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Folha publica comentário preconceituoso contra nordestinos

Uma pequena matéria postada no site da Folha.com, sobre o desafio que o ex-presidente FHC fez ao seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva, convidando-o a disputar outra eleição contra ele, rendeu quase 1200 comentários. Em entrevista a um programa de rádio, FHC mandou o seguinte recado para Lula: “Ele se esquece que eu o derrotei duas vezes. Quem sabe ele queira uma terceira. Eu topo.

O devaneio de FHC, porém, tem pouca — para não dizer nenhuma — importância. O que despertou minha atenção e indignação foi o comentário de um leitor, identificado como Ivo Antonio, prontamente publicado pela Folha.com.

Eleitor declarado do tucano, Ivo se referiu aos nordestinos, em tom pejorativo, como aqueles que “tem (sic) como prato preferido farinha e de sobremesa rapadura” e completou afirmando que, se os moradores dessa região não pudessem votar, FHC derrotaria Lula.

SE OS QUE TEM COMO PRATO PREFERIDO FARINHA E DE SOBREMESA RAPADURA. NAO PODER VOTAR. E CONTAR MENTIRA.(onde o molusco e imbativel) ABRO APOSTO E DOU 2 POR 1 A FAVOR DO FHC“, escreveu o leitor, que, como se vê, não domina bem as normas gramaticais.

O comentário reflete o velho preconceito que vigora em camadas do Sul e do Sudeste do Brasil contra os habitantes do Norte e do Nordeste. Ele não citou os nordestinos, mas ao mencionar a farinha e a rapadura, dois ingredientes muito usados na culinária regional, deixou explícito a quem estava se referindo.

Particularmente, não considero ofensa ser chamado de comedor de farinha ou de rapadura. Tenho orgulho da minha condição de nordestino, da herança cultural dessa terra e da capacidade de resistência desse povo historicamente esquecido. Não custa lembrar as sábias palavras de Euclides da Cunha, segundo quem “O sertanejo é, antes de tudo, um forte“.

Mas o comentário do leitor da Folha.com nada tem a ver com o reconhecimento da riqueza cultural dos nordestinos — o que inclui os elementos da nossa culinária, com seus cheiros e sabores apreciados por gente do mundo inteiro. Ele destilou preconceito em cada palavra. É o típico pensamento de setores do Sul e do Sudeste que se julgam superiores aos habitantes das demais regiões do país.

Na eleição de 2010, esse pensamento aflorou com força. Inconformados com a derrota de José Serra (PSDB), os conservadores propagaram a falsa tese de que Dilma Rousseff (PT) só teria sido eleita em função dos votos do Norte e do Nordeste. Mas um levantamento com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelou que a petista derrotaria o tucano mesmo se fossem computados apenas os votos do Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

A xenofobia da elite e da classe média burguesa do Sul e do Sudeste contra os nordestinos não é novidade. Em São Paulo, há um movimento batizado de “SP para Paulistas” que, em manisfesto na internet, defende, entre outros pontos, limites à migração nordestina.

Uma das integrantes do movimento, a estudante de Direito Mayara Petrusco declarou no Twitter, logo após a vitória de Dilma, que “nordestino não é gente, faça um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado“. A declaração lhe rendeu  uma denúncia junto ao Ministério Público Federal, apresentada pela Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional de Pernambuco (OAB-PE). Para a entidade, o ato configurava os crimes de racismo e de incitação pública à pratica delituosa, no caso, homicídio.

Outra integrante do movimento, a atendente de suporte técnico Fabiana Pereira, 35 anos, afirmou que “São Paulo sustenta o Bolsa Família”, o que, em sua opinião, contribui para atrair nordestinos para a cidade. “São Paulo sustenta e eles (nordestinos) decidem quem vai nos governar”, declarou a jovem, em entrevista à Terra Magazine.

O próprio José Serra, quando era governador de São Paulo, em entrevista ao SP TV da Rede Globo, chegou a culpar os migrantes nordestinos pela baixa qualidade de ensino em seu Estado.

É lamentável que isso ainda ocorra no Brasil. É igualmente lamentável que políticos utilizem deste artifício para conquistar votos. Mas é ainda mais triste que veículos como a Folha abram espaço para esses xenófobos exalarem seu preconceito.

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