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Honduras: golpistas foram vencidos pelo povo e pela história

A crise em Honduras caminha para um solução, com o enfraquecimento do governo golpista de Roberto Micheletti. O presidente legítimo, Manuel Zelaya, continua abrigado na embaixada brasileira em Tegucigalpa, enquanto espera uma saída para o quiprocó.

Micheletti revogou o decreto que colocou o país em estado de sítio, admitiu que a prisão de Zelaya foi ilegal e disse que os responsáveis serão punidos.

Mas 0 que teria operado essa mudança tão brusca no discurso golpista?

A chanceler legítima de Honduras, Patricia Rodas, em entrevista à Telesur, deu a dica: “O regime de fato hondurenho demonstra saber que foi vencido pelo nosso povo e pela história.”

Já Carlos Reina, porta-voz do presidente deposto, não confia no novo discurso conciliador de Micheletti: “Micheletti é repressor, mas com o discurso de quem quer dialogar”, declarou, em entrevista à Terra Magazine.

Nesta quarta (7), uma comitiva da Organização dos Estados Americanos (OEA) segue para Tegucigalpa na tentativa de negociar um acordo que encerre a crise no país da América Central.

Carlos Reina revelou-se pessimista quanto à possibilidade de entendimento e disse que não confia nas palavras de Micheletti. “Devemos advertir à OEA que talvez estejamos participando de mais uma enganação do governo golpista”, ponderou à Terra Magazine.

A OEA vai intermediar a assinatura do tratado de San José, proposto em julho passado pelo presidente costa-riquenho, Oscar Arias, prêmio Nobel da Paz.

Reina assegurou que Zelaya pretende assinar o acordo, mas deverá propor uma revisão do texto. De acordo com o porta-voz do presidente deposto, “existem aspectos [no acordo] que não têm razão de existir, como o adiantamento do processo eleitoral e o cronograma que pregava o retorno de Zelaya em 25 de julho. Em terceiro, queremos garantias internacionais e nacionais para o cumprimento do tratado.”

Leia a entrevista completa de Carlos Reina aqui.

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Ministro Celso Amorim massacra Alexandre Garcia

O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, massacrou Alexandre Garcia, aquele que é especialista em tudo, durante entrevista à Globo News, sobre a situação de Honduras, onde golpistas depuseram o presidente eleito do poder e fizeram do país um estado de exceção.

Entre muitas coisas, Celso Amorim lembrou que toda a comunidade internacional condenou o golpe em Honduras e apoiou o refúgio que a embaixada brasileira concedeu ao presidente deposto Manuel Zelaya. “Há uma unanimidade na comunidade internacional. Os únicos contra [a atuação do Brasil em Honduras] são alguns setores do Brasil“, destacou o ministro, perante um pálido representante do PIG.

Clique aqui para ver a entrevista na íntegra.

Ainda Honduras

O assunto Honduras ainda está rendendo. No post abaixo, transcrevi o artigo do jurista Dalmo Dallari, para quem não houve golpe naquele país da América Central.

Dalmo utiliza o argumento da “base jurídica” para justificar a deposição de Manuel Zelaya do poder: “o presidente deposto havia organizado um plebiscito, consultando o povo sobre sua pretensão de mudar a Constituição para que fosse possível a reeleição do presidente da República“.

O jurista cita a cláusula pétrea da Constituição de Honduras que proíbe a reeleição e determina que quem contrariar essa disposição ou propuser sua reforma deve ser afastado do cargo e perder o direito de exercer qualquer função pública por dez anos.

Dalmo parece concordar com Arnaldo Jabor, segundo quem houve apenas um “golpe democrático” em Honduras. Toda a argumentação do respeitável jurista se baseia numa mentira: Zelaya convocou um plebiscito para aprovar a reeleição.

Como já disse em outro post, o plebiscito convocado pelo presidente deposto não tratava de reeleição. Era somente uma consulta popular para saber se o povo concordava ou não com a convocação de uma Assembléia Constituinte. O referendo aconteceria no dia da eleição presidencial, marcada para novembro próximo. A situação de Zelaya não estaria em jogo na consulta.

Aprovada a convocação da Assembléia Constituinte, após sua instalação, é que começaria o debate sobre as mudanças na atual Carta Magna de Honduras e sobre a revogação da cláusula que proíbe a reeleição. Até lá, Zelaya já não seria mais presidente – portanto, não seria beneficiado se a tese da reeleição vencesse.

Tomo emprestadas, novamente, as palavras de Miguel do Rosário no Óleo do Diabo: “Não há “cláusula pétrea” que possa anular o que constitui a essência moral de uma democracia: o poder emana do povo, que o exerce através do sufrágio.” 

Não se trata aqui de ser a favor de Zelaya, mas sim da democracia. O golpe nunca pode ser colocado como alternativa. É curioso que toda a comunidade internacional condenou a deposição do presidente de Honduras, enquanto o Congresso, a Suprema Corte e as Forças Armadas, com apoio da maior parte da imprensa, defendem a legalidade do golpe.

Como dizer que não houve golpe, disfarçando-o com ares democráticos, se Zelaya não teve ao menos direito à defesa?

Como defender a representatividade de um governo que deixou o país em estado de síto, impôs o regime de excessão e reprimiu a liberdade de expressão?

Como admitir que uma ditadura substitua o governo de um presidente eleito pelo voto popular?

Cito novamente um trecho do artigo de Miguel do Rosário: “Se as elites e a mídia hondurenha queriam Zelaya fora do poder, então que construíssem um discurso político e encontrassem um candidato capaz de conquistar votos. O que ocorre é que, como as direitas políticas da América Latina não estão dispostas a realizar ações concretas no sentido de melhorar a vida dos pobres, elas não podem competir eleitoralmente com candidatos que estão dispostos a isso. É um pensamento medieval, claro. Parte da elite latino-americana, em função de seu racismo, de seu egoísmo, de sua degeneração, se recusa a enxergar que a melhoria social em seus países é condição necessária para o desenvolvimento econômico.”

O contraditório

Democraticamente, o blog aceita a sugestão do leitor Esdras e transcreve artigo do jurista Dalmo Dallari, originalmente publicado no Observatório da Imprensa, sobre a crise em Honduras.

Dalmo diz que não houve golpe em Honduras, afirma que o “fundamento legal” da deposição do presidente eleito está sendo omitido e sustenta que “Zelaya estava atentando contra a normalidade jurídica e a democracia em Honduras.”

Leiam o texto na íntegra (em seguida comento):

 

CRISE EM HONDURAS

O fundamento legal omitido

Por Dalmo de Abreu Dallari em 30/9/2009

 

Quando a imprensa afirma que um ato de autoridade foi inconstitucional ou ilegal deve apontar qual o artigo da Constituição ou da lei que foi desrespeitado, para permitir aos destinatários da notícia sua própria avaliação e uma possível reação bem fundamentada. De modo geral a ofensa à Constituição e às leis é sempre grave, num Estado Democrático de Direito. A par disso, toda a cidadania tem o direito de controlar a legalidade dos atos das autoridades públicas e para tanto precisa estar bem informada.

Um caso atual e patente de imprecisão nas informações está dificultando ou distorcendo a avaliação dos acontecimentos de Honduras. Grande parte da imprensa brasileira apresenta o presidente deposto Manuel Zelaya como vítima inocente de golpistas, mas quase nada tem sido informado sobre os aspectos jurídicos do caso.

Uma omissão importante, que vem impedindo uma avaliação bem fundamentada dos acontecimentos, é o fato de não ter sido publicada pela imprensa a fundamentação constitucional precisa da deposição de Zelaya, falando-se genericamente em “golpistas” sem informar quem decidiu tirá-lo da presidência, por que motivo e com qual fundamento jurídico. Esses elementos são indispensáveis para a correta avaliação dos fatos.

Alternância obrigatória

Com efeito, noticiou a imprensa que a Suprema Corte de Honduras ordenou que o Exército destituísse o presidente da República. É surpreendente e suscita muitas indagações a notícia de que ele foi deposto pelo Exército por ordem da Suprema Corte. Pode parecer estranha a obediência do Exército ao Judiciário para a execução de tarefa que afeta gravemente a ordem política, o que, desde logo, recomenda um exame mais cuidadoso das circunstâncias, para constatar se o que ocorreu em Honduras foi mais um caso de golpe de Estado.

É necessária uma análise atenta, para saber de onde vem a força da Suprema Corte para ordenar a deposição de um presidente eleito e ser obedecida pelo Exército. A par disso, é importante procurar saber por que motivo e com que base jurídica a Suprema Corte tomou sua decisão e ordenou ao Exército que a executasse.

Segundo o noticiário dos jornais, o presidente deposto havia organizado um plebiscito, consultando o povo sobre sua pretensão de mudar a Constituição para que fosse possível a reeleição do presidente da República, sendo oportuno observar que este seria o último ano do mandato presidencial de Zelaya.

Ora, está em vigor em Honduras uma lei, aprovada pelo Congresso Nacional, proibindo consultas populares 180 dias antes e depois das eleições – e estas estão convocadas para o mês de novembro. Foi com base nessa proibição que a consulta montada por Zelaya foi declarada ilegal pelo Poder Judiciário.

Um dado que deve ser ressaltado é que a Constituição de Honduras estabelece expressamente, no artigo 4º, que a alternância no exercício da Presidência da República é obrigatória. Pelo artigo 237 o mandato presidencial é de quatro anos, dispondo o artigo 239 que o cidadão que tiver desempenhado a titularidade do Poder Executivo não poderá ser presidente ou vice-presidente no período imediato.

Informações incompletas

Outro ponto de extrema relevância é que a Constituição hondurenha não se limita a estabelecer a proibição de reeleição, mas vai mais longe. No mesmo artigo 239, que proíbe a reeleição, está expresso que quem contrariar essa disposição ou propuser sua reforma, assim como aqueles que o apóiem direta ou indiretamente, cessarão imediatamente o desempenho de seus respectivos cargos e ficarão inabilitados por dez anos para o exercício de qualquer função pública.

Reforçando essa proibição, dispõe ainda a Constituição, no artigo 374, que não poderão ser reformados, em caso algum, os artigos constitucionais que se referem à proibição de ser novamente presidente. Essa é uma cláusula pétrea da Constituição.

Foi com base nesses dispositivos expressos da Constituição que a Suprema Corte considerou inconstitucional a consulta convocada pelo presidente da República e fez aplicação do disposto no artigo 239, afastando-o do cargo.

Note-se que a Constituição é omissa quanto ao processo formal para esse afastamento, o que deve ter contribuído para um procedimento desastrado na hora da execução. Tendo em conta que o respeito à Constituição é fundamental para a existência do Estado Democrático de Direito, não há dúvida de que Zelaya estava atentando contra a normalidade jurídica e a democracia em Honduras. A falta de informações completas e precisas sobre a configuração jurídica está contribuindo para conclusões apressadas que desfiguram a realidade.

 

Honduras: a ditadura envergonhada

Pressionado, o ditador que comanda o governo golpista de Honduras, Roberto Micheletti, admitiu que poderá rever o decreto que transformou o país num estado de exceção, impôs o toque de recolher e fechou emissoras de rádio e TV contrárias ao golpe.

Micheletti, agora, diz que aceita negociar, admite a volta do Manuel Zelaya ao poder — caso o presidente deposto aceite se submeter a julgamento — e  após impedir a entrada no país de representantes da Organização do Estados Americanos (OEA), convidou os diplomatas para conversar.

O ditador de plantão também mudou o tom com o Brasil. Depois de dar um ultimato para que o governo brasileiro definisse o status de Zelaya, abrigado na embaixada brasileira em Tegucigalpa desde 21 de setembro, Micheletti baixou o tom e mandou um “abraço” ao presidente Lula.

Lula havia respondido à ameaça afirmando que o Brasil “não recebe ultimato de golpistas nem reconhece o governo de Honduras como interino”.

Em artigo na Folha de S. Paulo, transcrito logo abaixo, Elio Gaspari disse que Lula agiu certo ao não se intimidar com as ameaças dos “usurpadores do poder” e destacou que o Brasil “é inimigo do golpismo”:

 

O Brasil de Lula é inimigo do golpismo


Nosso Guia fez o certo, a praga das 300 quarteladas do século passado precisa de uma vacina


LULA DISSE bem: “O Brasil não acata ultimato de governo golpista. E nem o reconheço como um governo interino (…) O Brasil não tem o que conversar com esses senhores que usurparam o poder”.
Os golpistas hondurenhos depuseram um presidente remetendo-o, de pijama, para outro país, preservam-se à custa de choques de toque de recolher e invadiram emissoras. Eles encarnam praga golpista que infelicitou a América Latina por quase um século. Foram mais de 300 as quarteladas, uma dúzia das quais no Brasil, que resultaram em 29 anos de ditaduras. Na essência, destinaram-se a colocar no poder interesses políticos e econômicos que não tinham votos nem disposição para respeitar o jogo democrático.
Decide-se em Honduras se a praga ressurge ou se foi para o lixo da história. Nesse sentido, o governo de Nosso Guia tem sido um fator de estabilidade para governos eleitos democraticamente. Se o Brasil deixasse, os secessionistas de Santa Cruz de La Sierra já teriam defenestrado Evo Morales. Lula inibiu a ação do lobby golpista venezuelano em Washington. Se o Planalto soprasse ventos de contrariedade, o mandato do presidente paraguaio Fernando Lugo estaria a perigo.
Para quem acredita que a intervenção diplomática é uma heresia, no Paraguai persiste a gratidão a Fernando Henrique Cardoso por ter conjurado um golpe contra Juan Carlos Wasmosy em 1996. Em todos os casos, a ação do Brasil buscou a preservação de governos eleitos pela vontade popular.
No século do golpismo dava-se o contrário. Em 1964, o governo brasileiro impediu o retorno de Juan Perón a Buenos Aires obrigando-o a voltar para a Europa quando seu avião pousou para uma escala no Galeão.
A ditadura militar ajudou generais uruguaios, bolivianos e chilenos a sufocar as liberdades públicas em seus países. (Fazendo-se justiça, em 1982 o general João Figueiredo meteu-se nos assuntos do Suriname, evitando uma invasão americana. Ele convenceu o presidente Ronald Reagan a botar o revólver no coldre. Nas suas memórias, Reagan registrou a sabedoria da diplomacia brasileira.)
O “abrigo” dado ao presidente Manuel Zelaya pelo governo brasileiro ofende as normas do direito de asilo. Pior: a transformação da Embaixada do Brasil em palanque é um ato de desrespeito explícito. Já o cerco militar de uma representação diplomática é um ato de hostilidade. Fechar a fronteira para impedir a entrada no país de uma delegação da OEA é coisa de aloprados. A essência do problema continua a mesma: o presidente de Honduras, deportado no meio da noite, deve retornar ao cargo, como pedem a ONU e a OEA.
Lula não deve ter azia com os ataques que sofre por conta de sua ação. Juscelino Kubitschek comeu o pão que Asmodeu amassou porque deu asilo ao general português Humberto Delgado. Amaciou sua relação com a ditadura salazarista e, com isso, o Brasil tornou-se um baluarte do fascismo português. Ernesto Geisel foi acusado de ter um viés socialista porque restabeleceu as relações do Brasil com a China e reconheceu o governo do MPLA em Angola.
As cartas que estão na mesa são duas: o Brasil pode ser um elemento ativo para a dissuasão de golpismo, ou não. Nosso Guia escolheu a carta certa.

O golpe em Honduras e a desonestidade do PIG

O blog reproduz o comentário do leitor Gustavo Lucena, que se diz impressionado com a desonestidade que a imprensa brasileira dedica à cobertura do golpe em Honduras:

 

Alysson Almeida, impressiona é a desonestidade da imprensa brasileira, em especial daquela filiada a Grande Quadrilha (Civita, Marinho, Frias e Mesquita). Os caras são tão desonestos que dizem que o golpe foi legítimo porque foi embasado na Constituição local e que o judiciário local deu respaldo ao golpe. No entanto, a gente acessa a constituição hondurenha e os portais dos judiciários e não encontra nada a respeito. Pergunto a esses palhaços: Qual é o número dos autos que promoveu o processo de destituição do Zelaya? Zelaya foi citado para se defender? O mais engraçado é que aqui no RN também tem uns patetas que fazem cara de conteúdo e querem fazer defesa abalizada ao golpismo. Basta abrir as páginas do Jornal de Hoje e escutar as bravatas na 95FM e na 103,9 FM, além de é claro, ligar na TV Tropical. É por conta desses palhaços que o STF decidiu que não é mais necessário ter diploma para ser jornalista. As faculdades – ministradas por essa mesma corja do PIG – não estavam ensinando os acadêmicos os princípios mais basilares do bom jornalismo: ética, democracia, contraditório e imparcialidade. As faculdades estavam servindo como meros cooptadores de pobres coitados e coitadas dispostos a doarem não só as mentes, mas também o próprio órgão sexual para ganharem um punhado de reais. Alysson Almeida, impressiona é a desonestidade da imprensa brasileira, em especial daquela filiada a Grande Quadrilha (Civita, Marinho, Frias e Mesquita). Os caras são tão desonestos que dizem que o golpe foi legítimo porque foi embasado na Constituição local e que o judiciário local deu respaldo ao golpe. No entanto, a gente acessa a constituição hondurenha e os portais dos judiciários e não encontra nada a respeito. Pergunto a esses palhaços: Qual é o número dos autos que promoveu o processo de destituição do Zelaya? Zelaya foi citado para se defender? O mais engraçado é que aqui no RN também tem uns patetas que fazem cara de conteúdo e querem fazer defesa abalizada ao golpismo. Basta abrir as páginas do Jornal de Hoje e escutar as bravatas na 95FM e na 103,9 FM, além de é claro, ligar na TV Tropical. É por conta desses palhaços que o STF decidiu que não é mais necessário ter diploma para ser jornalista. As faculdades – ministradas por essa mesma corja do PIG – não estavam ensinando os acadêmicos os princípios mais basilares do bom jornalismo: ética, democracia, contraditório e imparcialidade. As faculdades estavam servindo como meros cooptadores de pobres coitados e coitadas dispostos a doarem não só as mentes, mas também o próprio órgão sexual para ganharem um punhado de reais.

A retórica golpista

É divertido ver a turma do PIG fazendo patinação retórica para apoiar, sem admitir explicitamente, o golpe militar que depôs o presidente de Honduras, Manuel Zelaya.  

Reinaldo Azevedo, o blogueiro da Veja, é o mais aplicado. Ele se supera em matéria de reacionarismo e desonestidade intelectual.

Após sucessivas tentativas de descaracteizar o golpe, o blogueiro se viu contra a parede quando Roberto Micheletti, o ditador hondurenho, decretou o fim dos direitos constitucionais, restringiu as liberdades de circulação e expressão e fechou emissoras de rádio e TV.

Diante do decreto arbitrário que instituiu o estado de sítio, já apelidado de “AI-5 de Honduras”, Reinaldo Azevedo disse que eram “medidas de defesa” e negou que o país da América Central estivesse sob controle de uma ditadura.

Esperar o quê desse farsante? Reinaldo tem um conceito de democracia bem peculiar: democracia é bem-vinda, desde que não mexa com o status cuo.

Em sua luta para dar ares legais ao golpe, sustenta que a “cláusula pétrea” da Constituição de Honduras proíbe a realização de plebiscitos. O patife esquece, porém, que democracia sem soberania popular é apenas uma farsa.

No Óleo do Diabo, Miguel do Rosário aprofunda esse ponto: “Não há “cláusula pétrea” que possa anular o que constitui a essência moral de uma democracia: o poder emana do povo, que o exerce através do sufrágio.

Reinaldo, como o resto do PIG, justifica o golpe alegando que Zelaya pretendia mudar a Constituição de Honduras para se candidatar à reeleição. É enganação das mais baratas. O plebiscito convocado pelo presidente deposto não tratava de reeleição, mas sobre a convocação ou não de uma Assembléia Constituinte, que decidiria sobre a possibilidade de reeleição.

Ainda que essa tese viesse a ser aprovada, só entraria em vigor nas próximas eleições. Portanto, Zelaya não poderia se candidatar à reeleição agora. Por que não informar isso às pessoas? Por que distorcer a realidade?

Honduras: a ditadura escancarada

O governo golpista de Honduras, liderado pelo ditador Michelleti, mostrou a verdadeira face: mandou fechar emissoras de TV, suspendeu garantias constitucionais e restringiu as liberdades de circulação e expressão, entre outras arbitrariedades.

É esse governo que a imprensa brasileira chama “governo de fato” ou “governo interino”, como se isso legitimasse o golpe militar que depôs o verdadeiro presidente daquele país – golpe que Arnaldo Jabor chamou de “democrático”.

Agora a ditadura ficou escancarada. Honduras vive um regime de exceção. O golpista Roberto Michelleti deu um ultimato de dez dias para o Brasil definir o status do presidente deposto Manuel Zelaya, refugiado na embaixada brasileira em Tegucigalpa desde o último dia 21. O presidente Lula respondeu à altura: “O Brasil não aceita ultimato de golpistas nem reconhece esse governo como interino”.

Enquanto isso, os apoiadores do golpe se esforçam para negar a ditadura que se instalou em Honduras. Os malabarismos de Reinaldo Azevedo são de morrer de rir.

Honduras

É vergonhosa  a forma como a mídia conservadora brasileira vem tratando o episódio do golpe em Honduras. Há uma tentativa grotesca de justificar o injustificável. No “Jornal da Globo”, Arnaldo Jabor chegou a chamar a deposição do presidente legitimamente eleito Manuel Zelaya de “golpe democrático”.

O ranso reacionário ficou mais evidente depois que Manuel Zelaya se refugiou na embaixada brasileira em Tegucigalpa, capital de Honduras. A mídia tupiniquim, demonstrando sua inequívoca vocação povinciana, condenou a concessão do refúgio, assumiu a defesa dos golpistas e acusou a diplomacia brasileira de interferir na soberania de Honduras.

Para usar as palavras do Guilherme Scalzilli, nossa mídia se comporta como o colonizado jeca que tem “vergonha de ser brasileiro e defende que o país ocupe seu lugar na latrina do mundo subalterno”.

Aproveito para transcrever abaixo o excelente artigo do Leandro Fortes sobre os malabarismos que nossa mídia usa para se referir ao golpe militar em Honduras:

 

Sem olhos em Tegucigalpa

O jornalismo está abandonando, aos poucos, por motivos inconfessáveis, a valorização das personagens como elemento de narrativa. Emblemático é o caso de Honduras, um catalisador profundo das intenções de setores da imprensa cada vez mais perfilados em bloco sobre um ensaiado viés chavista (a nova panacéia editorial do continente) aplicado ao noticiário toda vez que um movimento de esquerda se insinua sobre velhos latifúndios – físicos e imateriais. Para tal, recorre-se cada vez mais a malabarismos de linguagem para se referir ao golpe militar que derrubou o presidente constitucionalmente eleito Manuel Zelaya.

Por conta disso, o governo golpista passou a ser chamado, aqui e acolá, de “governo de fato”, uma solução patética encontrada por alguns veículos para se referir a uma administração firmada na fraude eleitoral e na usurpação pura e simples de poder. Há, ainda, quem se refira à quadrilha de Roberto Micheleti como “governo interino”, o que só pode ser piada. Itamar Franco foi interino, esse é o beabá, até tornar-se “de fato” com o impedimento e a renúncia de Fernando Collor de Mello, mas isso não deu a ninguém o direito de, a partir de então, nomeá-lo “presidente de fato” ou chefe de um “governo de fato”. Se é governo, é de fato. Se assim não for, ou é interino, ou é golpista.

Não deixa de ser divertido o inglório exercício a que se dedica certa direita nacional envergonhada, pronta a converter em golpe de Estado a intenção do presidente (de fato, pero no mucho) Zelaya de convocar os hondurenhos a decidir, por plebiscito, a possibilidade de uma reeleição que sequer serviria a ele. Possível até que servisse à oposição – a mesma que lhe seqüestrou de pijama, o enfiou num avião e o desovou na Costa Rica. Talvez preferissem que ele tivesse comprado votos para se reeleger. Esse tipo de crime é, historicamente, melhor digerido pela mídia brasileira.

Essa gente não pode e não deve ser chamada de “governo de fato”, muito menos “interino”. Essa gente tem nome: golpistas. Bandoleiros políticos que estão, corajosamente, sendo confrontados pela diplomacia brasileira que, além de lhe condenar em todos os foros internacionais, deu abrigo a Zelaya na embaixada. Lá, o presidente (de verdade) se encontra protegido e alimentado, a causar saudável constrangimento aos golpistas que o defenestraram de Tegucigalpa, essa cidade de sonoro nome maia que, de uma hora para outra, tornou-se mundialmente popular no rastro de um vexame.

Mas comecei falando da importância de haver personagens no texto jornalístico e acabei me perdendo em necessários devaneios, porque no contexto da crise hondurenha se inclui uma cobertura, basicamente, desumana. Não no sentido da esperada brutalidade ideológica disseminada por jornais e jornalistas conservadores e, vá lá, liberais. Mas por não atentar diretamente para o fator humano estacionado nas ruas, manifestantes com as mãos perto do fogo aceso pelo golpe, sujeitos a tiros e bordoadas apenas para dizer “não”. Eu gostaria muito de saber quem são essas pessoas, mas tudo que se fala delas vem em números. Num dia, são 100 em frente à embaixada, no outro, são duas mil. Variam de dezenas a milhares da noite para o dia, sem que qualquer explicação sobre elas nos seja minimamente concedida.

Não é preciso muita sensibilidade para perceber que a chave (não Chávez!) para a compreensão do golpe em Honduras está nos hábitos e na cultura desses desconhecidos tegucigalpenses (ou seriam tegucigalpanos?). Falta quem lhes pergunte sobre os verdadeiros sentimentos desencadeados com o golpe, justo quando o mundo todo acreditava que o expediente das quarteladas jazia, para nunca mais, no túmulo dos tristes folclores latino americanos. São as personagens, sobretudo nas tragédias, que conjugam fatos e sentimentos de modo a permitir a nós, os indivíduos, compartilhar sonhos e loucuras. Daí a importância de prestar atenção nelas.

Até agora, a única personagem “de fato” é o próprio Manuel Zelaya, aliás, de figurino impagável, chapéu de cowboy sobre os cabelos escandalosamente tingidos, tal qual o bigode pouco alentador, na indisfarçável tonalidade das asas da graúna.

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