mais em todos os Estados do que aquilo que fizemos”, desafiou.

O petardo presidencial tem endereço certo: os que afirmam que a refinaria não passa de uma “compensação” por supostas perdas infringidas ao Rio Grande do Norte. Para Lula, a obra de ampliação vai representar um “salto no desenvolvimento” potiguar.

O presidente chamou a oposição de “hipócrita” por atribuir o êxito do governo a um lance de “sorte”. “Nossos adversários dizem que achamos o pré-sal por pura sorte. Mas a oposição não entende que todo mundo precisa ter sorte, mas precisa aliar a sorte à competência e à decisão política de investir, que é o que nós vimos fazendo”.

Relembrando os investimentos federais no RN, Lula disse ainda que o programa “Luz Para Todos” levou energia elétrica para 250 mil famílias potiguares. Em seguida, voltou a empregar o tom político ao dirigir-se à Wilma de Faria para dizer que a governadora “rompeu com o coronelismo das famílias que mandavam no estado” – o deputado federal Henrique Eduardo Alves (PMDB), filho do ex-governador Aluízio Alves, teve que superar o constrangimento.

O presidente afirmou que o país vive um verdadeiro “milagre” com a descoberta do pré-sal e listou as áreas que considera essenciais para investimento do dinheiro das novas reservas: educação, ciência e tecnologia, saúde, cultura e meio-ambiente.

“O dinheiro do pré-sal não pode entrar no ralo comum da administração pública, sem surtir os efeitos que nós queremos”, finalizou.

 

 

O medo de Agripino

Li nos jornalões do PIG que o DEM está exigindo a vaga de vice na chapa presidencial do PSDB. Um dos nomes cotados é o do senador potiguar José Agripino.

Mas Jajá declarou que, se chamado, vai declinar do convite, alegando que sua prioridade é a reeleição ao Senado.

Na verdade, Jajá tem medo de embarcar numa canoa furada, porque sabe que José Serra, provável candidato tucano, tem pouquíssimas chances de vencer a ministra Dilma Rousseff (PT), candidata do presidente Lula à sucessão.

É só uma questão de tempo pra candidatura da petista crescer — mesmo com o jogo pesado da mídia tucana contra a ministra. Uma pesquisa que o próprio DEM encomendou revelou que a situação do tucano não é nada boa. Dilma supera ou empata com Serra em quatro estados: Distrito Federal, Bahia, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.

Agripino não tem coragem de entrar numa partida tão disputada e correr o risco de ficar sem nada. Em 2006, Jajá tentou ser vice de Alckmin, mas o PSDB o boicotou.

Naquela ocasião, o senador não teria nada a perder, porque mesmo com uma provável derrota nacional, ainda teria quatro anos pela frente no Senado.

Agora, o a brincadeira é mais difícil.

 

A máquina de fabricar escândalos

A Folha de S. Paulo deu mais uma demonstração que age como partido político de oposição. 

Leiam a matéria abaixo (comento em seguida):

Minha Casa, Minha Vida privilegia corretora sindical 

Dirigida por petistas, Fenae tem monopólio informal da venda de seguros do programa

Duas seguradoras fecham acordo com corretora para explorar mercado em que giram cerca de R$ 40 mi; CEF afirma que atuação é livre

FERNANDO BARROS DE MELLO

DA REPORTAGEM LOCAL

Uma corretora dirigida por sindicalistas da Caixa Econômica Federal, que são filiados ao PT e também doadores de candidatos a deputado e prefeito pelo partido, é a maior negociadora de seguros de entrega de obras do Minha Casa, Minha Vida, programa do governo federal lançado há sete meses.
A Fenae Corretora é a única a ter acordo com a Caixa para a venda do seguro-garantia do programa habitacional -um negócio de milhões de reais. Empreiteiras e corretores ouvidos pela Folha afirmam haver um monopólio informal.
Construtoras que participam do programa são obrigadas a contratar um seguro para garantir a entrega das moradias, caso as próprias empreiteiras não cumpram o prometido.
Duas seguradoras, Caixa Seguros e J Malucelli, dominam o mercado até o momento. A Fenae Corretora é quem faz a intermediação entre construtoras e seguradoras.
Em julho, Caixa Seguros, J Malucelli e Fenae divulgaram comunicado ao setor financeiro anunciando um acordo “para explorarem juntas esse mercado”. À Folha, o setor de relações com investidores da J Malucelli confirmou que quase a totalidade dos seguros é negociada, até agora, pela parceria das três empresas.
A Caixa diz que quaisquer seguradoras e corretoras podem participar e o mercado é livre. A Fenae afirma ser uma das mais experientes da área.
O Minha Casa, Minha Vida -que é uma das principais bandeiras da pré-campanha da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) ao Planalto- promete investir R$ 34 bilhões na construção de um milhão de casas populares. O valor a ser segurado é de 10% de cada obra.
Isso representaria um prêmio de cerca de R$ 40 milhões para as seguradoras que atuarem nesse nicho -considerando uma taxa conservadora de gratificação de menos de 1,5% sobre o valor total segurado.
A comissão a ser recebida pelos corretores de seguro, segundo documento da própria J Malucelli, chega a 10% do prêmio recebido pelas seguradoras (o que representaria um total de R$ 4 milhões para a Fenae, caso seja a única a explorar o mercado).
Em pouco mais de três meses, mais de R$ 4 bilhões em financiamentos da Caixa para o Minha Casa foram garantidos pela J Malucelli, segundo a própria empresa. Alexandre Malucelli, vice-presidente da J Malucelli Seguros, diz que a Fenae “é a corretora cativa da Caixa Seguros” e que por isso foi escolhida para a parceria.
“O seguro-garantia é complexo e a Caixa tem o direito de indicar a seguradora de sua confiança. O que combatemos é o abuso, a imposição de representantes”, diz André Dabus, coordenador de Crédito e Garantia do Sincor-SP (sindicato dos corretores). “Os corretores entendem que banco é banco, corretora é corretora. Monopólio não é sadio. Esperamos que a Caixa não fique na contramão da história.”

Doações

 
A Fenae Corretora é ligada à Fenae (Federação Nacional das Associações de Pessoal da Caixa Econômica Federal), entidade associada à CUT (Central Única dos Trabalhadores). Pedro Beneduzzi Leite preside tanto a corretora como a entidade sindical.
Filiado ao PT desde 1990 e com carreira no Paraná, ele já foi doador de campanha do presidente do PT, Ricardo Berzoini (R$ 4 mil em 2006), e da mulher do ministro Paulo Bernardo (Planejamento), Gleisi Hoffmann, a quem destinou R$ 4 mil em 2008, quando ela disputou a Prefeitura de Curitiba.
Alexandre Monteiro, diretor-executivo da Fenae Corretora, é doador de campanha de Ricardo Berzoini (R$ 9 mil) e de Geraldo Magela (R$ 1,5 mil).
Já Fernando Ferraz Rêgo Neiva, presidente e membro efetivo do conselho fiscal, foi candidato pelo PT-MG a deputado federal em 2006.

 

A matéria vende uma coisa na manchete, mas entrega outro produto ao leitor. O jornal sustenta que a Caixa “privilegia” a Fenae no negócio dos seguros do programa “Minha Casa, Minha Vida”. A razão do tratamento especial, conforme a argumentação do jornal, é que a corretora é dirigida por sindicalistas filiados ao PT. É simples assim, como somar dois mais dois.

Mas a matéria, pasmem, não revela nenhuma irregularidade no acordo da Fenae com a Caixa. A “denúncia” se resume, repito, a um ponto: a corretora é dirigida por petistas. Esse é o escândalo.

Ficamos sabendo pela própria matéria que a Fenae tem bom conceito no mercado e que o acordo com as duas construtoras (Caixa Seguros e J Malucelli) para exploração do seguro-moradia obrigatório do “Minha Casa, Minha Vida” se deu às claras, com divulgação pública ao setor financeiro.

A Folha diz que “empreiteiras e corretores” afirmaram haver um “monopólio informal” da Fenae. Mas a informação é desmentida mais à frente pelo coordenador do sindicatos dos corretores, que diz que o banco “tem o direito de indicar a seguradora de sua confiança”.

Pra completar o samba do crioulo doido, seguindo o manjado roteiro para tentar configurar o escândalo, o jornal acrescenta que a corretora já fez doações a vários candidatos do Partido dos Trabalhadores. Mas, se as doações foram legais, cadê o crime?

O jornal ainda encontrou espaço, numa matéria que não trata sobre eleições, pra associar o “Minha Casa, Minha Vida” à pré-candidatura da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) à Presidência da República.

É a Folha mostrando, novamente, que tem lado e a quem serve.

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