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O caso Lina Vieira e a verdadeira face do PIG

Já era previsível. O PIG recomeçou os ataques contra a ministra Dilma Rousseff. A indústria de criação de escândalos artificiais havia dado um tempo, mas agora voltou a agir orquestradamente.

O roteiro é sempre o mesmo. O primeiro veículo publica o escândalo em destaque, na primeira página. No dia seguinte, os outros repercutem a farsa. Transforma-se uma versão dos fatos — a que interessa à mídia tucana — na única versão possível.

As contradições começam a aparecer. A farsa cedo ou tarde se torna evidente. O jornalismo de aluguel termina escancarado. Mas o estrago está feito. O alvo da indústria de assassinato de reputações já foi exposto ao escárnio público. A nódoa forjada em sua biografia jamais será removida. Para muitos, fica a versão da farsa.

Nesta nova ofensiva, cube à ‘Veja’ dar o primeiro passo, ressuscitando o factóide do caso Lina Vieira. A ex-secretária da Receita Federal, segundo a revista, contou a um amigo que havia encontrado, dois meses depois, a agenda onde anotou a mão a data do encontro sigiloso com a ministra da Casa Civil: 9 de outubro de 2008.

O rigor jornalístico da ‘Veja’ é uma coisa invejável. A revista publica, com estardalhaço, uma informação baseada apenas no relato do “amigo anônimo”, como se isso fosse uma coisa absolutamente crível. É preciso ser ingênuo demais pra ser convencido dessa lorota.

No post anterior, comentei que a novela de Lina Vieira era muito inverossímel. Ninguém leva tanto tempo pra encontrar uma simples agenda. Mas isso nem é o mais importante. Quando comparamos as muitas versões contadas pela ex-secretária, os buracos ficam claros.

Primeiro, Lina não se lembrava do dia do encontro com Dilma, mas sussurou aos senadores da oposição, nos bastidores, que a data era 19 de dezembro. Oficialmente, disse somente que a reunião aconteceu próximo do final do ano passado, provavelmente à tarde e que o gabinete da ministra estava na penumbra.

Depois, subitamente, Lina encontra a agenda e ficamos sabendo que o encontro ocorreu no dia 9 de outubro, às 10h13. Aquela história do dia 19 de dezembro, à tarde, na penumbra, não passou de um “equívoco” da ex-comandante do fisco brasileiro. É muito desatenta a nossa “cidadã natalense”, não?! 

No outro post, observei ainda que a ‘Veja’ tentou dar ares de novidade a uma informação velha. É a velha tática de vender um blefe como se fosse nitroglicerina pura.

O senador Aloizio Mercadante (PT-SP), durante o depoimento de Lina Viera à Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em 18 de agosto, listou as datas das audiências que Lina teve com Dilma.

No dia 9 de outubro, conforme revelou o petista naquela ocasião, Lina esteve na Casa Civil para tratar com a ministra do Fórum CEOS, que se realizaria no dia 10 de outubro daquele ano. A própria Lina, respondendo ao senador, confirmou a informação.

Então, cadê a novidade? A própria ‘Veja’ reconhece que a data já havia sido confirmada pelo governo:

Em agosto passado, o senador Romero Jucá, um dos principais defensores do governo no Congresso, divulgou um relatório com as entradas oficiais de Lina no Palácio do Planalto. De acordo com Jucá, a ex-secretária esteve no Planalto quatro vezes – em outubro de 2008 e nos meses de janeiro, fevereiro e maio de 2009. O único ingresso registrado no ano passado, portanto, ocorreu em 9 de outubro, às 10h13. Lina, segundo os registros oficiais, deixou o Planalto às 11h29 do mesmo dia.”

O engraçado é que muita gente desdenha quando dizemos que a imprensa conservadora se transformou num apêndice da oposição demo-tucana e age como se fosse um partido político. Na semana em que o presidente Lula e a ministra Dilma percorreram o sertão nordestino para inspecionar as obras de revitalização do rio São Francisco, desenterram esse factóide protagonizado pela ex-secretária. O PIG mostrou sua verdadeira face.

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‘Veja’ desenterra factóide de Lina Vieira

A revista ‘Veja’, panfleto reacionário da Editora Abril, ressuscitou o factóide do encontro sigiloso que a ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, jurou ter tido com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. No encontro, segundo Lina, a ministra pediu para “acelerar” as investigações contra o filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Dilma assegurou que o encontro misterioso nunca aconteceu.

Dois meses depois, a revista afirma que o encontro teria ocorrido no dia 9 de outubro de 2008. Quando trouxe o caso à tona, Lina não se lembrava a hora, o dia nem o mês da reunião. Mas a ‘Veja’ sustenta que, agora, a ex-secretária encontrou a agenda perdida, onde constaria o registro correto da data do encontro, com a singela observação: “Dar retorno à ministra sobre família Sarney”.

De acordo com a revista, Lina confidenciara a “um amigo” (quem?!) que achou a agenda — outrora perdida em meio às quinquilharias que haviam sido despachadas para Natal. A revista conta que procurou Lina para confirmar a história, mas a ex-secretária respondeu que não falaria mais sobre o caso.

Agora, respondam, por favor: Qual a credibilidade de uma notícia dessa? Como podemos tomar como crível uma informação baseada somente na revelação de um amigo anônimo? Além disso, mesmo que a ex-secretária venha a público confirmar que encontrou a referida agenda, isso prova o quê? Qualquer pessoa pode forjar o registro de um compromisso que nunca existiu em sua agenda particular. Como alguém pode demorar dois longos meses para encontrar uma simples agenda?! Essa novelinha é inverossímel demais.

Fora que não há, verdadeiramente, nenhuma novidade na revelação desta data. Quando Lina depôs na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, no dia 18 de agosto, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) divulgou um levantamento com o registro das datas em que a ex-secretária se encontrara com a ministra Dilma Rousseff. Conforme o relatório, Lina esteve com Dilma nos dias 14 de agosto e 9 de outubro de 2008 e nos dias 22 de janeiro, 16 de fevereiro e 19 de maio de 2009.

Vamos, então, repassar alguns pontos: Lina disse que havia sido “chamada às pressas” pela ministra para um encontro “sigiloso”; contou que ouvira da chefe de gabinete da ministra, Erenice Guerra, a orientação para que o encontro fosse mantido em segredo; quando confrontada com o levantamento apresentado pelo senador Aloizio Mercadante, sustentou que o encontro aconteceu, mas que não havia sido oficialmente registrado.

Não é preciso fazer muito esforço para juntar as peças do quebra-cabeça: se não constava na agenda oficial da ministra, o encontro “às pressas” a que Lina se refere não poderia jamais ter ocorrido no dia 9 de outubro, porque — truísmo dos truísmos!!! — o encontro do dia 9 de outubro estava registrado na AGENDA OFICIAL da ministra. 

Daí ficamos assim: Lina não se lembrava da data do encontro com Dilma. Agora, quando Dilma começa a ensaiar uma recuperação política, após longa exposição negativa na imprensa, ressuscitam este factóide.

É coincidência demais para o meu gosto. Melhor botar as barbas de molho e ficar de olhos bem abertos com o que ainda vem por aí.

Caso Dilma x Lina: Ombudsman expõe falhas na cobertura

Mesmo com atraso, reproduzo a crítica do ombusdman da Folha de São Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, à cobertura do caso Dilma x Lina:

 

É difícil desvendar vespeiros

O assunto da tal reunião entre Lina Vieira e Dilma Rousseff é complexo, mas é para isso que há meios de comunicação

O “FOI-NÃO FOI” ao Planalto da ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira para falar com a ministra Dilma Rousseff resultou na exposição pública do vespeiro de grupos políticos e sindicais que lutam pelo poder no órgão.

A Folha, que deflagrou o processo ao publicar entrevista de Vieira em 9 de agosto, na qual ela disse ter-se encontrado com Rousseff a sós “no final do ano passado”, não tem conseguido dar a seu leitor visão clara sobre que interesses de que pessoas estão em jogo nem esclarecer se a tal reunião de fato ocorreu e qual teria sido seu conteúdo e contexto.

O assunto é mesmo complexo. A ponto de um suposto peessedebista, Everardo Maciel, atacar a ex-secretária, que agora é estandarte da oposição, e o Ipea, acusado por antigovernistas de ter sido instrumentalizado pelo PT, divulgar estudo que serve como defesa de Vieira a qual, ao tomar posse, foi considerada ferramenta do PT para “destucanizar” a Receita.

Mas é para isso que existem os meios de comunicação: explicar situações difíceis de entender e relatar episódios complicados de reconstituir com segurança. O jornal não tem sido capaz de mostrar o que distingue a gestão de Vieira das anteriores. Afirma que as exonerações ocorridas após a sua saída constituem “a mais grave crise da história da Receita”, mas não o comprova (por exemplo, comparando quantos funcionários de alto e médio escalões deixaram as funções quando ela assumiu).

Na quinta-feira, classificou o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Machado, como “eminência parda” da Receita, mas não o ouviu nem identificou sua posição no entrevero. Também não escutou o ex-secretário Jorge Rachid. E sua entrevista com o ex-secretário Everardo Maciel saiu com atraso, mais curta e menos enfática, em comparação com as que ele deu a outros veículos.

Também foi com atraso que o jornal noticiou que o marido de Vieira foi ministro interino do governo FHC, o que não é muito relevante, mas não deixa de ser curioso.

A Folha também não revelou se os demissionários, que dizem ter deixado seus cargos para impedir a “politização” do fisco, ficaram sem emprego ou perderam remuneração, dado que ajudaria o leitor a balizar o grau de abnegação e idealismo que lhes deve atribuir.

Passadas três semanas, ainda não se sabe quem mentiu. Estabelecer o que é mentira e se ela constitui sempre desvio ético ou às vezes pode ser admissível ou até louvável já ocupou as mentes dos maiores filósofos, que não chegaram a consenso, como revela o interessante livro recomendado abaixo.

PARA LER
“A Saga do Mentiroso – Uma História da Falsidade”, de Jeremy Campbell, tradução de Virginia Martins Cortez, Graphia, 2008 (a partir de R$ 48)

Ex-secretário da Receita Federal de FHC afirma:Casos Petrobras e Dilma/Lina “são farsa”

Por Bob Fernandes na Terra Magazine:

O pernambucano Everardo Maciel mora há 34 anos em Brasília. Foi secretário executivo em 4 ministérios: Fazenda, Educação, Interior e Casa Civil, e foi Secretário da Fazenda no Distrito Federal. Everardo é hoje consultor do FMI, da ONU, integra 10 conselhos superiores, entre eles os da FIESP, Federação do Comércio e Associação Comercial de São Paulo e é do Conselho Consultivo do Conselho Nacional de Justiça.

Mas, nestes tempos futebolísticos, às vésperas de 2010, com tudo o que está no ar e nas manchetes e, em especial, diante do que afirma Everardo Maciel na entrevista que se segue, é importantíssimo ressaltar que ele foi, por longos 8 anos, “O” Secretário da Receita Federal dos governos Fernando Henrique Cardoso.

Dito isso, vamos ao que, sem meias palavras, afirma Everardo Maciel sobre os rumorosíssimos casos da dita “manobra contábil” da Petrobras – que desaguou numa CPI -, da suposta conversa entre a Ministra Dilma Rousseff e a ex-Secretaria da Receita Lina Vieira e da alardeada “pressão de grandes contribuintes”, fator que explicaria a queda na arrecadação:

– Não passam de factóides. Não passam de uma farsa.

Sobre a suposta manobra contábil que ganhou asas e virou fato quase inquestionável, diz o ex-Secretário da Receita Federal de FHC:

-É farsa, factóide… a Petrobras tem ABSOLUTO DIREITO (NR: Destaque a pedido do entrevistado) de escolher o regime de caixa ou de competência para variações cambiais, por sua própria natureza imprevisível, em qualquer época do ano. É bom lembrar que a opção pelo regime de caixa ou de competência não repercute sobre o valor do imposto a pagar, mas, sim, a data do pagamento. Essas coisas todas são demasiado elementares.

E o caso Dilma/Lina?

– Se ocorreu o diálogo, ele tem duas qualificações: ou era algo muito grave ou algo banal. Se era banal deveria ser esquecido e não estar nas manchetes. Se era grave deveria ter sido denunciado e chegado às manchetes em dezembro, quando supostamente ocorreu o diálogo. Ninguém pode fazer juízo de conveniência ou oportunidade sobre matéria que pode ser qualificada como infração. Caso contrário, vai parecer oportunismo.

E a queda na arrecadação por conta de alardeada pressão de grandes contribuintes?

-Farsa, factóide para tentar explicar, indevidamente, a queda na arrecadação.

Sobre essa mesma queda e alardeadas pressões, Everardo Maciel provoca com uma bateria de perguntas; que ainda não foram respondidas porque, convenientemente, ainda não foram feitas:

– Quais são os nomes dos grandes contribuintes, quando e de que forma pressionaram a Receita? Quando foi inciada a fiscalização dos fatos relacionados com o senhor Fernando Sarney? Quantos foram os contribuintes de grande porte no Brasil que foram fiscalizados no primeiro semestre deste ano, comparado com o mesmo período de anos anteriores e qual foi o volume de lançamentos? A Receita, em algum momento, expediu uma solução de consulta que tratasse dos casos de variações cambiais como os alegados em relação à Petrobras?

Com a palavra Everardo Maciel, Secretário da Receita Federal nos 8 anos de governo Fernando Henrique Cardoso:

Terra Magazine – Algo perplexo soube que o senhor, Secretário da Receita Federal por 8 anos nos governos de Fernando Henrique Cardoso, não tem a opinião que se imaginaria, e que está nas manchetes, editoriais e colunas de opinão, sobre o caso das ditas manobras contábeis da Petrobras, agora uma CPI?
Everardo Maciel –
Independentemente de ter trabalhado em qualquer governo, meu compromisso é dizer a verdade que eu conheço. Então, a verdade é que a discussão sobre essa suposta manobra contábil da Petrobras é rigorosamente uma farsa.

Uma farsa, um factóide?
É exatamente isso. Farsa, factóide. E por quê? Porque não se pode falar de manobra contábil, porque a contabilidade só tem um regime, que é o de competência.

Traduzindo em miúdos, aqui para leigos como eu….
Eu faço um registro competência… quer dizer o seguinte: os fatos são registrados em função da data que ocorreram e não da data em que foram liquidados. Por exemplo: eu hoje recebo uma receita. Se estou no regime de competência, a receita é apurada hoje. Entretanto, se o pagamento desta receita é feito no próximo mês, eu diria que a competência é agosto e o caixa é setembro. Isso é competência e caixa, esta é a diferença entre competência e caixa, de uma forma bem simples.

Cabe uma pergunta, de maneira bem simples: então, Secretário, há um bando de gente incompetente discutindo a competência?
Eu não chegaria a fazer essa observação assim porque não consigo identificar quem fez essas declarações, mas certamente quem as fez foi, para dizer o mínimo, pouco feliz.

Por que o senhor se refere, usa as expressões, “farsa” e “factóide”?
Vejamos: farsa ou factóide, como queiram, primeiro para explicar indevidamente a queda havida na arrecadação. Agora, a Petrobras, no meu entender, tem ABSOLUTO DIREITO (NR: Destaque a pedido do entrevistado) de escolher o regime de caixa ou de competência para variações cambiais, por sua própria natureza imprevisível, em qualquer época do ano. É bom lembrar que a opção pelo regime de caixa ou de competência não repercute sobre o valor do imposto a pagar, mas, sim, a data do pagamento. Essas coisas todas são demasiado elementares. Para especialistas.

Então por que todo esse banzé no Oeste?
Não estou fazendo juízo de valor sobre a competência de ninguém, mas, neste caso, para o governo, me desculpem o trocadilho, o que contava era o caixa. E o caixa caiu. Para tentar explicar por que a arrecadação estava caindo, num primeiro momento se utilizou o factóide Petrobras. No segundo, se buscou explicações imprecisas sobre eventuais pressões de grandes contribuintes, às vezes qualificados em declarações em off como financiadores de campanha. Entretanto, não se identificou quem são esses grandes “financiadores de campanha” ou “contribuintes”. Desse modo, a interpretação caiu no campo da injúria.

O senhor tem quantos anos de Brasília?
Não consecutivamente, 34 anos. Descontado o período que passei fora, 30 anos.

Diante desse tempo, o senhor teria alguma espécie de dúvida de que o pano de fundo disso aí é a eleição 2010?
Eu acho que nesse caso, em particular e em primeiro lugar, o pano de fundo era a sobrevivência política de uma facção sindical dentro da Receita.

Seria o pessoal que o atormentou durante oito anos?
Não todo tempo. E de qualquer sorte, de forma inócua.

Sim, mas me refiro para o que reverbera para além da secretaria,do que chega às manchetes… os casos da Petrobras, um atrás do outro.
Todos esses casos são, serão esclarecidos, e acabam, acabarão sendo esquecidos, perderão qualquer serventia para 2010. São factóides de vida curta. Depois disso chegamos à terceira fase do factóide.

Mais ainda? Qual é?
Aí vem a história do virtual diálogo que teria ocorrido entre a ministra-chefe da casa civil, Dilma Rousseff, e a secretária da receita, Lina Vieira. Não tem como se assegurar se houve ou deixou de haver o diálogo, mormente que teria sido entre duas pessoas, sem testemunhas. Agora tomemos como verdadeiro que tenha ocorrido o diálogo. Se ocorreu o diálogo, ele tem duas qualificações: ou era algo muito grave ou algo banal.

Sim, e aí?
Se era algo banal, deveria ser esquecido e não estar nas manchetes. Se era algo grave, deveria ter sido denunciado e chegado às manchetes em dezembro, quando supostamente ocorreu o diálogo. Ninguém pode fazer juízo de conveniência ou oportunidade sobre matéria que pode ser qualificada como infração. Caso contrário, vai parecer oportunismo.

À parte suas funções conhecidas, de especialista, por que coisas tão óbvias como essa que o senhor tá dizendo não são ditas? Já há dois meses essa conversa no ar sem que se toque nos pontos certos, óbvios…
Eu não sei porque as pessoas não fazem as perguntas adequadas…

Talvez porque elas sejam incômodas para o jogo, para esse amontoado de simulacros que o senhor aponta? Quais seriam as perguntas reveladoras?
Por exemplo: quais são os nomes dos grandes contribuintes, quando e de que forma pressionaram a Receita? Quando foi inciada a fiscalização dos fatos relacionados com o senhor Fernando Sarney? Quantos foram os contribuintes de grande porte no Brasil que foram fiscalizados no primeiro semestre deste ano, comparado com o mesmo período de anos anteriores e qual foi o volume de lançamentos? Ainda uma outra pergunta: a Receita, em algum momento, expediu uma solução de consulta que tratasse dos casos de variações cambiais como os alegados em relação à Petrobras? Respostas a isso permitiriam lançar luz sobre os assuntos.

Última pergunta, valendo-me de um jargão jornalístico: trata-se então de um amontoado de cascatas?
Não tenho o brilhantismo do jornalista para construir uma frase tão fortemente elegante e esclarecedora, mas, modestamente, prefiro dizer: farsa e factóide. Ao menos, no mínimo, algumas das coisas que tenho visto, lido e ouvido, não passam de factóides. Não passam de uma farsa.

As muitas versões de Lina Vieira

A ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, confirmou hoje (18), em depoimento na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o polêmico encontro com a ministra Dilma Rousseff, no final do ano passado, quando a chefe da Casa Civil teria pedido a então comandandte do fisco para “agilizar” as investigações envolvendo empresas da família Sarney.

Esse foi o único ponto que Lina sustentou até o fim, sem titubear, mesmo não apresentando nenhuma prova do suposto encontro – nem ao menos lembrar a data e a hora da reunião secreta.

Desde que deu a controversa entrevista à Folha de São Paulo (09/08), Lina contou versões diferentes para a mesma história.

Ao jornal, a ex-secretária disse que interpretou o hipotético pedido de Dilma para “agilizar” as investigações com um recado para “encerrar” o caso. Para Lina, o pedido era motivado pela eleição no Senado.

Estava no processo de eleição do Senado, acho que não queriam problema com Sarney“, declarou.

Interrogada pelos senadores, Lina mudou a versão: negou que tivesse sido pressonada pela ministra, declarou que o pedido de Dilma foi apenas para “dar encaminhamento célere” às investigações e afirmou que a chefe da Casa Civil, em nenhum momento, mencionara a eleição no Senado durante a conversa.

O senador Aloízio Mercadante (PT-SP) observou que Lina, claramente, caíra em contradição. Lina disse uma coisa à Folha de São Paulo (“Interpretei o pedido da ministra para encerrar as investigações“) e outra à CCJ (“Entendi o pedido da ministra no sentido de dar encaminhamento célere às investigações. Não me senti pressionada. Não houve motivação política no pedido“).

Portanto, em uma das situações estava mentindo. Mercadante lembrou que, se o encontro tivesse realmente ocorrido e a ministra tivesse tentado interferir nas investigações da Receita Federal, “Dilma teria cometido um crime“. Mas Lina teria cometido “prevaricação“, continuou o petista, por não haver denunciado a interferência indevida aos seus superiores.

Nós só temos duas alternativas aqui: a senhora prevaricou ou não está falando a verdade”, declarou o senador de São Paulo.

Lina negou a prevaricação, mas não explicou por que não tornou o episódio público antes de ser exonerada da Receita Federal.

Pressionada, Lina admitiu não se lembrar do mês, do dia nem mesmo da hora do encontro na Casa Civil. Justificou o esquecimento dizendo que o encontro não estava registrado em sua agenda oficial. Depois, disse que era possível que houvesse algum registro em sua agenda pessoal, mas ponderou que estava de mudança e não conseguira, ainda, localizar o caderno particular.

À Folha, Lina descreveu a roupa que a ministra vestia no dia do encontro: “Estava com um xale, por cima de uma blusa, de óculos. Não estava, assim, de terninho.

Mercadante quis saber se Lina lembrava da roupa que a ministra usava em outras reuniões em que a ex-secretára da RF esteve presente. Lina respondeu que não lembrava.

Mercadante insistiu: “Mas a senhora só lembra da roupa que a ministra usava especificamente nesse dia? Não lembra a data do suposto encontro, mas descreve em detalhes a roupa que a ministra usava“.

Lina fez de conta que não era com ela.

A audiência na CCJ terminou, Lina não conseguiu provar o encontro e saiu desacreditada após as inexplicáveis mudanças de discurso.

Todos os holofotes para Lina Vieira

Lina Viera em depoimento na CCJ do Senado

Lina Vieira em depoimento na CCJ do Senado

A ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, depõe neste momento na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. A oposição convocou Lina Vieira para ouvi-la sobre sobre suposta reunião com a ministra Dilma Rousseff, quando a chefe da Casa Civil teria pedido pressa nas investigações do fisco sobre irregularidades nas empresas  da família Sarney. Dilma Rousseff nega o encontro.

Lina começou o depoimento listando suas “realizações” como secretária de Tributação do Rio Grande do Norte nos governos Garibaldi Filho e Wilma de Faria. Em seguida, a servidora relatou sobre o convite para chefiar a Receita Federal. Lina Vieira atribuiu a queda na arrecadação do fisco em sua gestão à “bolha atípica de 2008”, numa referência à crise econômica mundial. 

O encontro com Dilma

Lina reafirmou que se encontrou, em particular, com Dilma: “O encontro houve e reitero a entrevista concedida à Folha de São Paulo. Em fins do ano passado, Dilma me chamou ao seu gabinete, através de Erenice Guerra [chefe de gabinete da ministra]. Nesse encontro a sós, a ministra me perguntou se eu podia agilizar a fiscalização do filho de Sarney. Não procurei o jornal Folha de São Paulo nem nenhum outro veículo de imprensa para fazer declarações sobre este encontro. O que aconteceu foi que fui procurada por dois repórteres da Folha, que me pediram tão somente para confirmar o que eles já sabiam.”

Lina declarou que não desejava transformar o assunto numa polêmica. “Não busquei, não desejei nem desejo toda essa polêmica. Não vim a essa comissão com o propósito de fazer o jogo de ‘A’, ‘B’, ‘X’ ou ‘Y’. Meu único interesse é preservar minha história de vida.”

Perguntada sobre a data do suposto encontro com a ministra, Lina disse que não se lembrava do dia nem da hora da audiência: “Confirmo o encontro com a ministra. Foi um encontro rápido. Erenice [Guerra, chefe de gabinete da ministra] me levou à sala dela. Ela me pediu que agilizasse a investigação. Saí dali e retornei para a Receita Federal. Tentei relembrar isso [a data do encontro], mas na minha agenda isso não constou. Mas não preciso de agenda pra falar a verdade. Reafirmo que lá estive [na Casa Civil], o assunto que foi tratado e a forma como foi tratado. Não comentei nada com outros funcionários, só com a minha chefe de gabinete“.

Lina negou que tivesse interpretado o hipotético pedido de Dilma como uma solicitação para “encerrar” as investigações contra o filho de Sarney. “Eu entendi o pedido da ministra como se fosse para concluir logo, dar encaminhamento célere. Não dei conhecimento ao ministro da Fazenda [Guido Mantega] e não tomei qualquer providência nem dei qualquer retorno [à ministra], porque a fiscalização corria em segredo de Justiça.”

Não me senti pressionada pela minitra Dilma Rousseff. Fui ao gabinete e ela me pediu que desse agilidade à investigação. Interpretei que era pra dar andamento célere, resolver as pendências e encerrar as investigações. Não senti no pedido da ministra qualquer pressão. Era um processo que teve início em 2007 e está correndo em segredo de Justiça. O próprio judiciário determinou que agilizasse a investigação e a Receita Federal tá cumprindo [a determinação].”

Lina disse que não teve nenhum outro encontro de natureza sigilosa com a ministra nem com outros membros do governo e disse que aceitaria uma “acareação” com Dilma para “confrontação da verdade“. Pressionada pela oposição, a ex-secretária se negou a falar sobre a Petrobrás na CCJ.

O senador Wellington Salgado (PMDB-MG) insistiu em perguntar o dia e o horário do encontro com a ministra. “Não me lembro do dia que estive com a ministra, porque isso não constou na minha agenda oficial. Talvez eu tenha alguma anotação na minha agenda pessoal, mas estou de mudança“. Diante da “amésia” de Lina, o senador desistiu de continuar as perguntas.

O senador Almeida Lima (PSDB-SE) insinuou que Lina Vieira havia cometido “prevaricação no serviço público”, uma vez que não levou o caso aos seus superiores. “Não prevariquei. Diante do pedido da ministra, busquei informações e detectei que todos os processos estavam correndo dentro do previsto e em segredo de Justiça“. Antes, Lina havia assegurado que não tomara “nenhuma providência” sobre o teórico pedido da ministra.

Os senadores continuam interrogando a ministra.

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