Embolando Palavras

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Democracia, comunicação e política

“Contra os políticos pesa também acusação de conduzir a linha editorial dos periódicos de grande circulação e de canais de rádio e televisão locais, fortalecendo as imagens por meio de matérias jornalísticas positivas, dirigindo críticas aos oponentes.”

O trecho da notícia acima, para nosso desânimo, não é sobre nenhum figurão da política potiguar. Trata-se de denúncia do Ministério Público Eleitoral (MPE) contra o governador do Acre, Tião Viana (PT), o seu vice, Carlos Messias, o senador Jorge Viana (PT) e os dois suplentes dele. Para o MPE, eles cometeram abusos e ilícitos usando meios de comunicação locais.

Fico me perguntando por que o Ministério Público do RN não segue o exemplo do MPE do Acre. Políticos usando jornais, rádios e emissoras de televisão com fins eleitorais é uma prática antiga por aqui. Todas as concessões de TV no RN estão sob controle de políticos: as famílias Alves e Maia e a prefeita de Natal, Micarla de Sousa (PV), controlam, respectivamente, as afiliadas locais da Globo, Record e SBT.

Não dá pra ignorar a influência que esses meios de comunicação exercem sobre o jogo político, chegando, muitas vezes, a interferir nos critérios de escolha dos cidadãos. Como intermediários entre a fonte de informação e o público, os meios de comunicação selecionam o que e como noticiar e influenciam no julgamento popular sobre os fatos.

Essa influência, obviamente, nem sempre é determinante. As duas eleições do ex-presidente Lula (PT) e a recente eleição da presidenta Dilma Rousseff (PT) estão aí pra demonstrar que, sim, é possível se contrapor à força da mídia conservadora. Mas esses dois casos são exceções que só confirmam a regra.

Pra ficarmos por aqui mesmo, basta lembrarmos o fenômeno Micarla de Sousa. A prefeita de Natal chegou ao cargo em 2008, entre outros fatores, graças à imagem que projetou junto à população através da televisão.

Durante dois anos, Micarla fez da TV Ponta Negra o trampolim para a sua vitoriosa candidatura. Transformou o vídeo em tribuna particular, assumiu o lugar de porta-voz das queixas do povo e se apresentou como uma espécie de justiceira dos fracos e oprimidos.

Enquanto não mexermos na caixa-preta das concessões de rádio e TV no Brasil, casos como esse continuarão se repetindo. Como disse a professora e filósofa Marilena Chauí, em entrevista à revista Caros Amigos, sem comunicação não há democracia. Caso esse modelo de comunicação atrasado e concentrador se perpetue no país, nunca seremos a democracia que sonhamos ser.

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As entranhas do jornalismo potiguar

THAISA GALVÃO É DEMITIDA DO JH

Como diz o título daquele filme antigo do Speilberg, um dia a casa cai. Demorou, mas caiu para Thaisa Galvão, a blogueira — na ausência de um termo melhor — política mais badalada de Natal. 

Thaisa foi demitida ontem (20) da Editoria-Geral do “Jornal de Hoje”, cargo que ocupava desde 2000.  De uns anos para cá, graças à visibilidade alcançada com a função, a agora ex-editora virou uma espécie de estrela do colunismo político do RN, principalmente depois do lançamento do seu blog — espécie de vitrine virtual usada para promover amigos, chantagear desafetos e assassinar a reputação dos que cruzarem seu caminho.

A demissão de Thaisa é um mergulho nas entranhas do jornalismo potiguar. Ela é a síntese de um tipo de jornalista que se transformou quase num modelo de sucesso: bajuladora dos poderosos, íntima dos mandatários de plantão e cúmplice da pequena política.

Há poucos dias, comentei aqui no blog o episódio da festa de aniversário que a prefeita Micarla de Sousa ofereceu, em sua casa, para a “amiga” Thaisa Galvão. Faço questão de repetir o comentário que postei na época: trata-se de um exemplo escancarado da promiscuidade que impera entre jornalistas e governantes em Natal, onde aqueles que deveriam fiscalizar o poder se orgulham da intimidade que ostentam com os poderosos. 

No livro “Simulacro e poder: uma análise da mídia“, a filósofa Marilena Chaui observa que, com a transformação dos jornais de órgãos de notícias a órgãos de opinião, os jornalistas passaram a ocupar o lugar que, tradicionalmente, cabia a grupos e classes sociais e a partidos políticos.

A “ascensão do partidarismo”, destaca a professora, “deixa o leitor ainda mas desconfiado em relação às notícias”. Por isso, continua, “o jornalista se tornou protagonista da destruição da opinião pública”.

Thaisa nunca deu importância à opinião pública, porque sempre achou que jornalista não tem que dar satisfação a ninguém — isso seria muito comezinho. Prestar contas, sim, mas só aos seus patrociadores, entre os quais o governo estadual, a prefeitura da capital e a Assembléia Legislativa.

Ailton Medeiros contou que o dono do JH, Marcos Aurélio de Sá, “estava preocupado com a imagem do jornal, arranhada por conta das relações de sua editora com a prefeita Micarla de Sousa e o governo Wilma de Faria“.

Mas Thaisa, ao que parece, não vai ficar muito tempo desempregada. A prefeita Micarla de Sousa, logo que soube da demissão da amiga, ligou oferecendo-lhe a direção de jornalismo da TV Ponta Negra. É um reconhecimento justo pelo empenho que Thaisa sempre demonstrou na defesa dos interesses da prefeita.

Longe de ser referência para alguém, Thaisa é uma vergonha para aqueles que encaram o jornalismo com o mínimo de ética, seriedade e respeito — respeito essencialmente ao cidadão, o verdadeiro “patrão” a quem devemos fidelidade.

O que é ser de esquerda

Ando um pouco sem tempo pro blog, mas daqui a pouco eu pinto na área novamente. O Esdras comentou que acha um atraso alguém ainda declarar-se esquerdista convicto e perguntou o que significa ser esquerdista nos dias atuais. Esdras considera esse discurso maniqueísta e atrasado, numa alusão à tese do fim da ideologia defendida por muta gente.

Daniel rebateu dizendo que “a tese do fim da ideologia é ultrapassada”. Para ele, afirmar que “não se pode ser esquerdista convicto é uma afirmação ideológica – firmada numa (falsa) tese do fim dos conflitos, da história e das concepções ideológicas do mundo.”

O debate é salutar, mas algumas tarefas pessoais urgentes me impedem de mergulhar na discussão. Quero sugerir aos navegantes que aprofundem o assunto.

Apenas como contribuição inicial, cito trecho do livro da professora Marilena Chauí, “Simulacro e poder : Uma análise da mídia“, com uma perspectiva filosófica do tema:

“O pensamento e o discurso da direita, apenas variando, alterando e atualizando o estoque de imagens, reiteram o senso comum que permeia toda a sociedade e que constitui o código imediato de explicação e interpretação da realidade, tido como válido para todos.

(…)

Para a esquerda, porém, a dificuldade é imensa porque o pensamento e o discurso são forçados a realizar quatro trabalhos sucessivos ou até mesmo simultâneos: precisam, primeiro, desmontar o snso comum social; em seguida, precisam desmontar a aparência de realidade e verdade que as condições sociais e as práticas existentes parecem possuir, aparência sobre a qual se funda tanto a fala da direita como a compreensão dos demais agentes sociais; precisam, a seguir, renterpretar a realidade, revelar seus fundamentos seretos e suas operações invisíveis para que se possa compreender e explicar o surgimento, as formas e as mudanças da sociedade e da política; e, finalmente, precisam criar uma fala nova, capaz e exprimir a crítica das idéias e práticas existentes, capaz de mostrar aos interlcutores as ilusões do senso comum e, sobretudo, de transformar o interlocutor em parceiro e companheiro para a mudança daquilo que foi criticado.

Assim, enquanto para a direita basta repetir o senso comum produzido por ela mesma, para a esquerda cabe o trabalho da prática e do pensamento críticos, da reflexão sobre o sentido das ações sociais e a abertura do campo histórico das transformações do existente.”

A bola está com vocês. Inté.

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