Embolando Palavras

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Folha publica comentário preconceituoso contra nordestinos

Uma pequena matéria postada no site da Folha.com, sobre o desafio que o ex-presidente FHC fez ao seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva, convidando-o a disputar outra eleição contra ele, rendeu quase 1200 comentários. Em entrevista a um programa de rádio, FHC mandou o seguinte recado para Lula: “Ele se esquece que eu o derrotei duas vezes. Quem sabe ele queira uma terceira. Eu topo.

O devaneio de FHC, porém, tem pouca — para não dizer nenhuma — importância. O que despertou minha atenção e indignação foi o comentário de um leitor, identificado como Ivo Antonio, prontamente publicado pela Folha.com.

Eleitor declarado do tucano, Ivo se referiu aos nordestinos, em tom pejorativo, como aqueles que “tem (sic) como prato preferido farinha e de sobremesa rapadura” e completou afirmando que, se os moradores dessa região não pudessem votar, FHC derrotaria Lula.

SE OS QUE TEM COMO PRATO PREFERIDO FARINHA E DE SOBREMESA RAPADURA. NAO PODER VOTAR. E CONTAR MENTIRA.(onde o molusco e imbativel) ABRO APOSTO E DOU 2 POR 1 A FAVOR DO FHC“, escreveu o leitor, que, como se vê, não domina bem as normas gramaticais.

O comentário reflete o velho preconceito que vigora em camadas do Sul e do Sudeste do Brasil contra os habitantes do Norte e do Nordeste. Ele não citou os nordestinos, mas ao mencionar a farinha e a rapadura, dois ingredientes muito usados na culinária regional, deixou explícito a quem estava se referindo.

Particularmente, não considero ofensa ser chamado de comedor de farinha ou de rapadura. Tenho orgulho da minha condição de nordestino, da herança cultural dessa terra e da capacidade de resistência desse povo historicamente esquecido. Não custa lembrar as sábias palavras de Euclides da Cunha, segundo quem “O sertanejo é, antes de tudo, um forte“.

Mas o comentário do leitor da Folha.com nada tem a ver com o reconhecimento da riqueza cultural dos nordestinos — o que inclui os elementos da nossa culinária, com seus cheiros e sabores apreciados por gente do mundo inteiro. Ele destilou preconceito em cada palavra. É o típico pensamento de setores do Sul e do Sudeste que se julgam superiores aos habitantes das demais regiões do país.

Na eleição de 2010, esse pensamento aflorou com força. Inconformados com a derrota de José Serra (PSDB), os conservadores propagaram a falsa tese de que Dilma Rousseff (PT) só teria sido eleita em função dos votos do Norte e do Nordeste. Mas um levantamento com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelou que a petista derrotaria o tucano mesmo se fossem computados apenas os votos do Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

A xenofobia da elite e da classe média burguesa do Sul e do Sudeste contra os nordestinos não é novidade. Em São Paulo, há um movimento batizado de “SP para Paulistas” que, em manisfesto na internet, defende, entre outros pontos, limites à migração nordestina.

Uma das integrantes do movimento, a estudante de Direito Mayara Petrusco declarou no Twitter, logo após a vitória de Dilma, que “nordestino não é gente, faça um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado“. A declaração lhe rendeu  uma denúncia junto ao Ministério Público Federal, apresentada pela Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional de Pernambuco (OAB-PE). Para a entidade, o ato configurava os crimes de racismo e de incitação pública à pratica delituosa, no caso, homicídio.

Outra integrante do movimento, a atendente de suporte técnico Fabiana Pereira, 35 anos, afirmou que “São Paulo sustenta o Bolsa Família”, o que, em sua opinião, contribui para atrair nordestinos para a cidade. “São Paulo sustenta e eles (nordestinos) decidem quem vai nos governar”, declarou a jovem, em entrevista à Terra Magazine.

O próprio José Serra, quando era governador de São Paulo, em entrevista ao SP TV da Rede Globo, chegou a culpar os migrantes nordestinos pela baixa qualidade de ensino em seu Estado.

É lamentável que isso ainda ocorra no Brasil. É igualmente lamentável que políticos utilizem deste artifício para conquistar votos. Mas é ainda mais triste que veículos como a Folha abram espaço para esses xenófobos exalarem seu preconceito.

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Rodrigo Vianna: “FHC quer o subtucanismo sem povo”

Do Escrevinhador

Em algum momento, lá pelo fim do segundo mandato de Lula, quando o presidente operário bateu em níveis inacreditáveis de popularidade, FHC foi tomado pelo pânico. Escreveu, então, um artigo (acho que no “Estadão”) qualificando o lulismo de “subperonismo”.

Quem conhece a Argentina e o Brasil sabe que no país vizinho Perón é uma presença ainda hoje dominante na política. Curioso: os argentinos desmontaram o Estado criado por Perón (e o autor do desmonte foi, esse sim, um subperonista – Carlos Menem, homem de costeletas largas e pensamentos curtos), mas o peronismo persiste como referência quase mítica no discurso político.

Nós, brasileiros, somos mais pragmáticos. Aqui, Vargas praticamente sumiu do imaginário popular. Mas sobrevive no Estado brasileiro – que FHC tentou desmontar. Vocês se lembram? Em 94, pouco antes de assumir a presidência, o tucano disse que uma das tarefas no Brasil era “enterrar a era Vargas”. Não conseguiu. Vargas sobrevive no BNDES, na Previdência Social, no salário-mínimo, na Petrobrás, nos sindicatos. O Brasil moderno foi construído sobre os alicerces deixados por Vargas. FHC gostaria de tê-los dinamitado.

Agora, o ex-presidente tucano reaparece. Não para tentar desqualificar o lulismo. Mas para lançar um alerta. Ele teme que as “oposições” se percam ”no burburinho [êpa, cuidado Stanley!!!] das maledicências diárias sem chegar aos ouvidos do povo“…. E pede que os tucanos deixem pra lá essa história de falar com o povão, e concentrem-se nas classes médias.

Literalmente, em artigo que acaba de ser publicado, o ex-presidente afirma:

“Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os “movimentos sociais” ou o “povão”, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos. Isto porque o governo “aparelhou”, cooptou com benesses e recursos as principais centrais sindicais e os movimentos organizados da sociedade civil e dispõe de mecanismos de concessão de benesses às massas carentes mais eficazes do que a palavra dos oposicionistas, além da influência que exerce na mídia com as verbas publicitárias.”

FHC lança, assim, as bases do “subtucanismo”.

Em algum momento, quando ainda estava no poder, ele havia dito: “esqueçam o que escrevi”. Agora, escreve: “esqueçam o povão”.

Mas o subtucanismo de FHC não deve ser desprezado. Ele parte de uma constatação real, concreta. A de que a oposição (que se refugiou no discurso moralista da classe média) pode perder também esse quinhão. O ex-presidente e ex-sociólogo afirma que a tarefa da oposição é de uma “complexidade crescente a partir dos primeiros passos do governo Dilma que, com estilo até agora contrastante com o do antecessor, pode envolver parte das classes médias.”

Aqui nesse blog, ainda nas primeiras semanas de governo Dilma, escrevi um pequeno texto, intitulado “PT rumo ao centro e oposição na UTI”. Duvido que FHC tenha se rebaixado, e lido o subjornalismo que aqui praticamos. Mas, curiosamente, era mais ou menos isso que eu afirmava naquele post:

É um movimento claro: Lula já ocupara a esquerda e a centro-esquerda; agora, o projeto petista expande-se alguns graus mais – rumo ao centro! Isso sufoca a direita e a oposição.

Minha subanálise, baseada em subobservações dos primeiros movimentos de Dilma, avançava um pouco mais:

Lula e Dilma jogam de tabelinha. Ele mantém apoio forte entre a “esquerda tradicional”, e também entre sindicalistas e movimentos sociais, além do povão deserdado que vê em Lula um novo “pai dos pobres”. Ela joga para a classe média urbana e pragmática que – em parte – preferiu Marina no primeiro turno de 2010. Dilma, com essas ações, deixa muita gente confusa e irritada na esquerda. Mas reconheça-se: é estratégia inteligente.

Carta Capital: Relatório da PF não confirma “mensalão”

Por Leandro Fortes

O escândalo do mensalão voltou à cena. Em páginas recheadas de gráficos, infográficos, tabelas e quadros de todos os tipos e tamanhos, a revista Época anunciou, na edição que chegou às bancas no sábado 2, ter encontrado a pedra fundamental da mais grave crise política do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entre 2005 e 2006. Com base em um relatório sigiloso da Polícia Federal, encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, a  semanal da Editora Globo concluiu sem mais delongas: a PF havia provado a existência do mensalão e o uso de dinheiro público no esquema administrado pelo publicitário Marcos Valério de Souza. Outro aspecto da reportagem chamada atenção: o esforço comovente em esconder o papel do banqueiro Daniel Dantas no financiamento do valerioduto. Alguns trechos pareciam escritos para beatificar o dono do Opportunity, apresentado como um empresário achacado pela sanha petista por dinheiro.

As provas do descalabro estariam nas 332 páginas do inquérito 2.474, tocado pelo delegado Luiz Flávio Zampronha, da Divisão de Combate a Crimes Financeiros da PF e encaminhado ao ministro Joaquim Barbosa, relator no STF do processo do  “mensalão”. Inspirados no relato de Época,  editorialistas, colunistas e demais istas não tiveram dúvidas: o mensalão estava provado. Estranhamente, a mesma turma praticamente silenciou a respeito dos trechos que tratavam de Dantas.

Infelizmente, os leitores de Época não foram informados corretamente a respeito do conteúdo do relatório escrito, com bastante rigor e minúcias, pelo delegado Zampronha. Em certa medida, sobretudo na informação básica mais propalada, a de que o “mensalão” havia sido confirmado, esses mesmos leitores foram enganados. Não há uma única linha no texto que confirme a existência do tal esquema de pagamentos mensais a parlamentares da base governista em troca de apoio a projetos do governo no Congresso Nacional.

Ao contrário. Em mais de uma passagem, o policial faz questão de frisar que o inquérito, longe de ser o “relatório final do mensalão”, é uma investigação suplementar do chamado “valerioduto”, solicitada pela Procuradoria Geral da República, para dar suporte à denúncia inicial, esta sim baseada na tese dos pagamentos mensais. Trata, portanto, da complexa rede de arrecadação, distribuição e lavagem de dinheiro sujo montada por Marcos Valério. Zampronha teve, inclusive, o trabalho de relatar como esse esquema a envolver financiamento ilegal de campanha e lobbies privados começou em 1999, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, e terminou em 2005, na administração Lula, após ser denunciado pelo deputado Roberto Jefferson, do PTB. Ao longo do texto, fica clara a percepção do delegado de que nunca houve “mensalão” (o pagamento mensal a parlamentares), mas uma estratégia mafiosa de formação de caixa 2 e que avançaria sobre o dinheiro público de forma voraz caso não tivesse sido interrompida pela eclosão do escândalo.

Na quarta-feira 6, CartaCapital teve acesso ao relatório. Para não tornar seus leitores escravos da interpretação exclusiva da reportagem que se segue, decidiu publicar na internet (www.cartacapital.com.br) a íntegra do documento. Assim, os interessados poderão tirar suas próprias conclusões. Poderão verificar, por exemplo, que o delegado ateve-se a identificar as fontes de financiamento do valerioduto. E mais: notar que Dantas é o principal alvo do inquérito.

Ao contrário do que deu a entender a revista Época, não se trata do “relatório final” sobre o mensalão. Muito menos foi encomendado pelo ministro Barbosa para esclarecer “o maior escândalo de corrupção da República”, como adjetiva a semanal. Logo na abertura do relatório, Zampronha faz questão de explicar – e o fará em diversos trechos: a investigação serviu para consolidar as informações relativas às operações financeiras e de empréstimos fajutos do “núcleo Marcos Valério”. Em seguida, trata, em 36 páginas (mais de 10% de todo o texto), das relações de Marcos Valério com Dantas e com os petistas. À página 222, anota, por exemplo: “Pelos elementos de prova reunidos no presente inquérito, contata-se que Marcos Valério atuava como interlocutor do Grupo Opportunity junto a representantes do Partido dos Trabalhadores, sendo possível concluir que os contratos (de publicidade) realmente foram firmados a título de remuneração pela intermediação de interesse junto a instâncias governamentais”.

O foco sobre Dantas não fez parte de uma estratégia pessoal do delegado. No fim do ano passado, a Procuradoria Geral da República determinou à PF a realização de diligências focadas no relacionamento do valerioduto com as empresas Brasil Telecom, Telemig Celular e Amazônia Celular.  As três operadoras de telefonia, controladas à época pelo Opportunity, mantinham vultosos contratos com as agências DNA e SMP&B de Marcos Valério. Zampronha solicitou todos os documentos referentes a esses pagamentos, tais como contratos, recibos, notas fiscais e comprovantes de serviços prestados. A conclusão foi de que a dupla Dantas-Valério foi incapaz de comprovar os serviços contratados.

As análises financeiras dos laudos periciais encomendados ao Instituto Nacional de Criminalística da PF revelaram que, entre 1999 e 2002, no segundo governo FHC, apenas a Telemig Celular e a Amazônia Celular pagaram às empresas de Marcos Valério, via 1.169 depósitos em dinheiro, um total de 77,3 milhões de reais. Entre 2003 e 2005, no governo Lula, esses créditos, consumados por 585 depósitos das empresas de Dantas, chegaram a 87,4 milhões de reais. Ou seja, entre 1999 e 2005, o banqueiro irrigou o esquema de corrupção montado por Marcos Valério com nada menos que 164 milhões de reais. O cálculo pode estar muito abaixo do que realmente pode ter sido transferido, pois se baseia no que os federais conseguiram rastrear.

Segundo o relatório, existem triangulações financeiras típicas de pagamento de propina e lavagem de dinheiro. Em uma delas, realizada em 30 de julho de 2004, a Telemig Celular pagou 870 mil reais à SMP&B, depósito que se somou a outro, de 2,5 milhões de reais, feito pela Brasil Telecom. O total de 3,4 milhões de reais serviu de suporte para transferências feitas em favor da empresa Athenas Trading, no valor de 1,9 milhão de reais, e para a By Brasil Trading, de 976,8 mil reais, ambas utilizadas pelo esquema de Marcos Valério para mandar dinheiro ao exterior por meio de operações de câmbio irregulares, de modo a inviabilizar a identificação dos verdadeiros beneficiários dos recursos. Em consequência, Zampronha repassou ao Ministério Público Federal a função de investigar se houve efetiva prestação de serviços por parte das agências de Marcos Valério às empresas controladas pelo Opportunity.

A principal pista da participação de Dantas na irrigação do valerioduto surgiu, porém, a partir de uma auditoria interna da Brasil Telecom, realizada em 2006. Ali demonstrou-se que, às vésperas da instalação da CPMI dos Correios, em 2005, na esteira do escândalo do “mensalão” e no momento em que a permanência do Opportunity no comando da telefônica estava sob ameaça, a DNA e a SMP&B celebraram com a BrT contratos de 50 milhões de reais. Dessa forma, as duas empresas de Marcos Valério puderam, sozinhas, abocanhar 40% da verba publicitária da Brasil Telecom. Isso sem que a área de marketing da operadora tivesse sido  consultada.

Ao delegado, Dantas afirmou que, a partir de 2000, ainda no governo FHC, passou a “sofrer pressões” da italiana Telecom Italia, sócia da BrT. Em 2003, já no governo Lula, o banqueiro afirma ter sido procurado pelo então ministro-chefe da Casa Civil, o ex-deputado José Dirceu, com quem teria se reunido em Brasília.

Na conversa com Dirceu, afirma Dantas, o ministro teria se mostrado interessado em resolver os problemas societários da BrT e encerrar o litígio do Opportunity com os fundos de pensão de empresas estatais. O Palácio do Planalto teria escalado o então presidente do Banco do Brasil, Cassio Casseb, para cuidar do assunto. Casseb viria a ser um dos alvos da arapongagem da Kroll a pedido do Opportunity. O caso, que envolveu a espionagem de integrantes do governo FHC e da administração Lula, baseou a Operação Chacal da PF em 2004.

Dantas afirmou ter se recusado a “negociar” com o PT. Após a recusam acrescenta, as pressões aumentaram e ele teria começado a ser perseguido pelo governo. Mas o banqueiro não foi capaz de provar nenhuma das acusações, embora seja claro que petistas se aproveitaram da guerra comercial na telefonia para extrair dinheiro do orelhudo. Só não sabiam com quem se metiam. Ou sabiam?

O fundador do Opportunity também repetiu a versão de que um de seus sócios, Carlos Rodemburg, havia sido procurado pelo então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, acompanhado de Marcos Valério, para ser informado de um déficit de 50 milhões de reais nas contas do partido. Teria sido uma forma velada de pedido de propina, segundo Dantas, nunca consolidado. O próprio banqueiro, contudo, admitiu que Delúbio não insinuou dar nada em troca da eventual contribuição solicitada. Negou, também, que tenha mantido qualquer relação pessoal ou comercial com Marcos Valério, o que, à luz das provas recolhidas por Zampronha, soam como deboche. “O depoimento de Daniel Dantas está repleto de respostas evasivas e esquecimentos de datas e detalhes dos fatos”, informou no despacho ao ministro Barbosa.

Chamou a atenção do delegado o fato de os contratos da BrT com as agências de Marcos Valério terem somado os exatos 50 milhões de reais que teriam sido citados por Delúbio no encontro com Rodemburg. Para Zampronha, a soma dos contratos, assim como outras diligências realizadas pelo novo inquérito, “indicam claramente” que, por algum motivo, o Grupo Opportunity decidiu efetuar os repasses supostamente solicitados por Delúbio, com a intermediação das agências de Marcos Valério, como forma de dissimular os pagamentos.

Os contratos da DNA e da SMP&B com a Brasil Telecom, segundo Zampronha, obedecem a uma sofisticada técnica de lavagem de dinheiro, usada em todo o esquema de Marcos Valério, conhecida como commingling (mescla, em inglês). Consiste em misturar operações ilícitas com atividades comerciais legais, de modo a permitir que outras empresas privadas possam se valer dos mesmos mecanismos de simulação e superfaturamento de contratos de publicidade para encobrir dinheiro sujo. No caso da BrT, cada um dos contratos, no valor de 25 milhões de reais, exigia contratação de terceiros para serem executados. Além disso, havia a previsão de pagamento fixo de 187,5 mil reais mensais às duas agências do Valerioduto, referente à prestação de serviços de “mídia e produção”.

Surpreendentemente, e contra todas as evidências, Dantas disse nunca ter participado da administração da BrT. Por essa razão, não teria condições de prestar qualquer informação sobre os contratos firmados pela então presidente da empresa, Carla Cicco, indicada por ele, com as agências de Marcos Valério. De volta a Itália desde 2005, Carla Cicco informou à PF não ter tido qualquer participação ou influência na contratação das agências, apesar de admitir ter assinado os contratos. Disse ter se encontrado com Marcos Valério uma única vez, numa reunião de trabalho com representantes da DNA.

O protagonismo de Dantas no valerioduto e o desmembramento da rede de negócios montada por Marcos Valério, desde 1999, nos governos do PSDB e do PT são elementos que, no relatório da PF, desmontam, por si só, a tese do pagamento de propinas mensais a parlamentares. Ou seja, a tese do “mensalão”, na qual se baseou a denúncia da PGR encaminhada ao Supremo, não encontra respaldo na investigação de Zampronha, a ponto de sequer ser considerada como ponto de análise.

O foco do delegado é outro crime, gravíssimo e comum ao sistema político brasileiro, de financiamento partidário baseado em arrecadação ilícita, montagem de caixa 2 e, passadas as eleições, divisão ilegal de restos de campanha a aliados e correligionários. Por essa razão, ele encomendou os novos laudos detalhados ao INC.

Uma das primeiras conclusões dos laudos de exame contábil foi que Marcos Valério usava a DNA Propaganda para desviar recursos do Fundo de Incentivo Visanet, empresa com participação acionária do Banco do Brasil, e distribui-los aos participantes do esquema do PT e de partidos aliados. O fundo foi criado em 2001 com o objetivo de financiar ações de marketing para incentivar o uso de cartões da bandeira Visa. O Visanet foi, inicialmente, constituído com recursos da Companhia Brasileira de Meios e Pagamentos (CBMP), nome oficial da empresa privada Visanet, e distribuído em cotas proporcionais de um total de 492 milhões de reais a 26 acionistas. Além do BB participam o Bradesco, Itaú, HSBC, Santander, Rural, e até mesmo o Panamericano, vendido recentemente por Silvio Santos ao banqueiro André Esteves. “Para operar tais desvios, Marcos Valério aproveita-se da confusão existente entre a verba oriunda do Fundo de Incentivo Visanet e aquela relacionada ao orçamento de publicidade próprio do Banco do Brasil”, anotou o policial.

O BB repassava mais de 30% do volume distribuído pelo fundo, cerca de 147,6 milhões de reais, valor correspondente à participação da instituição no capital da Visanet. Desse total, apenas a DNA Propaganda recebeu 60,5% do dinheiro, cerca de 90 milhões de reais, entre 2001 e 2005, divididos por dois anos no governo FHC, e por dois anos e meio, no governo Lula. Daí a constatação de que, de fato, por meio da Visanet, o valerioduto foi irrigado com dinheiro público. O que nunca se falou, contudo, é que essa sangria não se deu somente durante o governo petista, embora tenha sido nele o período de maior fartura da atividade criminosa. Quando eram os tucanos a coordenar o fundo, Marcos Valério meteu a mão em ao menos 17,2 milhões de reais.

De acordo com o relatório da PF, Marcos Valério tinha consciência de que agências de publicidade e propaganda representavam um mecanismo eficaz para desviar dinheiro público, por conta do caráter subjetivo dos serviços demandados. Mas havia um detalhe mais importante, como percebeu Zampronha. Com as agências, Valério passou a lidar com a compra de espaços publicitários em diversos veículos de comunicação. “Esta relação econômica estreitava o vínculo do empresário com tais veículos e poderia facilitar o direcionamento de coberturas jornalísticas”.

As Organizações Globo, proprietária da revista Época, sonegou a seus leitores, por exemplo, ter sido a maior beneficiária de uma das principais empresas do valerioduto. À página 68 do relatório, e em outras tantas, a TV Globo é citada explicitamente. Escreve o delegado: “A nota emitida pela empresa de comunicação destaca-se por sua natureza fiscal de adiantamento, “publicidade futura”, isto é, a nota por si só não traz qualquer prestação de serviço, como também não há elementos que vincule os valores adiantados ao fundo de incentivo Visanet”. Zampronha se referia a contratos firmados em 2003 no valor de 720 mil reais e 2,88 milhões de reais. Entre 2004 e 2005, a TV Globo receberia outros pagamentos da DNA, no valor total de 1,2 milhão de reais, lançados na planilha de controle do Fundo Visanet.

Mesmo tratado com simpatia na reportagem da Época, o Opportunity não perdoou. No item 17 de uma longa nota oficial em resposta, o banco atira: “Na Telemig, segundo informações prestadas à CPI do Mensalão, a maioria dos recursos eram repassados às Organizações Globo. Por isso, a apuração desses fatos fica fácil de ser feita pela Época.”

Segundo Zampronha, o objetivo do valerioduto era criar empresas de fachada para auxiliar na movimentação de dinheiro sujo e manter os interessados longe dos órgãos oficiais de fiscalização e controle. O leque de agremiações políticas para as quais Marcos Valério “prestava serviços” era tão grande que não restou dúvida ao delegado: “Estamos diante de um profissional sem qualquer viés partidário”. Isso não minimiza o fato de o PT, além de qualquer outra legenda, ter se lambuzado no esquema. Não fosse a denúncia de Jefferson, o valerioduto teria se inscrutado de forma absoluta no Estado brasileiro e se transformado em uma torneira permanemente aberta por onde jorraria dinheiro público para os cofres petistas.

CartaCapital não espera, como de costume, que esta reportagem tenha repercussões na mídia nativa. À exceção da desbotada tese do mensalão, que serve à disputa político-partidária na qual os meios de comunicação atuam como protagonistas, não há nenhum interesse em elucidar os fatos. O que, se assim for, provará que a sociedade afluente navega tranquilamente sobre o velho mar de lama.

Clicando aqui, você encontra os links para a íntegra do relatório da PF.

O discurso de Aécio

A grande mídia deu amplíssima cobertura — elogiosa, registre-se — ao discurso do senador Aécio Neves (PSDB-MG), ontem, numa sessão que durou quase cinco horas. O neto de Tancredo Neves marcou posição como líder da oposição.

No plenário do Senado, o ex-governador tucano de SP, José Serra, duas vezes derrotado pelo PT, tentou disputar as atenções com o colega mineiro, mas acabou relegado ao lugar de coadjuvante.

Como disse Paulo Henrique Amorim, Aécio “fez um discurso de neoliberal diet“. Ao contrário do que cantou o PIG, o ex-governador mineiro não apresentou nenhuma proposta para um novo projeto de país. Trocou o “choque de gestão” pelo “choque de realidade”, inventou a roda ao dizer que a função da oposição “é se opor”, como não pensei nisso antes?, e, como era previsível, atacou o PT, Lula e Dilma.

O discurso representou, na prática, o lançamento da candidatura de Aécio Neves à sucessão presidencial de 2014. Alguém duvida que a imprensa conservadora já escolheu seu candidato?

Na TV, Micarla vende ilusão e pede para o povo acreditar na gestão

A prefeita Micarla de Sousa (PV) antecipou sua estratégia para a campanha pela reeleição em 2012. A tática é copiar o slogan usado pelo ex-presidente Lula em 2006: “Deixa o homem trabalhar“. Adaptado para a prefeita-borboleta, o mote micarlista será “Deixa a mulher trabalhar“.

O jornalista Jean Valério, secretário de Comunicação da Prefeitura, deixou escapar o plano ao comemorar, pelo twitter, o slogan usado pelo presidente norte-americano Barack Obama, que, faltando 20 meses para o dia da votação, se lançou à reeleição nos EUA. “Deixe Obama realizar” foi o mote usado pelo democrata.

O slogan de Obama, como vocês podem perceber, é uma variação da frase de efeito usada por Lula em 2006. Obama, pelo menos, se deu ao trabalho de trocar o verbo “trabalhar” pelo “realizar”. A cópia de Micarla é mais descarada.

Nas ruas de Natal, alguns carros, movidos a combustível comissionado, já circulam com adesivos que ostentam o novo slogan da prefeita-borboleta. A ideia do marketing micarlista é tentar convencer o povo que a pevista não conseguiu realizar o que pretendia porque não a deixaram trabalhar.

A estratégia começou a ser explicitada pela própria prefeita, que, em sucessivas entrevistas, atribuiu seu desgaste administrativo a uma “orquestração” da oposição. Depois, dizendo-se “abandonada”, Micarla culpou as “oligaquias” pelo caos que vigora em Natal.

No domingo (3), durante os intervalos do “Domingão do Faustão” e do “Fantástico”, Micarla surgiu na TV, num comercial disfarçado de pronunciamento, vestindo novamente a fantasia de vítima. Mais uma vez, atribuiu os problemas da gestão do PV à “falta de apoio” nestes dois anos de administração, pediu que os natalenses acreditem na sua gestão e prometeu fazer “grandes realizações” no tempo que lhe resta. Fez o que sabe fazer como ninguém: representou.

Como escreveu Cassiano Arruda em sua “Roda Viva“, nesta terça-feira (5), a peça publicitária da prefeita “peca pela falta de ter o que dizer”.

Depois de mais de dois anos, é difícil engolir a transferência de responsabilidade para a crise ou a conjuntura. Afinal, foi apontando erros da administração passada e prometendo soluções que a jornalista virou prefeita. Imaginar que o eleitor ainda tem saco para esperar por ‘mais investimentos e mais realizações’ é desconhecer que a administração está bichada não é pela falta de obras. Nada disso. O problema é outro. O que falta é credibilidade. Ninguém acredita mais na Prefeitura de Natal e depois desse anúncio pode perder, também, a crença na jornalista“, comentou Cassiano Arruda.

Micarla parece acreditar que o marketing vai fazer as pessoas esquecerem as ruas esburacadas, a volta do lixão de Cidade Nova, as escolas caindo aos pedaços, a falta de merenda na rede municipal de ensino, os aumentos da tarifa de ônibus, os postos de saúde fechados e sem medicamentos, o calote aos fornecedores municipais, a farra dos alugueis milionários, as mudanças sem fim no secretariado, a desorganização e ausência de planejamento, entre outras mazelas.

A prefeita afirma que não conseguiu desenvolver seus projetos para a cidade, mas, afinal, que projetos são esses? Numa das áreas mais deficientes desta administração, a saúde pública, há dois anos a SMS não realiza compra sistemática de medicamentos. Tudo é comprado em regime de urgência, com dispensa de licitação.

A falta de planejamento faz com que o município compre remédio por preços mais caros e, no fim, o ônus fica para o contribuinte. Enquanto prioriza as UPAs e as AMEs, delegando o serviço à iniciativa privada, a gestão-verde despreza a atenção básica. Com Micarla, Natal perdeu recursos aprovados pelo Ministério da Saúde. Como a administração municipal não teve a capacidade de apresentar projetos, o dinheiro teve que ser devolvido ao Governo Federal. É o cúmulo da incompetência.

Alguém precisa dizer à prefeita que só copiar o ex-presidente Lula no slogan pode não dar resultado. É que, ao contrário de Micarla, Lula tinha o que mostrar.

Datafolha: “Dilma é aprovada por 47% dos brasileiros”

Da Folha.com:

Pesquisa Datafolha mostra que a presidente Dilma Rousseff é aprovada por 47% dos brasileiros, segundo reportagem de Fernando Rodrigues, publicada na edição deste domingo da Folha.

Com essa taxa de popularidade, Dilma iguala-se ao recorde registrado por Luiz Inácio Lula da Silva nesta mesma época no segundo mandato do antecessor da atual ocupante do Palácio do Planalto.

Ou seja, Dilma com seus 47% hoje se iguala tecnicamente com os 48% de Lula em 2007, já que a margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

Lula teve 43% de aprovação no terceiro mês de seu primeiro mandato, em março de 2003. Depois, bateu um recorde de aprovação presidencial em início de governo, em março de 2007, atingindo a marca de 48%.

Segundo o Datafolha, Dilma supera em popularidade todos os antecessores de Lula, quando se considera esta fase inicial do mandato.

O instituto faz pesquisas nacionais desde 1990. Em junho daquele ano (a posse então era em março), Fernando Collor tinha 36% de aprovação. Itamar Franco, que assumiu depois do processo de impeachment de Collor, marcou 34% depois de três meses no cargo. Fernando Henrique Cardoso, eleito em 1994 e reeleito em 1998, teve aprovação no início de seus governos de 39% e 21%, respectivamente.

Na pesquisa divulgada hoje, o Datafolha registra 7% que consideram a gestão de Dilma “ruim” ou “péssima”. Outros 34% a classificam como “regular”. Há também 12% que não souberam opinar.

O instituto entrevistou 3.767 pessoas em 179 municípios nos dias 15 e 16 deste mês.

Cartaz de Rosalba e Serra provoca polêmica

O cartaz com a senadora Rosalba Ciarlini (DEM) e o candidato do PSDB ao Planalto, José Serra, provovou uma onda de reações indignadas no front dos ‘demos’ e na blogosfera do RN.

A assessoria de imprensa da candidata democrata se apressou em negar a autoria da peça, insinuou que o episódio era obra dos adversários e desmentiu que Rosalba esteja tentando esconder o apoio dela a José Serra.

Os protestos não pararam por aí. Laurita Arruda, uma das blogueiras mais badaladas da província, disse que o material “fake” era um golpe “abaixo da linha da cintura”.

O professor e jornalista Ricardo Rosado chamou o caso de “jogo sujo” e “artimanha desonesta”. Para Rosado, o cartaz é da lavra de algum “canalha desocupado”.

Não entendi a razão para tanto stress. Rosalba, até onde se sabe, apoia José Serra. Então, o que há de errado com o cartaz?! Falar em “jogo sujo” e golpe “abaixo da linha da cintura” é pura forçação de barra.

A própria Rosalba, ao se referir a José Serra como “meu candidato”, sem citar o nome dele, alimentou as especulações sobre a suposta operação para esconder o apoio ao tucano. A peça com os dois não contém nenhuma mentira. Não há, portanto, razão para essa reação desproporcional.

Além disso, o episódio serviu para dar a Rosalba a chance de deixar claro aos eleitores do Rio Grande do Norte que o palanque dela é o do Serra. É que os potiguares andavam meio confusos com os elogios que a democrata e o senador José Agripino vinham fazendo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem passaram os últimos anos combatendo ferrenhamente.

Lula: “A esquerda faz oposição e a direita tenta dar golpe a cada 24 horas neste País”

Em discurso durante comício em Porto Alegre (RS), ontem à noite, com a presença de Dilma Rousseff e Tarso Genro, o presidente Luís Inácio Lula da Silva criticou o comportamento da oposição durante o governo dele, afirmando que a direita “tenta dar golpe a cada 24 horas”.

Foi no governo que aprendemos que a esquerda faz oposição e a direita tenta dar golpe a cada 24 horas neste País“, acusou. Em seguida, Lula acrescentou que uma parte da elite brasileira “faz política de forma sórdida”.

A direita aguentou 15 anos de governo duro de Getúlio Vargas mas, em quatro anos de democracia com Vargas, o fez dar um tiro no coração“, destacou o presidente.

De acordo com matéria do Portal Terra, o presidente ainda lembrou o envolvimento da direita na renúncia de Jânio Quadros, na instituição do parlamentarismo após a renúncia de Jânio e no fim do governo de João Goulart para, em seguida, informar que em um momento de crise de seu próprio governo, mandou um recado “a essa direita”.

Eu mandei dizer a eles: vocês mataram o Getúlio, mas, se vocês quiserem me enfrentar, eu não estarei no meu gabinete lendo o jornal de vocês. Eu estarei na rua com o povo desse País“. E emendou: “o legado mais sagrado que posso deixar para a história deste País é o paradigma da governabilidade“.

Roberto Jefferson dispara: “O DEM é uma merda”

A coisa está fedendo mais que o previsto. O PSDB anunciou que o vice de José Serra será o senador Álvaro Dias (PSDB-PR). O primeiro a dar a informação, pelo Twitter, foi o deputado federal cassado Roberto Jefferson (PTB), para quem Serra é a “síntese” do homem bom.

O episódio gerou um reboliço danado, levou o DEM a ameaçar romper a aliança com o PSDB e provocou a reação de outros aliados dos tucanos.

Em resposta à choradeira dos democratas, Jefferson usou novamente o Twitter para atacar o partido: “O DEM é uma merda!!!”, escreveu o performático petebista.

Não satisfeito, Jefferson ainda tripudiou da legenda, dizendo que, se as carpideiras do DEM insistirem, os petebistas disputarão a indicação do tesoureiro do partido, Benito Gama, para a vice de José Serra.

Enquanto isso, Lula e Dilma Rousseff assistem de camarote as trapalhadas da oposição.

CNI/Ibope: Dilma se isola na liderança da corrida presidencial

A nova pesquisa CNI/Ibope divulgada hoje mostra a ex-ministra Dilma Rousseff (PT) isolada na liderança da corrida presidencial, com 40%, seguida pelo ex-governador de São Paulo, José Serra (PSDB), com 35%. A senadora Marina Silva (PV) surge em terceiro, com 9% das intenções de voto.

A pesquisa foi realizada entre os dias 19 e 21 deste mês, em 140 cidades e ouviu 2.002 eleitores. O levantamento está registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o n° 16292/2010. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

É a primeira vez que o Ibope mostra Dilma à frente de Serra. Na pesquisa anterior, divulgada no dia 5, a petista e o tucano estavam empatados com 37%.

Na simulação de segundo turno, Dilma venceria Serra por 45% a 38%.

Dilma também lidera na pesquisa espontânea, com 22%, contra 16% de Serra e 3% de Marina.

No critério rejeição, 30% dos entrevistados disseram que não votariam em Serra de jeito nenhum. A rejeição de Dilma ficou em 23%.

A pesquisa revelou que 73% dos eleitores identificam Dilma como a candidata do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ainda segundo a pesquisa, a aprovação ao governo Lula atingiu novo recorde: 85% consideram o governo ótimo ou bom.

Os números chegam a surpreender, porque a pesquisa foi feita após a exibição dos programas de TV do DEM, PPS e PSDB, ambos estrelados pelo candidato tucano.

Dilma cresceu mesmo depois do desgaste provocado pelo caso dos suposto dossiês contra Serra, que teriam sido produzidos pelo núcleo de “inteligência” da campanha dela. A oposição explorou o caso à exaustão e Serra chegou a culpar Dilma diretamente pelo episódio.

Não é à toa que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse ter “sérias dúvidas” sobre a possibilidade de vitória de José Serra.

Emir Sader diz que Brasil mudou “perfil social” e está “menos injusto”

Por Alisson Almeida, no portal Nominuto.com:

Foto: Elpídio Júnior

“O Brasil está menos injusto que antes”. A afirmação é do filósofo, cientista político e professor aposentado da USP (Universidade de São Paulo) Emir Sader, que fez palestra e lançou o livro “Brasil: entre o passado e o presente”, hoje pela manhã, em Natal. Para ele, o “perfil social” do país mudou desde a ascensão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao poder em 2003.

“O país está menos injusto do que era antes. Isso nunca aconteceu [antes]. Ficou igual ou piorou”, comentou, acrescentado que essa “prioridade nas políticas sociais” estaria ajudando o Brasil a reverter a condição de “um dos países mais desiguais do mundo”.

Emir Sader disse enxergar a situação atual como “uma ponte para a construção de outro tipo de sociedade”. Para ele, além do poder em si, o que está em disputa nas eleições presidenciais deste ano “é o lugar do Brasil no mundo”.

O professor elogiou a política externa brasileira, sustentando que, nos últimos sete anos, o país alcançou o status de “nação soberana” graças ao que considera como “política de prioridade dos acordos regionais [com os países da América Latina e América do Sul] em vez dos tratados de livre comércio com os Estados Unidos”.

“Nós diversificamos o comércio internacional, retomamos o intercâmbio com a China, o intercâmbio regional, o mercado interno de consumo popular. A diversificação internacional foi fundamental para o Brasil conquistar o lugar soberano que tem no mundo”, declarou.

Emir Sader afirmou que o “papel do Estado” também mudou neste período, o que teria funcionado como impulsão para os fenômenos do “desenvolvimento econômico” e da “distribuição de renda” experimentados pelo país. “Tudo isso indica que o Brasil de hoje é diferente do que era antes”, apregoou.

Ele criticou duramente o pré-candidato tucano a presidente, José Serra, a quem chamou de “ignorante” em política internacional. A crítica se deve às declarações do ex-governador de São Paulo acusando a Bolívia de ser “cúmplice” do tráfico de drogas.

“O Serra é um ignorante, não conhece política internacional, nunca esteve na Bolívia na vida. O grande produtor e traficante de cocaína na América do Sul e no mundo é a Colômbia. Em segundo é o Afeganistão. Por que ele não faz essa crítica à Colômbia?”, indagou.

O professor disse que o Brasil não é “condescendente” com supostas “práticas autoritárias” de nenhum regime, mas que o país está a favor de um “mundo multipolar”.

“O Brasil não está a favor do regime do Irã. O que o Brasil quer é um mundo multipolar, sem a superioridade militar norte-americana. O Brasil não está a favor do regime de Cuba, da Venezuela nem do Irã. Está a favor de uma solução equilibrada que não considere que o Irã é o maior risco para o mundo”, argumentou.

“Oposição está sem discurso”

Emir Sader acusou a oposição ao governo federal de estar “sem discurso”. “Eu acho que eles [partidos de oposição] estão sem discurso, porque o povo não quer mudar, quer aprofundar o que está aí [com o governo Lula]”.

Para o cientista político, a estratégia da oposição de reivindicar a paternidade dos programas sociais do governo petista não funcionou, porque o povo não reconheceu isso. Por isso, continuou, tucanos e democratas teriam partido para as “críticas pontuais” à gestão lulista.

“Ele [José Serra] está indo para os dois eixos fundamentais da política da direita: segurança pública com linha dura e redução de impostos. É o discurso tradicional da direita. As grandes soluções, criação de ministérios, todos os eixos tradicionais da direita. Eles dão aquela pinta que são mais progressistas. O Serra tem dito que é mais progressista que a Dilma [Rousseff, candidata do PT à sucessão presidencial]”, ironizou.

Emir Sader disse ainda que a “abstinência do poder” fez mal às legendas da oposição, principalmente ao DEM, partido que considera “em plena derrocada”.

“O DEM é um partido do poder. A abstinência do poder já fez mal pra ele [DEM]. Depois, o desencontro com o PSDB na oposição. Terceiro, o programa Bolsa Família puxou o tapete social deles, ajudou a enfraquecer as lideranças coronelísticas que eles tinham, principalmente no Nordeste”, comentou.

O professor afirmou que “a nova geração de líderes da direita é bem pior que a anterior”. “Eles pegaram o espólio de líderes decadentes”, completou.

A situação do Rio Grande do Norte, único Estado onde o DEM apresenta chances concretas de vitória nas eleições regionais, seria, na visão dele, uma “exceção”.

“Acho que isso daqui [no RN] é uma exceção que não muda a regra geral. A vitória [das esquerdas] neste ano vai liquidar uma geração da direita no Brasil”, apostou.

Imprensa

Emir Sader criticou também o comportamento da chamada grande imprensa na cobertura do processo sucessório nacional. Para ele, os maiores veículos jornalísticos estariam atuando como “partido de oposição”.

“O problema não é só que o candidato da [Rede] Globo, da Folha de São Paulo e da [Editora] Abril é o [José] Serra. Eles estão editorializando tudo. Como confessou a executiva da Folha, diante da fraqueza dos partidos de oposição, eles são o partido. Isso é gravíssimo. É uma confissão aberta de que não há nem imparcialidade informativa”, avaliou.

Emir Sader atribuiu esse comportamento da mídia ao “desconhecimento das transformações que estão ocorrendo no país”.

“Pela cobertura que eles [veículos de imprensa] dão, não se dão conta do que é o país real. Eles estão desencontrados do país. É uma elite branca do Centro-Sul que está de costas para a realidade”.

Para quem vão os votos de Ciro?

Por Maurício Dias (Carta Capital /Coluna Rosa dos Ventos):

Votos de Ciro Gomes tendem a favorecer Dilma, diz especialista

A retirada da pré-candidatura do Deputado Ciro Gomes à Presidência da República consolida uma pergunta que já rondava o debate sobre a sucessão presidencial: para onde escoarão os votos do eleitor de Ciro? Para Serra ou para Dilma?

Na terça-feira 27, o PSB defenestrou Ciro Gomes. A Executiva do partido decidiu, por 11 votos contra 2, que os socialistas não teriam candidatura própria à Presidência da República. Mas, além desse fator, sem a presença de Ciro Gomes na competição, cresce a possibilidade de a eleição de outubro ser definida no primeiro turno. Um resultado possível em eleição polarizada, entre petistas e tucanos, e ainda com forte viés plebiscitário como será a de outubro.

Nesse ambiente inteiramente polarizado,a oposição e a imprensa que a vocaliza reagiram à decisão do PSB de retirar o nome de Ciro do páreo e, principalmente, contra a decisão de consolidar o apoio à candidata governista.

O que será dos votos de Ciro? O cientista político Ricardo Guedes, diretor do Instituto Sensus, responde à pergunta assim: “os votos de Ciro Gomes vão mais para Dilma Rousseff do que para José Serra. Em dados gerais, pelos nossos cruzamentos, 50% vão para a candidata do PT e 30% para o candidato do PSDB.”

Para ele, os 20% restantes seriam redistribuídos igualmente entre Marina Silva, do PV, e os indecisos.

“Se considerarmos as proporções para Dilma e para Serra, temos 65% dos votos indo para ela e 35% para ele”, diz Guedes.

A lógica do raciocínio de Ricardo Guedes baseia-se no princípio do que ele considera “pacto do tipo social-democrata europeu”, que teria se formado no Brasil. Ou seja, “a esquerda passa a ser institucionalizada, e a direita cede para programas sociais”.

Os votos de Ciro Gomes favoreceriam, assim, Dilma Rousseff por estar na posição de centro-esquerda do especto político.

Guedes lembra que o eleitor de Marina Silva, o terceiro nome da disputa com potencial de voto pequeno, mas possivelmente decisivo, pode vir a fazer voto útil em Dilma, na reta final das eleições. Isso ocorreu com a ex-senadora Heloísa Helena, do PSOL, nas eleições presidenciais de 2006. Ela chegou a ter 15% das intenções de voto (um número muito próximo ao porcentual máximo atingido por Ciro nas pesquisas de 2009) e terminou com 5%.

Guedes afirma que o voto dela “fluiu para Lula”.

O nome de Plínio de Arruda Sampaio, recentemente definido como pré-candidato do PSOL, ainda não foi incluído nas pesquisas.

Ricardo Guedes engrossa o coro daqueles que acham possível (como já falou João Francisco Meira, do Vox Populi), a eleição ser decidida pela via rápida, em apenas um turno. A favor da candidata do PT.

As condições econômicas e sociais favorecem a candidatura de Dilma Rousseff, que expressa o voto na continuidade, estando a oposição com dificuldades de formular um projeto alternativo para o País. Com a tendência de maior conhecimento de Dilma, as intenções de voto permanecerão equilibradas até o início do período eleitoral, com os programas eleitorais nos meios de comunicação e os debates”.

Ao contrário do que se esperava, a questão ambiental não tomou conta dos debates. Isso projeta dificuldades para Marina manter um porcentual de votos acima de um dígito. A pesquisa Ibope, mais recente, indicou que 10% dos eleitores votariam nela se a eleição fosse hoje.

Os debates, segundo Guedes, serão fundamentais para a alteração, ou não, dessas tendências. Ele acredita que, como ocorreu com a candidatura de Heloísa Helena nas eleições passadas, parte do eleitorado de Marina Silva pode vir a fazer o voto útil. Enviado pelo amigo Amorim de São Paulo.

“Time” elege presidente Lula o líder mais influente do mundo

Do Nominuto.com:

Por Alisson Almeida e Débora Ramos

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou, nesta quinta-feira, mais um título internacional. A revista americana “Time” elegeu o brasileiro como o líder mais influente do mundo. Em texto assinado pelo cineasta e escritor Michael Moore, o presidente é chamado de “verdadeiro filho da classe trabalhadora da América Latina”.

O segundo lugar na lista de 25 nomes de personalidades mundiais relacionadas pela revista é o presidente da empresa de computadores pessoais Acer, J.T Wang. Em seguida, vêm o almirante Mike Mullen, chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, o presidente americano Barack Obama e Ron Bloom, assessor sênior do secretário do Tesouro dos Estados Unidos.

Moore citou o programa “Fome Zero” como exemplo de “conquista” do governo federal que pode levar o Brasil ao “primeiro mundo”. O programa foi instituído no primeiro dia de mandato do presidente Lula e inclui ações que vão do “Bolsa Família” à construção de cisternas no semi-árido nordestino, passando pela compra direta da produção dos pequenos agricultores.

Na reportagem, o cineasta especula sobre o que teria levado Lula a escolher a carreira política. “Foi o seu conhecimento pessoal acerca das duras condições de trabalho que muitos brasileiros têm que enfrentar apenas para sobreviver? Ser forçado a deixar a escola ainda na quinta série para sustentar sua família? Trabalhar como engraxate quando menino? Perder parte do seu dedo em um acidente na fábrica na qual trabalhava?”, questiona.

No trecho seguinte, Moore afirma que o verdadeiro motivo que levou o petista a lançar-se na vida pública. “Não, foi quando, com 25 anos de idade, ele assistiu sua esposa Maria morrer enquanto estava grávida de oito meses, junto com seu filho, porque eles não podiam pagar por um plano de saúde decente”.

O “Dia D” de Serra

Serra sagrou-se candidato do PSDB. No mesmo dia, Dilma encontrou-se com sindicalistas.

José Serra, enfim, deixou a exitação para trás e assumiu a candidatura à Presidência da República. Esta é a segunda tentativa do tucano. A primeira foi em 2002, quando perdeu as eleições para o agora presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Neste ano, o espectro de Lula promete continuar assustando Serra. Pela primeira vez desde a redemocratização do país, Lula não será candidato, mas deverá participar ativamente da eleição. O presidente quer transformar a própria sucessão num plebiscito entre o seu governo e o governo do ex-presidente FHC, o guru do tucanato. Lula não medirá esforços para fazer da sua escolhida, a ex-ministra Dilma Rousseff, a primeira mulher a governar o Brasil.

Mas, voltemos a José Serra. O ex-governador de São Paulo vai mesmo comandar a tropa da oposição em 2010. No discurso que fez durante o lançamento da candidatura, ontem pela manhã em Brasília, Serra lançou o bordão que vai usar na campanha ( “O Brasil pode mais” ), repetiu velhos clichês da direita e tentou transmitir a imagem de grande conciliador nacional.

“O Brasil pode mais” parece ser a saída encontrada pelos marqueteiros tucanos para solucionar o problema da falta de discurso da oposição. É uma nova embalagem para um velho clichê: “continuar o que está dando certo, mas mudar o que está dando errado”.

O Chapeleiro Maluco da “Veja”, num tom meio envergonhado, inventou até uma justificativa para do PSDB: “o tucano reconhece e incorpora os avanços havidos no governo Lula — que ele inclui numa trajetória de conquistas dos últimos 25 anos — e diz ser preciso ir além”. Perceberam que agora, com a proximidade da eleição, eles admitem que houve “avanços no governo Lula”?!

O que Serra precisa dizer, sem embromação, é como ele vai fazer o país “ir além”. Ele vai repetir a política de juros estratosféricos, arrocho salarial, elevação de impostos, cortes em programas sociais, ausência de crédito, desemprego e privatizações do governo FHC?!

“O Brasil pode mais” nada mais é que uma tentativa dissimulada se livrar da carapuça anti-Lula, que a oposição vestiu durante esses mais de sete anos de governo petista. Invocado assim, como num passe de mágica, a frase pretende vender um conceito inovador, quando não passa do mais puro prosaicismo.

Serra pregou que o país poderia crescer mais se resolvesse os gargalos na infraestrutura. No discurso fica bonito, mas antes de prometer mais crescimento, o tucano deveria dizer, para acabar com qualquer dúvida, se vai mesmo acabar com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), como disse o senador José Guerra (CE), presidente nacional do PSDB, em entrevista à “Veja”.

O tucano fez menção aos programas sociais do governo Lula, com destaque para o “Bolsa Família”, dizendo que é tudo herança do governo FHC. É um discurso confuso, porque a oposição sempre criticou esses programas, classificando-os como “eleitoreiros”. Agora, reivindicam a paternidade das ações e prometem mantê-las. Então, vão continuar com os mesmo programas “eleitoreiros”?

Em outro momento, Serra invocou o tema da justiça, pregou o cumprimento da lei e protestou contra a impunidade. O discurso da moralidade, da ética e da justiça, definitivamente, não cai bem a nenhum tucano. Uma folheada rápida nas páginas da história recente do governo FHC e dos governos estaduais tucanos causaria constrangimentos à turma de plumagem colorida. Serra sabe disso, mas insiste na mesma bravata, apostando na memória curta da população.

Finalmente, Serra quis se mostrar como conciliador, como líder capaz de unificar a nação dividida pelo sectarismo lulo-petista. “Não aceito o raciocínio do nós contra eles. Não cabe na vida de uma Nação. Somos todos irmãos na pátria. Lutamos pela união dos brasileiros e não pela sua divisão“, anunciou, em tom profético.

Pode haver discurso mais direitista? Nada mais conservador que tentar esconder a luta de classes, o abismo social que nos separa, a injustiça que fazer de uns mais cidadãos que outros. Cito Miguel do Rosário: “O PSDB está ao lado dos ricos, mas como não pode afirmar isso, então diz que não tem lado, que estará ao lado de todos. Não é assim, Serra. Os ricos não precisam de apoio governamental. Quem precisa são os pobres. Isso demarca quem está ao lado da maioria do povo brasileiro, que é ainda muito pobre, e quem não está“.

A resposta

O presidente Lula e a ex-ministra Dilma Rousseff não deixaram os tucanos sem resposta. Num evento paralelo ao lançamento da candidatura de Serra, Lula ironizou o slogan do PSDB: “Eles querem e nós fazemos. Essa é a diferença substancial”.

O presidente prosseguiu: “Dilma não será a candidata da defesa de teses abstratas, será a candidata de auto-afirmação. Se eles dizem o Brasil pode mais, nós fazemos mais”.

Em relação ao ataque do PSDB à suposta divisão regional e em classes incentivada pelo governo e pelo PT, Lula reagiu assim: “Não queremos é deixar a divisão que eles deixaram entre ricos e pobres”.

Dilma seguiu no mesmo tom usado pelo presidente: “Esse país pode mais porque nós fizemos com que ele pudesse mais”. A ex-ministra lembrou que esses que agora dizem que o país pode “ir além”, quando estiveram no governo fizeram exatamente o contrário. Na Era FHC, o país andou para trás. Dilma os batizou como “viúvas da estagnação” e “exterminadores do emprego e do futuro”.

No discurso que proferiu durante o evento promovido pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), berço político de Lula e do PT, Dilma demarcou a diferença entre os projetos petista e tucano: a defesa dos mais pobres, a defesa do patrimônio nacional e o respeito aos movimentos sociais.

Destaco dois pontos do discurso de Dilma. O primeiro trata daquilo que deve ser a prioridade do governo: “O Estado deve estar a serviço do interesse nacional e da emancipação do povo brasileiro“.

O segundo é uma provocação direta ao “conciliador” José Serra, o governador que manda a polícia bater em professores grevistas: “A democracia que desrespeita os movimentos sociais fica comprometida e precisa mudar para não definhar. O que estamos fazendo no governo Lula e continuaremos fazendo é garantir que todos sejam ouvidos. Democrata que se preza não agride os movimentos sociais. Não trata grevistas como caso de polícia. Não bate em manifestantes que estejam lutando pacificamente pelos seus interesses legítimos“.

A nova Bahia e o novo Brasil

“(…) Há uma emergência das classes populares, há uma crescente transparência dos gastos públicos, há uma marcha efetiva da democratização dos investimentos públicos. O velho Brasil está sendo ultrapassado. Um novo Brasil está nascendo. Um segmento da intelectualidade tem reagido. Quem lê os jornais pode verificar facilmente que a reação ao governo Lula está na ordem do dia nos escritos de muita gente que tem uma história de esquerda e que se proclama democrata convicto. Lula faz a coisa certa: ignora as reações, realiza. Não entra em polêmicas, apresenta fatos. Fala com os jornalistas, mas fala também direto com a sociedade. É uma comunicação objetiva, inteligente. Desqualifica os seus críticos sistemáticos.

O que é a democracia? Para esses epígonos, conscientes ou não do Brasil do passado, é a tradicional democracia sem povo. Uma democracia crassa. Na Bahia a questão parece ser mais delicada porque nada indica que estejam em jogo questões ideológicas. O problema é mais objetivo: os privilégios que, junto com filhos não pródigos de Henrique II, deixam o palco. Certamente, o caminho correto de uma boa comunicação nesses casos é ignorar os que lutam por privilégios. Responder ao que existe de critica real, objetiva, concreta. Deixar que as viúvas dos privilégios, falem e se cansem de falar.”

Trecho do artigo “Um caso para se olhar com atenção” do jornalista baiano Francisco Viana na Terra Magazine.

Enfim, temos uma refinaria

Alheio às acusações de que a Refinaria Clara Camarão é um “prêmio de consolação para o RN”, presidente Lula visita o Pólo Industrial de Guamaré.

 

Por Alisson Almeida, para o Nominuto.com

 

Pólo Industrial de Guamaré será ampliado para operar como refinaria.

 

A refinaria que leva nome de guerreira (Clara Camarão), finalmente, deve sair do papel. Para torná-la realidade, foi necessário travar uma verdadeira luta – termo usado, em tom propositadamente dramático, por algumas personalidades presentes no ato de lançamento da obra.

Trata-se da tão sonhada refinaria do Rio Grande do Norte, batizada de “Clara Camarão”, no município de Guamaré. A cidade fica na região litorânea, distante 165 km de Natal. Para chegar lá, é preciso se aventurar entre os buracos da BR 406.

O Pólo Industrial, onde será instalada a unidade de processamento, fica a 5 km da área urbana. Coube ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva dar o “start” para implantação da refinaria. Na quinta-feira (19), Lula e a governadora Wilma de Faria (PSB) assinaram um termo de compromisso entre o governo do Rio Grande do Norte e a Petrobras para ampliar a capacidade instalada da planta.

A partir do segundo semestre de 2010, segundo estimativas oficiais, a antiga Unidade de Tratamento e Processamento de Fluidos (UTPF) vai operar como uma refinaria de verdade, com a produção de gasolina e nafta petroquímica, somando-se aos produtos que já são beneficiados no complexo – diesel, gás liquefeito de petróleo (GLP) e querosene de aviação (QAV).

Lula chegou a Guamaré com quase duas horas de atraso, desembarcando no heliporto do Pólo Industrial por volta das 16h30. Na tenda armada para sediar a cerimônia, o presidente era aguardado por políticos, secretários de estado e funcionários da Petrobras.

A ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) foi a ausência mais presente do evento. A ungida de Lula para ser sua sucessora, a partir de 2011, foi citada em quase todos os discursos e proclamada como a grande responsável pela conquista da refinaria.

Vestindo um típico macacão de petroleiro, Lula proferiu um discurso carregado de críticas à oposição, citou alguns investimentos realizados pelo seu governo no RN e defendeu a importância da Refinaria Clara Camarão para o desenvolvimento da economia potiguar.

“Para mim pouco importa o que os adversários estão dizendo, porque enquanto eles falam, nós estamos trabalhando. Os adversários estão com um sério problema. Eles precisam achar um assunto para discutir com a gente. Duvido que todos eles juntos, nos últimos 20 anos, tenham feito mais em todos os Estados do que aquilo que fizemos”, desafiou.

O petardo presidencial tem endereço certo: os que afirmam que a refinaria não passa de uma “compensação” por supostas perdas infringidas ao Rio Grande do Norte. Para Lula, a obra de ampliação vai representar um “salto no desenvolvimento” potiguar.

O presidente chamou a oposição de “hipócrita” por atribuir o êxito do governo a um lance de “sorte”. “Nossos adversários dizem que achamos o pré-sal por pura sorte. Mas a oposição não entende que todo mundo precisa ter sorte, mas precisa aliar a sorte à competência e à decisão política de investir, que é o que nós vimos fazendo”.

Relembrando os investimentos federais no RN, Lula disse ainda que o programa “Luz Para Todos” levou energia elétrica para 250 mil famílias potiguares. Em seguida, voltou a empregar o tom político ao dirigir-se à Wilma de Faria para dizer que a governadora “rompeu com o coronelismo das famílias que mandavam no estado” – o deputado federal Henrique Eduardo Alves (PMDB), filho do ex-governador Aluízio Alves, teve que superar o constrangimento.

O presidente afirmou que o país vive um verdadeiro “milagre” com a descoberta do pré-sal e listou as áreas que considera essenciais para investimento do dinheiro das novas reservas: educação, ciência e tecnologia, saúde, cultura e meio-ambiente.

“O dinheiro do pré-sal não pode entrar no ralo comum da administração pública, sem surtir os efeitos que nós queremos”, finalizou.

 

 

Pra não dizer que não falei em Caetano

Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro.

(Caetano Veloso, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, 05/11)

Um dos assuntos mais comentados nas rodas políticas, artísticas e intelectuais, as declarações de Caetano Veloso sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelam muito sobre a maneira de pensar da nossa burguesia tupiniquim — Caetano já cantava “Como são lindos os burgueses…“.

Poucas vezes li algo tão preconceituoso, autoritário e atrasado. Primeiro veio FHC com aquele artigo cínico comparando o presidente a um ditador. Agora, Caetano, repetindo o discurso conservador da elite que ainda não se conformou em ser governada por um ex-metalúrgico. 

Não consta que o baiano Caetano tenha se levantado tão ferozmente, como o fez agora com o presidente operário, contra a ditadura carlista que dominou a Bahia de todos os santos durante décadas a fio.

Peço licença pra citar o Miguel do Rosário, que deu a melhor resposta que poderia ser dada a Caetano e à imprensa tucana que vibrou com suas declarações:

Não podemos ser autoritários e prepotentes em achar que somente determinados livros oferecem conhecimento e instrução. O conhecimento está no ar, na natureza, nas relações, na música, no cinema, no amor, da mesma forma que nos livros. Há escritores maravilhosos que são ignorantes.

Em homenagem a Caetano, transcrevo a belíssima poesia do iletrado Patativa do Assaré:

                                    Aos poetas clássicos

                                    Poetas niversitário,
                                    Poetas de Cademia,
                                    De rico vocabularo
                                    Cheio de mitologia;
                                    Se a gente canta o que pensa,
                                    Eu quero pedir licença,
                                    Pois mesmo sem português
                                    Neste livrinho apresento
                                    O prazê e o sofrimento
                                    De um poeta camponês.
 

                                    Eu nasci aqui no mato,
                                    Vivi sempre a trabaiá,
                                    Neste meu pobre recato,
                                    Eu não pude estudá.
                                    No verdô de minha idade,
                                    Só tive a felicidade
                                    De dá um pequeno insaio
                                    In dois livro do iscritô,
                                    O famoso professô
                                    Filisberto de Carvaio.
 

                                    No premêro livro havia
                                    Belas figuras na capa,
                                    E no começo se lia:
                                    A pá — O dedo do Papa,
                                    Papa, pia, dedo, dado,
                                    Pua, o pote de melado,
                                    Dá-me o dado, a fera é má
                                    E tantas coisa bonita,
                                    Qui o meu coração parpita
                                    Quando eu pego a rescordá.
 

                                    Foi os livro de valô
                                    Mais maió que vi no mundo,
                                    Apenas daquele autô
                                    Li o premêro e o segundo;
                                    Mas, porém, esta leitura,
                                    Me tirô da treva escura,
                                    Mostrando o caminho certo,
                                    Bastante me protegeu;
                                    Eu juro que Jesus deu
                                    Sarvação a Filisberto.
 

                                    Depois que os dois livro eu li,
                                    Fiquei me sintindo bem,
                                    E ôtras coisinha aprendi
                                    Sem tê lição de ninguém.
                                    Na minha pobre linguage,
                                    A minha lira servage
                                    Canto o que minha arma sente
                                    E o meu coração incerra,
                                    As coisa de minha terra
                                    E a vida de minha gente.
 

                                    Poeta niversitaro,
                                    Poeta de cademia,
                                    De rico vocabularo
                                    Cheio de mitologia,
                                    Tarvez este meu livrinho
                                    Não vá recebê carinho,
                                    Nem lugio e nem istima,
                                    Mas garanto sê fié
                                    E não istruí papé
                                    Com poesia sem rima.
 

                                    Cheio de rima e sintindo
                                    Quero iscrevê meu volume,
                                    Pra não ficá parecido
                                    Com a fulô sem perfume;
                                    A poesia sem rima,
                                    Bastante me disanima
                                    E alegria não me dá;
                                    Não tem sabô a leitura,
                                    Parece uma noite iscura
                                    Sem istrela e sem luá.
 

                                    Se um dotô me perguntá
                                    Se o verso sem rima presta,
                                    Calado eu não vou ficá,
                                    A minha resposta é esta:
                                    — Sem a rima, a poesia
                                    Perde arguma simpatia
                                    E uma parte do primô;
                                    Não merece munta parma,
                                    É como o corpo sem arma
                                    E o coração sem amô.
 

                                    Meu caro amigo poeta,
                                    Qui faz poesia branca,
                                    Não me chame de pateta
                                    Por esta opinião franca.
                                    Nasci entre a natureza,
                                    Sempre adorando as beleza
                                    Das obra do Criadô,
                                    Uvindo o vento na serva
                                    E vendo no campo a reva
                                    Pintadinha de fulô.
 

                                    Sou um caboco rocêro,
                                    Sem letra e sem istrução;
                                    O meu verso tem o chêro
                                    Da poêra do sertão;
                                    Vivo nesta solidade
                                    Bem destante da cidade
                                    Onde a ciença guverna.
                                    Tudo meu é naturá,
                                    Não sou capaz de gostá
                                    Da poesia moderna.
 

                                    Dêste jeito Deus me quis
                                    E assim eu me sinto bem;
                                    Me considero feliz
                                    Sem nunca invejá quem tem
                                    Profundo conhecimento.
                                    Ou ligêro como o vento
                                    Ou divagá como a lêsma,
                                    Tudo sofre a mesma prova,
                                    Vai batê na fria cova;
                                    Esta vida é sempre a mesma.  

 

O tempo voa

Jornada dupla de trabalho, correndo contra o tempo e sem poder parar pra atualizar o blog.

Vou tentar, à noite, postar alguma coisa sobre a entrevista do presidente Lula, ontem (15), no “É Notícia” da Rede TV!, com Kennedy Alencar.

Este blogueiro teve a grata surpreza de ver o “Embolando” na lista do Blogroll do Blog do Rafael Galvão, um dos melhores blogs da net.

Por falar no Rafael, a sua definição sobre a revista Veja é sensacional: “A Veja é um hebdomadário humorístico lido na fila do caixa do supermercado.”

Inté.

 

Kennedy Alencar: “FHC esquece o passado”

O blog reproduz, na íntegra, o excelente artigo de Kennedy Alencar na Folha Online (comento em seguida):

 

O eleitor, esse ingrato analfabeto

 

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez novo movimento para assumir a linha de frente da oposição ao governo Luiz Inácio Lula da Silva. Em artigo no último domingo (01/11), nos jornais “O Globo” e “O Estado de S. Paulo” desceu a lenha em Lula com elegância e vigor.

Segundo FHC, o petista comete “transgressões cotidianas”. Atropela a lei e os “bons costumes”. Faz uma aliança de natureza política autoritária, unificando sob verbas públicas os interesses do Estado, de sindicatos, dos movimentos sociais, dos fundos de pensão e das grandes empresas. Alerta para o risco de subperonismo. E sapeca um novo conceito político-sociológico: “autoritarismo popular”.

Em meio a uma oposição sem discurso, com potenciais candidatos ao Palácio do Planalto que não desejam atacar Lula, FHC cumpre o papel de tentar desgastar um presidente, que, com sua alta popularidade, tentará eleger como sucessora a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.

FHC, porém, esquece o passado. No seu governo, os fundos de pensão das estatais foram usados politicamente para a formação de consórcios privados que arremataram empresas públicas. O Estado, naqueles anos, atuou no limite da irresponsabilidade, como disse Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-diretor da área internacional do Banco do Brasil que ficou muito rico nos anos FHC.

A Força Sindical, hoje nos colos de Lula, era massa de manobra do PSDB. A aliança com o PFL, hoje DEM, não difere muito da firmada pelo PT com o PMDB, em nome de um realismo político que sacrifica a ética. No estilo de governar, FHC e Lula se parecem, com algumas nuances.

O petista é mais desabrido ao abraçar figuras de biografias suspeitas?

Sim.

Mas o tucano nomeou um procurador-geral da República que ficou conhecido como engavetador-geral da República.

O procurador-geral é o único que pode pedir abertura de investigação e de processo penal contra o presidente da República. FHC não se arriscou com as seguidas nomeações de Geraldo Brindeiro. Lula escolheu o mais votado da categoria. E viu um deles denunciar a existência de uma organização criminosa em seu governo.

Houve tentações no governo Lula, mas ele nunca cruzou a linha que separa a democracia do autoritarismo. Quando tentou, a sociedade reagiu. Já o tucano mudou, com apoio popular, a regra eleitoral no meio do jogo, obtendo a possibilidade de disputar a reeleição em 1998.

Resumindo: FHC exagerou. E, quando isso acontece, costuma ser bom para o atacado.

O tucano parece que está chateado com o eleitor que votou democraticamente em Lula, um presidente que tem seguido à risca o que prometeu. “Autoritarismo popular” soa meio golpista e demófobo. Não é algo à altura do ex-presidente.

 

Há dois equívocos no artigo de Kennedy. Primeiro, dizer que FHC mudou a regra eleitoral “com apoio popular”. Não é verdade. FHC aprovou a reeleição com o dinheiro das privatizações, na maior negociata da história do Congresso Nacional, sem ouvir a população.

Depois, dizer que FHC apenas “exagerou” é ser condescendente demais com os desmandos do ressentido príncipe dos sociólogos.

 

O medo de Agripino

Li nos jornalões do PIG que o DEM está exigindo a vaga de vice na chapa presidencial do PSDB. Um dos nomes cotados é o do senador potiguar José Agripino.

Mas Jajá declarou que, se chamado, vai declinar do convite, alegando que sua prioridade é a reeleição ao Senado.

Na verdade, Jajá tem medo de embarcar numa canoa furada, porque sabe que José Serra, provável candidato tucano, tem pouquíssimas chances de vencer a ministra Dilma Rousseff (PT), candidata do presidente Lula à sucessão.

É só uma questão de tempo pra candidatura da petista crescer — mesmo com o jogo pesado da mídia tucana contra a ministra. Uma pesquisa que o próprio DEM encomendou revelou que a situação do tucano não é nada boa. Dilma supera ou empata com Serra em quatro estados: Distrito Federal, Bahia, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.

Agripino não tem coragem de entrar numa partida tão disputada e correr o risco de ficar sem nada. Em 2006, Jajá tentou ser vice de Alckmin, mas o PSDB o boicotou.

Naquela ocasião, o senador não teria nada a perder, porque mesmo com uma provável derrota nacional, ainda teria quatro anos pela frente no Senado.

Agora, o a brincadeira é mais difícil.

 

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