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Honduras: a ditadura envergonhada

Pressionado, o ditador que comanda o governo golpista de Honduras, Roberto Micheletti, admitiu que poderá rever o decreto que transformou o país num estado de exceção, impôs o toque de recolher e fechou emissoras de rádio e TV contrárias ao golpe.

Micheletti, agora, diz que aceita negociar, admite a volta do Manuel Zelaya ao poder — caso o presidente deposto aceite se submeter a julgamento — e  após impedir a entrada no país de representantes da Organização do Estados Americanos (OEA), convidou os diplomatas para conversar.

O ditador de plantão também mudou o tom com o Brasil. Depois de dar um ultimato para que o governo brasileiro definisse o status de Zelaya, abrigado na embaixada brasileira em Tegucigalpa desde 21 de setembro, Micheletti baixou o tom e mandou um “abraço” ao presidente Lula.

Lula havia respondido à ameaça afirmando que o Brasil “não recebe ultimato de golpistas nem reconhece o governo de Honduras como interino”.

Em artigo na Folha de S. Paulo, transcrito logo abaixo, Elio Gaspari disse que Lula agiu certo ao não se intimidar com as ameaças dos “usurpadores do poder” e destacou que o Brasil “é inimigo do golpismo”:

 

O Brasil de Lula é inimigo do golpismo


Nosso Guia fez o certo, a praga das 300 quarteladas do século passado precisa de uma vacina


LULA DISSE bem: “O Brasil não acata ultimato de governo golpista. E nem o reconheço como um governo interino (…) O Brasil não tem o que conversar com esses senhores que usurparam o poder”.
Os golpistas hondurenhos depuseram um presidente remetendo-o, de pijama, para outro país, preservam-se à custa de choques de toque de recolher e invadiram emissoras. Eles encarnam praga golpista que infelicitou a América Latina por quase um século. Foram mais de 300 as quarteladas, uma dúzia das quais no Brasil, que resultaram em 29 anos de ditaduras. Na essência, destinaram-se a colocar no poder interesses políticos e econômicos que não tinham votos nem disposição para respeitar o jogo democrático.
Decide-se em Honduras se a praga ressurge ou se foi para o lixo da história. Nesse sentido, o governo de Nosso Guia tem sido um fator de estabilidade para governos eleitos democraticamente. Se o Brasil deixasse, os secessionistas de Santa Cruz de La Sierra já teriam defenestrado Evo Morales. Lula inibiu a ação do lobby golpista venezuelano em Washington. Se o Planalto soprasse ventos de contrariedade, o mandato do presidente paraguaio Fernando Lugo estaria a perigo.
Para quem acredita que a intervenção diplomática é uma heresia, no Paraguai persiste a gratidão a Fernando Henrique Cardoso por ter conjurado um golpe contra Juan Carlos Wasmosy em 1996. Em todos os casos, a ação do Brasil buscou a preservação de governos eleitos pela vontade popular.
No século do golpismo dava-se o contrário. Em 1964, o governo brasileiro impediu o retorno de Juan Perón a Buenos Aires obrigando-o a voltar para a Europa quando seu avião pousou para uma escala no Galeão.
A ditadura militar ajudou generais uruguaios, bolivianos e chilenos a sufocar as liberdades públicas em seus países. (Fazendo-se justiça, em 1982 o general João Figueiredo meteu-se nos assuntos do Suriname, evitando uma invasão americana. Ele convenceu o presidente Ronald Reagan a botar o revólver no coldre. Nas suas memórias, Reagan registrou a sabedoria da diplomacia brasileira.)
O “abrigo” dado ao presidente Manuel Zelaya pelo governo brasileiro ofende as normas do direito de asilo. Pior: a transformação da Embaixada do Brasil em palanque é um ato de desrespeito explícito. Já o cerco militar de uma representação diplomática é um ato de hostilidade. Fechar a fronteira para impedir a entrada no país de uma delegação da OEA é coisa de aloprados. A essência do problema continua a mesma: o presidente de Honduras, deportado no meio da noite, deve retornar ao cargo, como pedem a ONU e a OEA.
Lula não deve ter azia com os ataques que sofre por conta de sua ação. Juscelino Kubitschek comeu o pão que Asmodeu amassou porque deu asilo ao general português Humberto Delgado. Amaciou sua relação com a ditadura salazarista e, com isso, o Brasil tornou-se um baluarte do fascismo português. Ernesto Geisel foi acusado de ter um viés socialista porque restabeleceu as relações do Brasil com a China e reconheceu o governo do MPLA em Angola.
As cartas que estão na mesa são duas: o Brasil pode ser um elemento ativo para a dissuasão de golpismo, ou não. Nosso Guia escolheu a carta certa.

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Jajá e a democracia

O blog reproduz o comentário do leitor e colaborador Zózimo Carlisle sobre a metamorfose do filhote da ditadura, José Agripino, aquele que serviu ao regime dos generais, mas agora cospe no prato em que comeu:

 

Jajá, um revolucionário da democracia! Aliás, o próprio nome do partido dele já diz. Engraçado esse alinhamento político-partidário brasileiro, em que a sigla do partido em nada reflete a ideologia dos seus representantes, tampouco da teoria política original. Trata-se única e exclusivamente de marketing e publicidade.

Filhote da ditadura, Agripino comemora 30 anos na política

Agripino Maia

José Agripino comemorou 30 anos de “vida pública” (sic) na semana passada. Várias personalidades do DEM (ex-Arena, ex-PDS, ex-PFL) vieram a Natal render homenagens ao senador. Todos teceram loas ao “espírito público” (sic) do potiguar. O primo de Jajá, deputado federal Rodrigo Maia (RJ), presidente nacional do DEM, disse que Agripino “é uma das maiores referências da política do país”.

O blog não poderia deixar a data passar em branco e, modestamente, relembra algumas passagens da carreira política de Jajá que certamente não foram mencionadas durante os festejos:

– Prefeito biônico de Natal, nomeado em 1979 pelo então governador e primo Lavoisier Maia – este nomeado para o cargo pelo pai de José Agripino, Tarcísio Maia (Tarcísio havia sido convocado para assumir o governo estadual, em 1975, pelo general Golbery do Couto e Silva, a “eminência parda do governo Geisel”);

– Com as bênçãos da ditadura, beneficiado pelo voto camarão (os eleitores só podiam votar em candidatos de um mesmo partido, sob pena de anularem o voto) e pela pesada estrutura do então PDS, elegeu-se governador, pela primeira vez, em 1982;

– Em 1985, foi flagrado numa reunião com auxiliares e 120 prefeitos, acertando a estratégia para eleger sua então secretária de Promoção Social, Wilma Maia, prefeita de Natal. A estratégia era a seguinte: os prefeitos deveriam comprar títulos eleitorais, distribuir presentes, incentivar tumultos nos processos de votação e apuração e usar veículos oficiais com placas frias para transportar eleitores do interior para a capital. No final da reunião, Aripino deu a última instrução: “Não podemos deixar rabo-de-palha”. A frase de Agripino batizou aquele que entraria para a história como um dos maiores escândalos políticos do Rio Grande do Norte. O “rabo-de-palha” é um fantasma cujo espectro persegue Jajá até hoje.

– Gravações da fatídica reunião revelaram como Agripino pretendia ganhar o voto dos pobres: “Com uma feirazinha, com um enxoval, com umas coisinhas”.

– Em outro trecho, Agripino revela seu peculiar conceito de democracia: “Vamos indicar a área para vocês trabalharem e inclusive nas áreas modestas, de eleitores indecisos que são sensíveis a uma conversa e a uma negociação, que será feita por nós ou por eles. Democracia é isto!”

– Em 1991, elegeu-se governador pela segunda vez, derrotando o primo Lavoisier Maia. O segundo mandato terminou marcado por outro escândalo: a fraude do “Ganhe Já” – loteria em que o cidadão trocava notas fiscais por cupons que lhe davam o direito de concorrer a prêmios.

– Em 21 de novembro de 1994, o Jornal de Natal publica reportagem sobre a farsa do “Ganhe Já”, revelando como o programa foi usado para enriquecer os amigos do governador:

 

“A Falência do Ganhe Já e o Arrocho Fiscal. A campanha do Ganhe Já, denunciada sistematicamente por este jornal como uma farsa, que vendia uma falsa realidade do Rio Grande do Norte (tendo inclusive motivado a decisão do JN a não publicar quqlaquer anúncio da campanha), faliu sem jamais ter alcançado seu objetivo, aumentar a arrecadação do Estado. Foi apenas um sangradouro de dinheiro que financiou a Dumbo Publicidade e fornecedores e levou o Erário a esvaziar-se a ponto de o Estado não ter dinheiro em caixa sequer para o pagamento da folha do funcionalismo.

O empobrecimento do Estado, que tem hoje uma legião de 1 milhão de flagelados (…), se deu na exata medida do enriquecimento de ‘amigos do peito’ do governador, com destaque para os proprietários da Dumbo Publicidade, responsável pela farsa do Ganhe Já, que manteve quase toda a imprensa amordaçada durante os quatro anos de governo pefelista.

Como tudo que cercou o Ganhe Já antes de sua falência total, a participação da empresa Informe Prestação de Serviços Ltda., terceirizada pela Dumbo Publicidade para executar a campanha, também é um mistério. E dos mais nebulosos. Contratada sem licitação, depois que o então secretário de Fazenda Manoel Pereira anulou inexplicavelmente a concorrência que havia sido aberta justamente para se escolher a firma que iria trabalhar no Ganhe Já, a Informe viveu sempre nas sombras.”

 

– Herdou do pai a concessão da TV Tropical, afiliada da Rede Record, presente dos generais do regime para o velho Tarcísio Maia.

– Além da TV Tropical, controla pelo menos cinco emissoras de rádio no Rio Grande do Norte.

– Utiliza, desavergonhadamente, o aparato midiático que dispõe (concessões públicas, registre-se) para fazer autopromoção e atacar adversários políticos.

– Levou uma surra da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) quando tentou constrangê-la na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em maio do ano passado, insinuando que a ministra estaria mentindo aos senadores porque admitira que mentiu, sob tortura, na ditadura militar. Ouviu, constrangido, a ministra dizer que, naquela época do regime dos generais, os dois (Dilma e Agripino) estavam em “lados diferentes”.

Essa é a pequena contribuição do blog para a retrospectiva política de José Agripino. Lamentavelmente, ninguém tocou em nenhum desses assuntos na festa de Jajá. Caberia à imprensa resgatar esses fatos do passado para lançar luz sobre o presente, levando a informação completa e contextualizada à sociedade. Mais uma vez, prevaleceu a subserviência aos poderosos.

Agripino passa cada vergonha…

O senador José Agripino (DEM-RN) é aquele que quis dar uma de escroto, mas saiu com o rabo entre as pernas quando disse, numa sessão da Comissão de Infra-Estrutura do Senado, em maio do ano passado, que a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) havia mentido na época da ditadura militar.

Teve que ouvir a ministra dizer: “Nós estávamos em lados diferentes naquela época, senador“. Dilma lutou contra a ditadura. Agripino serviu ao regime dos generais com devoção canina e chegou a ser nomeado prefeito biônico de Natal.

Agripino é um político arcaico, coronelista e anti-democrático. Na década de 1980, protagonizou o escândalo do “rabo-de-palha”, quando tentou fraudar as eleições na capital potiguar comprando o voto dos pobres “com uma feirazinha, com um enxoval, com umas coisinhas“, conforme revelado por gravações daquela época.

O líder dos demos é conhecido pelo estilo autoritário, arrogante e falastrão. Agripino é capaz dos maiores truismos, mas se acha um gênio por isso. Fora os babões que vivem ao seu redor ninguém o leva a sério.

Mas quando a gente pensa que Jajá atingiu o clímax, o senador vem e nos surpreende. Ao discursar nesta quarta (2) no plenário do Senado sobre as novas regras do pré-sal, ele se saiu com a seguinte jóia:

Qual é o meu receio? É que se esteja agora anunciando um novo marco regulatório que troca as concessões por uma lei de partilha, partilha que significa a volta à ingerência do Estado, que o presidente Lula, justifica. Tenho receio muito forte porque o pré-sal que está descoberto e meio quantificado em uma extensão de 800 km por 200 km de largura, do Espírito Santo a Santa Catarina, não é privilégio apenas do Brasil. Tenho informações de que há pré-sal nas costas de Angola.

Alguém entendeu o que ele quis dizer com isso? Nem eu.

É por essas e outras que digo que ninguém leva Agripino a sério. Jajá não cansa de passar vergonha.

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